“Correio do Tempo”, de Mário Benedetti – por Pávila Vicentini Faeti

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Quando iniciamos a leitura de uma obra literária, esperamos poder reconhecê-la por traços característicos que nos levem a compreender o que o autor queria dizer, e o significado do título da obra. A escolha da mesma se dá pela curiosidade que quase sempre é suprida ou frustrada, mas que encontra a resposta que estava procurando ao ler o livro escolhido.

O livro Correio do Tempo trata de relações delicadas que perpassam o tempo e que se encontram na realidade da sociedade capitalista. Relações permeadas de lutas, relações que transbordam humanidade. Cada conto, cada momento lido, nos leva a perceber a infinidade de implicações que rodeiam nossas relações, por mais banais que pareçam. Estamos sempre em luta, em constante luta.

Em nossa vida privada e publica, estamos cercados por interesses que fogem ao nosso controle e que mudam nossas vidas, mesmo quando nos tornamos apenas os que se deliciam das conseqüências, quando somos apenas os coadjuvantes dessa história.

A política está estampada em cada momento de nossas vidas, como um papel de parede em uma casa que determina a diferença de cada ambiente. Os momentos políticos que a sociedade vive pintam de maneira diferente cada momento e escolha que fazemos em nossa vida, e determinam nossos passos.

O marxismo, com o propósito que o homem seja cada vez mais humano, inspira as lutas cotidianas. De um lado, um ator político que deseja que as lutas de classe possam trazer mais igualdade; que as mulheres possam amar livremente como os homens; que o capitalismo não destrua as boas lembranças de tempos mais tranqüilos, que passam a ser esquecidos em vista da construção dos monumentos capitais do operário que se entrelaça ao burguês e é traído por ingenuidade, da inocência roubada que leva também à morte de muitos, das perseguições de guerra, de ideologias que roubam pessoas de pessoas e fazem da ausência uma pessoa, um companheiro constante a nos seguir.

As lutas de cada país saem de um contexto distante de nossa realidade e atingem nossa vida. Existem, por certo, aqueles que jamais são atingidos por coisa alguma. Não é desses que nos atemos quando analisamos a beleza da vida em movimento, pois estes não representam nenhum significado nas lutas cotidianas, são apenas pessoas que passam pela vida, mais que não a vivem.

Vamos pensar naqueles que vivem a vida, que se entregam ao amor, amor pela vida, pela ideologia, pelo poder, pelo homem, amor que é capaz de transformar tudo em luta.

Cada conto lido no livro de Mário Benedetti nos remete a realidades tão próximas a nossa, não pelos seus acontecimentos, mas pelo significado de cada coisa, de cada descrição de toques, lugares e desejos.

Amores que são destruídos e construídos a partir de perseguição da ditadura; amores não realizados pelas diferenças sociais, esperas, chegadas e partidas. Lutas de classe que foge do âmbito operário versus capitalista e que chegam à realidade homem ladrão e mulher burguesa, que contrastam e nos levam a enxergar que nossa vida é uma rotina política.

Descrições saudosas de um passado militante que não volta, de amores que se vão com a luta. De lutas que levam toda uma vida e que nem sempre se chega à vitória, mas muitas vezes, a vitória parece derrota, e a derrota torna-se a mais importante das vitórias.

A liberdade de poder desejar o que se quer desejar e poder ter o que é possível possuir, liberdade de lutar, mesmo que sobre codinomes e máscaras, mas aí a necessidade de viver é maior que a própria identidade.

Lembranças que são pesadelos, que roubam a vida de quem as têm e que não deve pertencer a mais ninguém, para que suas vidas também não sejam roubadas.

A percepção de um regime que rouba o direito de ser pessoa e o aliena em utilidade e eficiência. Os que resistem a isso são marcados para sempre com a violência, a prisão e muitas vezes a morte. Rouba o direito da mãe de ser mãe e tornam um assassino pai.

Enfim, o livro correio do tempo, mostra-nos que o tempo seja o tempo que passa, ou tempo que se tem, faz que sejamos quem somos e cobra-nos também um alto preço por desejar-mos ser aquilo que não querem que sejamos, por sonharmos com tempos melhores quando tempos melhores não podem chegar até nós.

Lutas que consomem vidas e que sobrevivem ao tempo justamente porque vidas foram oferecidas. E são dadas em lutas que sequer percebemos, em momentos que muitas vezes nem paramos para ver que enquanto vivemos muitos ainda estão nas sombras e sofrem perseguições por terem ideais de uma vida melhor. Ditaduras que na América Latina roubaram vidas, identidades e fizeram com que muitos não tivessem nem mesmo a certeza se estão mortos ou se são apenas recordações de coisas e pessoas que nem existiram.

O tempo pode passar em nossas vidas e podemos apenas olhar para o tempo e chegarmos ao fim. Mas podemos também ser aqueles que fazem algo com o tempo que temos, que fazem com que mais do que utilidade seja significado o seu tempo; e que mesmo no silencio e na solidão sua voz seja ouvida como quem luta, mesmo que sozinho, para que o tempo não nos roube mais de vida, para que o tempo seja um instrumento de luta e vitória e não mais um momento de deixar que as cosas passem, que a feridas cicatrizem. O tempo não cura feridas, o tempo abre novas feridas.


* Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá.

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