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Massa e Poder, de Elias Canetti – por Francisco Foot Hardman

28/04/2010

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Do medo primitivo de tocar em outro corpo e de ser tocado, poderia nascer algo mais terrível e incontrolável? As massas, na história humana, segundo Elias Canetti, brotam exatamente daí, nascendo com elas essa vontade desmesurada de autoproteção e de crescimento sem limites. Quanto ao poder, funda-se, em sua origem, numa estratégia do sobrevivente que nunca consegue abandonar seus traços paranóicos: o delírio da imortalidade precisa reproduzir, em escalas múltiplas, a cadeia infernal de obediências cegas que vai do mandar ao fazer ao mandar matar.

A história deste Massa e poder, herdeiro das mais elevadas tradições da literatura iluminista e, sem dúvida, um dos ensaios mais importantes já escritos sobre a humanidade no século XX, tem a ver diretamente com o terror infundido a Canetti, ainda jovem, nas ruas de Viena e Berlim, pelas primeiras manifestações populares de adesão ao nazi-fascismo. O autor passará quase trinta anos decifrando as raízes mais profundas do mal, inclusive e especialmente em suas aparições corriqueiras e banais. Incorpora, sempre de modo polêmico e pessoal, acervo bibliográfico vastíssimo, indo da arqueologia e antropologia à história das religiões, da psicanálise à economia, da ciência política à sociologia da cultura.

Mas outra grandeza que ressalta da leitura de Massa e poder é seu valor como prosa literária. Quem já travou contato com o realismo polifônico e não-dogmático de Canetti, com sua ética radical e despojada que indissocia o ato de escrever da noção de responsabilidade, traços marcantes e presentes nos ensaios de A consciência das palavras, em todos os livros de suas cativantes memórias, em seu romance Auto-de-fé, entre outros escritos, reconhecerá, aqui neste volume, o grande autor de gênio e estilo inconfundíveis: a mesma inteligência arrasadora, a mesma voz solitária revoltando-se contra o triunfo da morte, hoje visível não só nas guerras mas no sistema desenfreado de multiplicação das coisas; a mesma ironia mordaz rindo das vaidades arrogantes dos literatos da moda; a mesma razão apaixonada perguntando-se, todo o tempo, se os homens, algum dia, terão tempo, dignidade e saber para tornarem-se de fato seres humanos.

Combates sem nenhuma certeza de vitória, perguntas sem resposta, vale, no entreato, defronta-se com esses duplos tão agudamente esmiuçados em Massa e poder: mandar/obedecer; matar/sobreviver; medo/voracidade; paranóia/poder. Quando não pela arqueologia absolutamente desafiadora que nos traz a propósito dos fundamentos da violência contemporânea.

Sobre o autor

Filho de judeus sefardins, Elias Canetti nasceu em 1905, em Ruschuk, na Bulgária. Viveu em Londres, Viena, Frankfurt e Zurique, onde morreu em 1984. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1981. de sua autoria, já foram publicadas no Brasil Auto-de-fé (Nova Fronteira, 1982 / CosacNaify, 2004), Vozes de Marrakech (L&PM, 1987), O outro processo (Espaço e Tempo, 1988), O todo-ouvidos (Espaço e Tempo, 1989) e, pela Companhia das Letras, A consciência das palavras (1990) e sua trilogia autobiográfica, formada por A língua absolvida (1987), Uma luz em meu ouvido (1988) e O jogo dos olhos (1990).


* Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas. Texto da orelha da obra.

Os labirintos das publicações eletrônicas – por Reginaldo Dias

24/04/2010

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O livro eletrônico é uma realidade a que os autores, mais cedo ou mais tarde, tendem a aderir. Antonio Roberto de Paula, sempre na vanguarda, já caminha para seu segundo título. Willame Prado, que escreve neste espaço, também aderiu à tendência. Eu ainda não produzi o meu e-book, mas convivo com a publicação eletrônica na vida acadêmica. São raros os periódicos científicos importantes que ainda preservam edições impressas. Como regra, mesmo quando ainda recebem versão impressa, eles devem estar disponíveis na internet.

Embora a obra literária seja um universo em que o culto pelo livro impresso sobreviva com mais força, encontro paralelos interessantes entre os recursos disponíveis nas publicações acadêmicas eletrônicas e certa produção literária de vanguarda.

A literatura científica, como se sabe, sustenta-se na novidade que a pesquisa então divulgada apresenta e no diálogo que mantém com o que havia sido e vem sendo produzido. Há, portanto, um jogo obrigatório de referências. O leitor leigo talvez considere, com bons motivos, uma chatice aquele conjunto de citações e de indicações bibliográficas. Isso pode ser aliviado, mas não eliminado. O pesquisador acadêmico não é o novo Adão, aquele que teve a prerrogativa de dar nome a tudo. O diálogo com seus pares é obrigatório. Era e é assim com as publicações impressas. Tem de ser assim com as publicações eletrônicas.

Há uma diferença, porém. Enquanto na publicação impressa você tem que ir atrás do livro ou do artigo citado, na publicação eletrônica, supondo que a referência  seja outro texto eletrônico disponibilizado na internet, a indicação vira um link. Você pode ler, imediatamente, o que a referência contém. Se essa referência tiver outros links, você pode ir a eles e abrir outras janelas. E isso pode acontecer em uma sucessão sem fim. Se não tomar cuidado, o leitor pode se flagrar em um labirinto. Imagina-se que o leitor, a exemplo do que fez Teseu na mitologia, tenha controle sobre o percurso que realiza, mas tais facilidades tecnológicas alteram suas opções e enriquecem sua leitura. Não se trata mais de uma leitura linear.

Se o caso é a relação de livros com labirintos, eu bem poderia fazer paralelos com Jorge Luiz Borges.Ocorre-me, entretanto, citar outro argentino genial, Julio Cortazar. Em O jogo de amarelinha, considerado sua obra-prima, ela permite ao leitor sorver a narrativa de forma não convencional. Em vez de seguir a seqüência normal das páginas,  ele pode fazer outro percurso, saltando casas, como no jogo que dá o título ao livro.

Lembro-me, também, de um livro menos celebrado, chamado Dicionário Kazar, do escritor Milorad Pavitch, em que há um procedimento inspirado nesse jogo literário. O livro conta uma história, mas tem a estrutura de um dicionário, ou seja, é composto de verbetes. O leitor tanto pode seguir o caminho linear quanto eleger outro percurso. Ao ler um verbete, ele encontrará referência de outros. Ele pode esperar para encontrar esses verbetes na seqüência normal ou se remeter diretamente a eles. Lá chegando, encontrará outras referências. E assim por diante. No final, a narrativa se torna inteligível, mas o caminho, em que se afirma a inventividade do leitor, faz toda a diferença.

Sou daqueles que sentirão saudades do livro impresso, caso eles se tornem obsoletos, mas o universo que se abre é fascinante. Por enquanto, podemos sorver as virtudes dos dois universos.


* Docente do Departamento de História, Universidade Estadual de Maringá; Doutor em História. Publicado na coluna Entrelinhas, em O Diário do Norte do Paraná, 21 de abril de 2010.

Humanidade miserável – por Aurora Bernardini

14/04/2010

* Em seu primeiro romance, Dostoiévski trouxe à tona os sentimentos e infortúnios dos excluídos de São Petersburgo

Um mundo multiforme e contraditório, ao qual se referiu Igor Vólguin – estudioso da obra de Dostoiévski (1821-1881) – configurou-se em volta do escritor desde sua primeira infância. Doçura e crueldade, miséria e esbanjamento, fantasia e realidade, ordem rígida e evasão, soberba e submissão, avareza e dom de si são apenas algumas das características que haverão de marcar Gente Pobre (1844-1846), seu primeiro romance.

Fiódor era o segundo dos sete filhos (quatro homens e três mulheres) de Mikhaíl Andréievitch e Maria Fiódorovna Netcháiev. O pai, médico, iniciou sua formação cuidando dos feridos da campanha contra Napoleão em 1812, mas teve uma carreira medíocre. Vítima de um terrível complô dos servos que maltratava, morreu em sua propriedade rural localizada em Tula, cidade próxima a Moscou. A mãe, Maria Fiódorovna, era filha de um rico comerciante. Mulher sensata e generosa, abrandava o marido ciumento e protegia a prole de seus ataques.

Quando Fiódor nasceu, a família morava nas dependências do grande hospital público Mariinski, em Moscou, onde o pai trabalhava. A casa em que moravam era circundada por um jardim, separado do hospital por uma grade. Era para lá que o jovem Fiódor escapulia, misturando-se aos pacientes e deles ouvindo as histórias mais variadas. Os relatos o impressionavam a ponto – dizem alguns de seus biógrafos – de ter tido aos 9 anos o primeiro ataque de epilepsia, doença que nunca o abandonou e que descreveria, com instantes de êxtase, em Mýchkin, Smerdiákov e em outros protagonistas de seus futuros romances.

Infortúnios

Em 1834, Fiódor e o irmão mais velho, Mikhail, foram inscritos no internato Tchermak, de onde sairiam para ingressar na Escola de Engenharia do Gênio Militar de São Petersburgo. Aos sábados, voltavam para casa e, valendo-se dos momentos em que o pai descansava, devoravam os livros de seus autores prediletos (Walter Scott, Charles Dickens, George Sand, Victor Hugo) e recitavam poemas de Púchkin e Jukóvski para a mãe, já doente de tuberculose, que os ouvia encantada.

A partir de 1837, as desgraças se sucedem. Primeiro a morte de Púchkin, o ídolo, depois, a da mãe amada. Outro grave desgosto: o irmão e grande amigo Mikhail não é aceito na Escola de Engenharia por questões de saúde. Na escola, rigorosíssima, mas onde injustiças são cometidas em prol dos protegidos, Fiódor passa por dificuldades financeiras e mal consegue sobreviver, pois o pai – tomado por uma avareza incontrolável – não lhe envia o dinheiro imprescindível. Em junho de 1839, recebe o telegrama em que é informado da morte do genitor, que fora brutalmente assassinado pelos colonos mujiques. A comoção é tanta que lhe sobrevém outro acesso epilético.

O crime repercute em sua consciência de forma indelével. Fora das leis humanas, ele também é culpado, também desejara a morte do pai, dirá Freud em seu ensaio “Dostoiévski e o Parricídio”. Se as leis humanas erigem um “muro de pedra” em volta do indivíduo, os futuros protagonistas de seus livros haverão de transpô-lo, caindo em um território ora ilógico, ora alucinado, em que será dito aquilo que tem medo de revelar a si próprio.

A gênese do romance

No entanto, a vida continua. Fiódor traduz Balzac e Schiller, compõe dois dramas históricos, joga e despede-se do irmão Mikhail que, agora casado, vai morar em Revel. Quem lhe fará companhia durante certo tempo é o irmão André, que vai a São Petersburgo estudar arquitetura.

Passados alguns concursos, Dostoiévski entra nos quadros do serviço ativo do Gênio Militar. Em 1844, porém, em vista de uma transferência que haveria de levá-lo para longe de São Petersburgo, demite-se irrevogavelmente. É em meio às dificuldades financeiras e ao mar de dívidas em que se encontra mergulhado que começa a esboçar Gente Pobre, seu primeiro romance. Em março de 1845, escreve ao irmão em Revel: “Estou contente com meu romance. Já o estou passando a limpo. É uma obra sóbria e limpa, apesar de alguns defeitos”.

Dostoiévski mal podia imaginar o estrondoso aplauso com que a crítica progressista da “escola natural” russa – de tendência social, voltada para o tema dos desvalidos, com Belínski à frente – iria saudar o livro, publicado em 1846. Em forma epistolar, o romance traz duas digressões nas quais os dois heróis contam um ao outro sua vida modesta e atribulada. De um lado está o pobre escriba Makar Diévuchkin – que, como Akaki Akákevitch, de Gógol, só possui um uniforme remendado – e, de outro, seu secreto amor: a doce e terna Varvara Dobrosiólova, jovem que vive de costura, em uma casa ao lado.

O leitor há de ficar impressionado com os sentimentos insuspeitos e as “verdades elementares” que suscitam esses habitantes de uma São Petersburgo que, ao lado de belos palácios, avenidas fervilhantes e heróis retumbantes, como Don Carlos e Posa, abriga pardieiros de uma humanidade miserável composta de pequenos funcionários, usurários, prostitutas, estudantes e jovens ultrajadas. “Eles são vossos irmãos”, escreveria Belínski. “Em algum canto sombrio, o coração puro e nobre de um conselheiro dedicado a seus chefes e, com ele, o de uma jovenzinha, ultrajada e triste” – conforme escreveu Dostoiévski – lhe apontava a vereda pela qual começaria o percurso de sua longa estrada.


* Fonte: Revista Cult, 28 de março de 2010. Disponível em http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/humanidade-miseravel/