Massa e Poder, de Elias Canetti – por Francisco Foot Hardman

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Do medo primitivo de tocar em outro corpo e de ser tocado, poderia nascer algo mais terrível e incontrolável? As massas, na história humana, segundo Elias Canetti, brotam exatamente daí, nascendo com elas essa vontade desmesurada de autoproteção e de crescimento sem limites. Quanto ao poder, funda-se, em sua origem, numa estratégia do sobrevivente que nunca consegue abandonar seus traços paranóicos: o delírio da imortalidade precisa reproduzir, em escalas múltiplas, a cadeia infernal de obediências cegas que vai do mandar ao fazer ao mandar matar.

A história deste Massa e poder, herdeiro das mais elevadas tradições da literatura iluminista e, sem dúvida, um dos ensaios mais importantes já escritos sobre a humanidade no século XX, tem a ver diretamente com o terror infundido a Canetti, ainda jovem, nas ruas de Viena e Berlim, pelas primeiras manifestações populares de adesão ao nazi-fascismo. O autor passará quase trinta anos decifrando as raízes mais profundas do mal, inclusive e especialmente em suas aparições corriqueiras e banais. Incorpora, sempre de modo polêmico e pessoal, acervo bibliográfico vastíssimo, indo da arqueologia e antropologia à história das religiões, da psicanálise à economia, da ciência política à sociologia da cultura.

Mas outra grandeza que ressalta da leitura de Massa e poder é seu valor como prosa literária. Quem já travou contato com o realismo polifônico e não-dogmático de Canetti, com sua ética radical e despojada que indissocia o ato de escrever da noção de responsabilidade, traços marcantes e presentes nos ensaios de A consciência das palavras, em todos os livros de suas cativantes memórias, em seu romance Auto-de-fé, entre outros escritos, reconhecerá, aqui neste volume, o grande autor de gênio e estilo inconfundíveis: a mesma inteligência arrasadora, a mesma voz solitária revoltando-se contra o triunfo da morte, hoje visível não só nas guerras mas no sistema desenfreado de multiplicação das coisas; a mesma ironia mordaz rindo das vaidades arrogantes dos literatos da moda; a mesma razão apaixonada perguntando-se, todo o tempo, se os homens, algum dia, terão tempo, dignidade e saber para tornarem-se de fato seres humanos.

Combates sem nenhuma certeza de vitória, perguntas sem resposta, vale, no entreato, defronta-se com esses duplos tão agudamente esmiuçados em Massa e poder: mandar/obedecer; matar/sobreviver; medo/voracidade; paranóia/poder. Quando não pela arqueologia absolutamente desafiadora que nos traz a propósito dos fundamentos da violência contemporânea.

Sobre o autor

Filho de judeus sefardins, Elias Canetti nasceu em 1905, em Ruschuk, na Bulgária. Viveu em Londres, Viena, Frankfurt e Zurique, onde morreu em 1984. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1981. de sua autoria, já foram publicadas no Brasil Auto-de-fé (Nova Fronteira, 1982 / CosacNaify, 2004), Vozes de Marrakech (L&PM, 1987), O outro processo (Espaço e Tempo, 1988), O todo-ouvidos (Espaço e Tempo, 1989) e, pela Companhia das Letras, A consciência das palavras (1990) e sua trilogia autobiográfica, formada por A língua absolvida (1987), Uma luz em meu ouvido (1988) e O jogo dos olhos (1990).


* Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas. Texto da orelha da obra.

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2 Respostas to “Massa e Poder, de Elias Canetti – por Francisco Foot Hardman”

  1. José Carlos Costa Hashimoto Says:

    Tenho certa suspeita que a preocupaçào excessiva com certa excentricidade nos estilos, parte disto pela pressão de uma platéia de consumo igualmente narcisista, fruto de toda uma midia que enaltece os supers esquisitos (aranha, morcegos, …), desagua num misticismo que al invés de ajudar a resolver problemas, busca piorá-los.
    ACHO QUE ESTAMOS NUM MOMENTO DE DIVERSAS EMERGÊNCIAS E O DOCE CHARME DA BURGUESIA PRECISA DE OUTRA HEGEMONIA.
    OS CLAMORES DA NATUREZA E DOS MISERÁVEIS EXIGEM MAIS LECEDONIA.
    SHALOM

  2. Nestor Carneiro Says:

    Confesso não conhecer o escritor Elias Canetti, vou começar pela obra Massa e poder, por indicação de Reinaldo Azevedo, após a leitura, ai sim, farei minha avaliação, mas sem ranço ideológico.

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