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George Orwel fiel a seus princípios – por SERGIO AMARAL SILVA

10/07/2010

Nascido há mais de um século, o revolucionário e radical George Orwell continua atual. “1984”, o livro mais conhecido do autor que criou expressões como “guerra fria” e “Big Brother”, chega agora aos 60 anos.*

“Se a liberdade significa alguma coisa, será, sobretudo, o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.” “1984”, George Orwell

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido em Bengala, na Índia sob dominação inglesa, em 25 de junho de 1903. Sua mãe tinha ascendência francesa, e seu pai era um funcionário civil da marinha britânica. O garoto foi educado na aristocrática Academia de Eton e, desde cedo, mostrava sua decepção com a sociedade de que fazia parte, revelando uma precoce rebeldia intelectual.

Aos 19 anos, entrou na polícia imperial britânica, passando os cinco anos seguintes entre a Índia e a Birmânia (atual Mianmar). Nesse período, revoltou-se contra a política colonial opressora da Inglaterra, desertando em 1927. Da experiência resultariam alguns de seus primeiros ensaios e seu romance de estreia, “Dias na Birmânia”, publicado em 1934.

No final dos anos 1920, de volta à Europa, Blair renegou sua origem, sua fortuna e o próprio nome, por considerá-los vergonhosos. Adotou o pseudônimo de George Orwell e passou a viver como operário de fábrica em Paris e depois como professor primário em Londres. Em 1933 sairia seu relato sobre essa vivência de miséria e falta de liberdade, “Na Pior em Paris e Londres”. Foram tempos difíceis para o escritor, que em 1935 publicou A “Filha do Reverendo” e, em 1936, “Keep the Aspidistra Flying”.

CRÍTICA

Se Orwell se deixasse abater pelos obstáculos iniciais, teria encerrado prematuramente a carreira. Um exemplo? Um de seus primeiros trabalhos recebeu da crítica o amável comentário de que ele escrevia “como uma vaca com uma espingarda”…

Alguns anos mais tarde, Orwell já começava a ser reconhecido como um autor de talento, ao mesmo tempo em que adotava atitudes cada vez mais radicais. Assim, engajar-se na Guerra Civil Espanhola, que começou em 1936, foi para ele um ato natural. Conforme suas próprias palavras, “reconheci imediatamente que era um estado de coisas pelo qual valia a pena lutar”.

Em 1937, publicaria “O Caminho Para Wigan”, narrando a extrema pobreza dos trabalhadores das minas do norte da Inglaterra. No livro, afirmou que desejava “escapar de toda forma de dominação do homem sobre o homem”.

No mesmo ano, foi para a Catalunha, onde se alistou para lutar contra o fascismo ao lado dos anarquistas do Partido Operário de Unificação Marxista, o POUM . Foi para a frente de batalha.

Em Barcelona, ele e seus companheiros começaram a ser perseguidos pelos comunistas, que deviam ser seus aliados. Isso acabou revelando o caráter duplo da posição dos russos.
Deu baixa após um ferimento a bala no pescoço e voltou à Inglaterra, tendo escrito em 1938, “Homenagem à Catalunha”, que saiu no Brasil com título de “Lutando na Espanha”. A partir desse livro, um amargo e desencantado testemunho ocular da guerra, consolidase seu objetivo literário. Como o autor afirmaria no ensaio “Por que Escrevo”, de 1946, o de “transformar a escrita política em arte”. E acrescenta: “Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar a atenção, e penso sempre que vou encontrar quem me ouça.”
DESAFETOS
Ainda em 1938, contraiu tuberculose e passou uma temporada em Marrocos, onde escreveu a novela “Coming Up For Air”, publicada em 1939, ano em que começou a segunda guerra mundial. Orwell pensou em lutar, mas foi declarado fisicamente inapto. Ilustração Kuco Depois de sua intensa vivência espanhola, ele se mostrou decepcionado com os partidos comunistas, com sua estrutura rígida e obediência irrestrita a Moscou. Se por um lado sua postura de socialista revolucionário se fortaleceu, ao mesmo tempo cresceu nele o anti-stalinismo, levando-o a uma espécie de socialismo independente. Em 1941, trabalhando para a BBC, escreveu o ensaio “O Leão e o Unicórnio”. Na época, defendia a nacionalização “da terra, das minas, das estradas de ferro, dos bancos e das principais indústrias”. Ainda durante a guerra, serviu num corpo civil para defesa local.

“A REVOLUÇÃO DOS BICHOS”

Além do fascismo e do imperialismo, outros grandes inimigos de Orwell eram a desonestidade de propósitos e as atitudes politicamente ambíguas dos que apoiavam o regime comunista de Stalin. Isso ficou ainda mais claro quando, na Segunda Guerra, a União Soviética se aliou ao Ocidente contra Hitler. Em 1943, Orwell tornou-se editor literário do jornal Tribune e começou a elaborar uma fábula que exibisse o totalitarismo e a face burguesa da Rússia. Ali, os comunistas eram representados pelos porcos de uma fazenda inglesa dirigida por animais: “A Revolução dos Bichos”. Naquela circunstância, “estar disposto a criticar a Rússia e Stálin é a prova da honestidade intelectual”, afirmou em agosto de 1944. Vários editores britânicos se recusaram a lançar o romance, temendo criticar o aliado inglês na guerra. Finalmente, o livro acabou saindo, em 1945. Foi um acontecimento literário, que ajudou a alertar o Ocidente sobre a verdadeira natureza do regime de Moscou.

Nesse trabalho, o autor superou em definitivo a trama muitas vezes pobre de suas primeiras novelas, tratando com desenvoltura seu argumento, num cenário que lhe era muito familiar. Afinal, era apaixonado pelo campo, onde vivera no fim dos anos 1930. Na sátira, ele criticava duramente a corrupção pelo poder, indo do particular para o geral. Essa habilidade, aliás, constitui um dos pontos fortes da obra de Orwell, principalmente nos ensaios sobre política.

“1984”

Com o fim da guerra, Orwell foi para uma ilha na Escócia. Lá, aprofundou sua condenação ao autoritarismo de todos os gêneros em seu último livro, o mais conhecido: “1984”, que guarda semelhanças com “Admirável Mundo Novo” (1932), de seu companheiro de escola Aldous Huxley. George Orwell foi um dos mais influentes escritores políticos do século 20, dado o alcance histórico e geográfico de sua literatura. A propósito, a expressão guerra fria, que marcou a segunda metade do século, apareceu pela primeira vez num artigo de Orwell, de acordo com o registro do Oxford English Dictionary.

TRAIÇÃO?

O escritor morreu de tuberculose em Londres, em 21 de janeiro de 1950, com 47 anos incompletos. Antes, porém, envolveuse num polêmico episódio no qual, segundo alguns historiadores, ele teria denunciado ao governo britânico 130 suspeitos de comunismo. Outros acreditam que Orwell apenas forneceu uma lista de nomes para que essas pessoas não viessem a receber propaganda anticomunista. Segundo consta, aqueles acusados não sofreram nenhuma retaliação.

Passadas décadas desde esses acontecimentos, interessa-nos perguntar qual a utilidade de ler o autor ainda hoje, quando seus maiores adversários políticos – o imperialismo, o fascismo e o comunismo – estão praticamente derrotados. Afinal, foi exatamente nos anos 1980 que começou a cair o regime soviético que inspirou 1984…

Há muitas respostas possíveis, entre elas a de que Orwell merece ser lido, mais que por interesse histórico, pela honestidade, coragem e fidelidade aos ideais em que acreditava. “Capaz de exagerar com a simplicidade e a inocência de um selvagem”, como disse Pritchett ao resenhar “O Leão e o Unicórnio”, o escritor tem uma importante lição a nos transmitir sobre engajamento e paixão na literatura, ainda mais útil num tempo como o atual, em que predominam o individualismo e a apatia.

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* Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria Literatura. Fonte: Revista Literatura, nº 24, disponível em http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/24/artigo144825-1.asp