Os labirintos das publicações eletrônicas – por Reginaldo Dias

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O livro eletrônico é uma realidade a que os autores, mais cedo ou mais tarde, tendem a aderir. Antonio Roberto de Paula, sempre na vanguarda, já caminha para seu segundo título. Willame Prado, que escreve neste espaço, também aderiu à tendência. Eu ainda não produzi o meu e-book, mas convivo com a publicação eletrônica na vida acadêmica. São raros os periódicos científicos importantes que ainda preservam edições impressas. Como regra, mesmo quando ainda recebem versão impressa, eles devem estar disponíveis na internet.

Embora a obra literária seja um universo em que o culto pelo livro impresso sobreviva com mais força, encontro paralelos interessantes entre os recursos disponíveis nas publicações acadêmicas eletrônicas e certa produção literária de vanguarda.

A literatura científica, como se sabe, sustenta-se na novidade que a pesquisa então divulgada apresenta e no diálogo que mantém com o que havia sido e vem sendo produzido. Há, portanto, um jogo obrigatório de referências. O leitor leigo talvez considere, com bons motivos, uma chatice aquele conjunto de citações e de indicações bibliográficas. Isso pode ser aliviado, mas não eliminado. O pesquisador acadêmico não é o novo Adão, aquele que teve a prerrogativa de dar nome a tudo. O diálogo com seus pares é obrigatório. Era e é assim com as publicações impressas. Tem de ser assim com as publicações eletrônicas.

Há uma diferença, porém. Enquanto na publicação impressa você tem que ir atrás do livro ou do artigo citado, na publicação eletrônica, supondo que a referência  seja outro texto eletrônico disponibilizado na internet, a indicação vira um link. Você pode ler, imediatamente, o que a referência contém. Se essa referência tiver outros links, você pode ir a eles e abrir outras janelas. E isso pode acontecer em uma sucessão sem fim. Se não tomar cuidado, o leitor pode se flagrar em um labirinto. Imagina-se que o leitor, a exemplo do que fez Teseu na mitologia, tenha controle sobre o percurso que realiza, mas tais facilidades tecnológicas alteram suas opções e enriquecem sua leitura. Não se trata mais de uma leitura linear.

Se o caso é a relação de livros com labirintos, eu bem poderia fazer paralelos com Jorge Luiz Borges.Ocorre-me, entretanto, citar outro argentino genial, Julio Cortazar. Em O jogo de amarelinha, considerado sua obra-prima, ela permite ao leitor sorver a narrativa de forma não convencional. Em vez de seguir a seqüência normal das páginas,  ele pode fazer outro percurso, saltando casas, como no jogo que dá o título ao livro.

Lembro-me, também, de um livro menos celebrado, chamado Dicionário Kazar, do escritor Milorad Pavitch, em que há um procedimento inspirado nesse jogo literário. O livro conta uma história, mas tem a estrutura de um dicionário, ou seja, é composto de verbetes. O leitor tanto pode seguir o caminho linear quanto eleger outro percurso. Ao ler um verbete, ele encontrará referência de outros. Ele pode esperar para encontrar esses verbetes na seqüência normal ou se remeter diretamente a eles. Lá chegando, encontrará outras referências. E assim por diante. No final, a narrativa se torna inteligível, mas o caminho, em que se afirma a inventividade do leitor, faz toda a diferença.

Sou daqueles que sentirão saudades do livro impresso, caso eles se tornem obsoletos, mas o universo que se abre é fascinante. Por enquanto, podemos sorver as virtudes dos dois universos.


* Docente do Departamento de História, Universidade Estadual de Maringá; Doutor em História. Publicado na coluna Entrelinhas, em O Diário do Norte do Paraná, 21 de abril de 2010.

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2 Respostas to “Os labirintos das publicações eletrônicas – por Reginaldo Dias”

  1. FRANCISCO PUCCI Says:

    O artigo atinge o foco, pois essa é mesmo uma tendência irrefreiável. A propósito, os grandes jornais estão com seus assinantes em franco desaparecimento. A Folha e o Estadão já ensaiam assinaturas on-line.
    Nos falta, porém, um “leitor” tipo Amazon ou Apple que aceite e-books de outras origens (não monopólio de uma editora, como os atuais estão sendo).
    Também é pouco ou nada explorado o nicho dos livros didáticos e científicos, que deveriam (por facilidade e custo) ser vendidos em forma digitalizada, com menos custo para a natureza, o editor e o consumidor.
    Um abraço e parabéns pelo artigo.

  2. Nadyjanayra Says:

    Caríssimos, o artigo procede, não são erradas as consideraçoes feitas. No entanto creio que ainda não há nada mais prazeroso que apreciar um bom livro e deleitar-se ao folhear as páginas de um bom exemplar impresso. Questões ecológicas e editoriais a parte, espero que essas publicações onl line não extingam as páginas impressas que permanecerão por um bom tempo, ainda, como o único meio de acesso ao conhecimento para muitos brasileiros

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