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O Ensino à Distância na USP

24/06/2009

por Lincoln Secco*

Certa vez ouvi uma anedota que dizia mais ou menos assim: se Immanuel Kant ressuscitasse em pleno século XXI, ele se espantaria com quase tudo, menos com a escola. Ainda veria um professor, alunos, giz e lousa. Só agora me dei conta que essa piada podia ter um conteúdo crítico. Afinal, por que o ensino deveria ficar fora dos avanços tecnológicos que já dominam as outras esferas da vida social?

O ensino à distância democratizaria o acesso à universidade a custo baixo (sublinhe-se o custo baixo); acabaria com o ensino voltado somente para a elite; e não seria aplicado indiscriminadamente (médicos e engenheiros continuariam em ensino presencial).

Não precisamos perguntar por que uma maneira de ensinar mais barata serve para formar professores e não para formar médicos. A resposta seria evidente: professor é categoria que pode ser formada de qualquer jeito. Também não é necessário indagar porque os alunos mais pobres (supostamente beneficiados pela expansão das vagas de ensino à distância) merecem uma forma no mínimo incerta de educação enquanto os supostamente mais ricos continuariam no ensino presencial.

Talvez o problema não esteja na Univesp em si. E nem nos recusamos à formação para o mercado. Na USP como em todo lugar, o aluno já é virtual em si e por si mesmo. Ele é potencialmente uma mercadoria num mundo que é uma imensa coleção delas. Ele será destinado a isso. Nossa diferença não é gerar conhecimento crítico (embora o façamos), mas treinar para o mercado os melhores produtores ou extratores de mais valia. Entre uma aula e outra, às vezes questionamos isso tudo.

Numa Faculdade de Filosofia costumamos aprender que as formas de aparência expressam não técnicas ou coisas, mas relações sociais. Por trás do fetiche das técnicas, o processo ensino-aprendizagem continua a ser uma relação social. Na sua etapa superior (e numa universidade de excelência como a nossa) ocorre em salas de aula, laboratórios, hospitais etc. Mas não só. Também nos gabinetes dos professores, nos anfiteatros, nos pátios, nos cafés e lanchonetes, no bandejão, no Crusp, no ônibus lotado, na piscina, nos corredores, nas plenárias e assembléias, nas festas, nas greves, nos debates, nos seminários e congressos, nas rodas em que vicejam as anedotas dos professores…

Como costumamos dotar a técnica mais nova de poderes mágicos, acreditamos que ela pode substituir toda essa vivência.

Até o dolce far niente pode ser necessário ao estudante. Deitar na praça do Relógio e ler Einstein, Keynes, Freud, Debord, Braudel, Darwin e outros monstros pode (pasmem) ser uma experiência e tanto. Formar grupos de estudos, comer e beber juntos, olhar nos olhos são atitudes que não podem ser meramente “virtuais”.

Um exemplo: eu e alguns amigos jantávamos muito com o saudoso Professor A. L. Rocha Barros, do Instituto de Física da nossa universidade. Ele contava que um dia jogaram uma pedra na direção do aluno Fernando Henrique Cardoso e Rocha Barros conseguira puxá-lo para si, salvando-o. “Como me arrependo disso”, dizia o velho professor comunista jocosamente… Histórias como essas desaparecerão para alunos formados à distância.

Talvez os idealizadores da Univesp tenham esquecido: a formação do jovem não se resume ao conteúdo do ensino, seja numa sala de aula ou à frente de um computador. Sendo uma relação social entre pessoas, mediada por uma instituição como a nossa, negar às pessoas essa vivência universitária seria o maior dos erros.

Não se nega que cursos de extensão, pós graduação lato sensu etc. possam ser à distância. Mas a formação básica na USP nunca poderá sê-lo. É verdade que certas coisas se modernizam e supostos reacionários empedernidos se agarram ao mundo perdido das escolas de Könisberg do século XVIII. É mais ou menos como a mais velha relação humana: já existe o amor virtual e há quem o prefira; mas é difícil acreditar que ele seja melhor do que o concreto.

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* Professor do Departamento de História da FFLCH – USP.

Cultura e Ideologia em “Os sertões”

18/10/2008

por Ferreira Gullar

Um dos equívocos que mais facilmente se cometem, ao apreciar o problema da cultura do ponto de vista da relação das classes sociais, é identificar ideologia e cultura. É conhecido o conceito segundo o qual a ideologia dominante numa sociedade de classes é a ideologia da classe dominante. Ora, esse conceito, ao afirmar a existência de uma ideologia “dominante”, pressupõe a existência de outra ou outras ideologias que são dominadas. O fato mesmo de que, numa sociedade. haja mais de uma ideologia supõe, por sua vez, a não-identificação de ideologia e cultura. Se é correto dizer que, de uma forma ou de outra, toda manifestação cultural implica uma ideologia, é incorreto afirmar que as manifestações culturais não são mais que ideologia, pois, desse modo, se desconheceria a autonomia relativa das diferentes formas de consciência. Incorreríamos, assim, no equívoco de considerar, por exemplo, que a teoria econômica clássica jamais conteve qualquer verdade, que a música de Bach não possui qualidades musicais, que os romances de Balzac são destituídos de qualidade literária ou que T. S. Eliot é um mau poeta. Semelhantes conclusões são obviamente inaceitáveis. E como se poderia explicar, se não se distingue conhecimento (cultura) de ideologia, que Marx tenha adotado a dialética hegeliana após eliminar dela a visão idealista?

Pois bem, se aceitamos que cultura e ideologia não são a mesma coisa, devemos aceitar também que as formas culturais criadas sob a influência da ideologia burguesa não limitam sua significação a essa classificação ideológica. Cumpre distinguir, portanto, no âmbito de qualquer cultura, o que é pura e simplesmente literatura política – onde o peso da ideologia é às vezes total – das inúmeras manifestações culturais, que vão desde a arte à ciência, cuja autonomia, com respeito ao fator ideológico, é maior.

Considerações como estas, ainda que expostas rapidamente, nos previnem contra a fácil conclusão a que muita gente tem chegado de que o conceito de “cultura brasileira” não pode ter outro significado senão o de “cultura da classe dominante”. A coisa se tornaria possivelmente mais clara se deixássemos o campo das considerações teóricas para abordar um exemplo real, como o caso de Os sertões, de Euclides da Cunha, que me parece muito instrutivo para o entendimento do fenômeno cultural brasileiro.

O caso de Os sertões é tanto mais significativo para a análise da questão cultural porque – à parte a obra de Euclides – a própria revolta de Canudos mostra como a ideologia da classe dominante, incutida na massa, pode se voltar contra essa própria classe e contra essa mesma ideologia. O fanatismo religioso de Antônio Conselheiro, alimentado na pregação dos padres e exacerbado pelas condições de miséria do camponês, conduziu ao choque com a Igreja sertaneja, com o latifúndio e com a República. Confusamente no plano ideológico, mas claramente na prática da luta, a revolta de Canudos denuncia o caráter retrógrado da República com respeito ao camponês: a República é a continuação do domínio dos “coronéis” latifundiários. E a luta conduziu a revelar quão profunda é essa ligação entre o poder republicano e o latifúndio, uma vez que o próprio exército brasileiro foi levado a assumir a responsabilidade de esmagar a cidadela miserável constituída de casebres de barro. E seus incultos defensores, superando a mistificação ideológica da classe dominante – que procura sempre apresentar o seu poder como o poder do povo –, gritavam para a tropa adversária: “Avança, fraqueza do governo!”.

Euclides da Cunha escreve Os sertões armado de uma ideologia reacionária, essencialmente colonialista. Ele acredita que a luta das raças é “a força motriz da História” e que “a mestiçagem é um retrocesso”. É possível, no entanto, que, sem essa ideologia, ele jamais tivesse se disposto a escrever, sobre a luta de que foi testemunho, uma obra de fôlego. A verdade é que uma ideologia que considera a cultura produto do meio físico (para explicar a inferioridade cultural dos colonizados) sugere ao mesmo tempo que condições geográficas específicas podem criar uma cultura específica. Desse ponto de vista, o que se passou em Canudos deixou de ser um fato irrelevante para se tornar um fenômeno peculiar tanto social como cultural – digno de estudo: uma oportunidade para Euclides da Cunha aplicar a teoria que aprendeu com os europeus. Quer dizer, a teoria da alienação conduz o escritor a se voltar para o seu próprio meio, o que revela a ambivalência da ideologia, conforme seja manejada pelo colonizador ou pelo colonizado. Se Euclides não tivesse chegado a escrever Os sertões mas o deixado em projeto, não faltaria quem hoje afirmasse que, com “aquela ideologia”, a obra seria fatalmente contra Canudos e a favor da classe dominante. Mas o livro foi escrito e, apesar da ideologia do autor, o resultado é uma exaltação do valor dos sertanejos, uma identificação profunda com sua sede de justiça e um libelo contra o regime que os esmagou impiedosamente. Não é justo afirmar que Os sertões é um produto da cultura européia, nem que ele expressa os interesse políticos e ideológicos do sistema de poder existente no país àquela época.

Há ainda dois outros aspectos que eu gostaria de destacar no exemplo citado. O primeiro se refere ainda ao fato sociológico: ao descrever a formação do movimento liderado pro Conselheiro, Euclides nos mostra como ele se insere num processo social e cultural complexo que se desenrolava no nível do povo ignorante, do camponês sem terra que, sem nenhuma esperança de solução para os seus problemas, adere à pregação messiânica do mestiço. O movimento vai se ampliando até ganhar caráter massivo, abrangendo vastas regiões do sertão nordestino: pessoas do Ceará, do Piauí, abandonam o pouco que possuem, vendem o porco e o cabrito, para irem juntar-se ao Conselheiro após caminharem a pé centenas e centenas de quilômetros. Se o movimento tivesse se dissolvido sem luta, talvez nunca chegássemos a tomar conhecimento desses fatos, hoje incorporados, pela literatura, à história brasileira. Isso não significaria, porém, que nada acontecera, que o fato social não se dera: simplesmente não teria sido registrado como, aliás, na maioria dos casos, não é levada em conta a história que se desenrola longe dos grandes centros urbanos. E assim se vai escrevendo uma História do Brasil que não é toda a história do povo brasileiro. Exatamente aí, nessa seleção discriminadora, revela-se um dos aspectos mais contundentes da ideologia dominante.

O outro ponto a ressaltar, ligado ao primeiro, refere-se ao modo como um “fato cultural” se forma e se produz. Refiro-me ainda a Os sertões. De que modo descrever a história desse livro, o processo de seu nascimento? Apenas a contar do momento em que o autor se sentou para redigi-lo? Como obra literária, talvez sim, mas como fato cultural o livro “começa” com o movimento social de Antônio Conselheiro, ou mais atrás: com a formação do ambiente social e cultural onde se gerou o fanatismo religioso e a revolta. Quer dizer: a obra literária Os sertões é expressão, no nível da literatura, de um processo social e cultural específico. Não se trata de um fenômeno “puro”: nem a ideologia do Conselheiro é original nem a revolta de Canudos fornece todos os elementos para a realização da obra, pois a história cultural de Euclides também vem se juntar a eles. Não obstante, uma quantidade indeterminada de fatores que só a vida pode reunir determinaram os traços específicos de Canudos e, noutro nível, do livro Os sertões. Creio que é a partir deste ponto de vista que se pode falar de uma “cultura brasileira”. Ela existe porque existe uma história que se desenrola dentro dos limites geográficos do país, sob condições econômicas, políticas, administrativas e “culturais” específicas. Ela tanto é produzida pelo povo analfabeto como pelas camadas alfabetizadas e pelas elites intelectuais, é um produto ideologicamente confuso e contraditório, marcado na maioria dos casos pela alienação cultural e política em que vivem as grandes massas populares, e não só elas. Portanto, se “cultura brasileira” não é sinônimo de “cultura da classe dominante”, tampouco é sinônimo de cultura revolucionária ou “cultura nacional-popular”.

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* Fragmento de “Considerações em torno do conceito de cultura brasileira”. In GULLAR, Ferreira. Indagações de hoje. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1989, p. 48-52 (subtítulo do editor).

O Inferno – por Graciliano Ramos

14/11/2007

Graciliano Ramos, nasceu em Quebrângulo (AL), em 1892. É autor de Caetés (1925), seu primeiro romance; São Bernardo (1934) e Angústia (1936, ano em que foi preso pelo governo de Getúlio Vargas, sob a acusação de subversão). O escritor relatou essa experiência em Memórias do Cárcere (1953). O texto reproduzido abaixo faz parte do livro Infância (1945), no qual o autor narra episódios de sua vida. Graciliano Ramos faleceu em 1953.

O inferno

Às vezes minha mãe perdia as arestas e a dureza, animava-se, quase se embelezava. Catorze ou quinze anos mais moço que ela, habituei-me, nessas tréguas curtas e valiosas, a julgá-la criança, uma companheira de gênio variável, que era necessário tratar cautelosamente. Sucedia desprecatar-me e enfadá-la. Os catorze ou quinze anos surgiam entre nós, alargavam-se de chofre – e causavam-me desgosto.

Um dia, em maré de conversa, na prensa de farinha do copiar, minha mãe tentava compor frases no vocabulário obscuro dos folhetos, Eu me deixava embalar pela música. E de quando em quando aventurava perguntas que ficavam sem respostas e perturbavam a narradora.

Súbito ouvi uma palavra doméstica e veio-me a idéia de procurar a significação exata dela. Tratava-se do inferno. Minha mãe estragou a curiosidade: impossível um menino de seis anos, em idade de entrar na escola, ignorar aquilo. Realmente eu possuía noções. O inferno era um nome feio, que não devíamos pronunciar. Mas não era apenas isso. Exprimia um lugar ruim, para onde pessoas mal-educadas mandavam outras, em discussões. E num lugar existem casas, árvores, açudes, igrejas, tanta coisa, tanta coisa que exigi uma descrição. Minha mãe condenou a exigência e quis permanecer nas generalidades. Não me conformei. Pedi esclarecimentos, apelei para a ciência dela. Por que não contava o negócio direitinho? Instada, condescendeu. Afirmou que aquela terra era diferente das outras. Não havia lá plantas, nem currais, nem lojas, e os moradores, péssimos, torturados por demônios de rabo e chifres, viviam depois de mortos em fogueiras maiores que a de S. João e em tachas de breu derretido. Falou um pouco a respeito dessas criaturas.

Fogueiras de S. João eu conhecia. Tinha-se feito uma diante de casa. Eu andara à tardinha em redor do monte de lenha que o moleque José arrumava. Admirando os aprestos, espantava-me de haver nascido ali de supetão um mamoeiro carregado de frutos verdes. Á noite deitara-se na pilha uma garrafa de querosene,viera um tição. E eu ficara na calçada até dez horas,olhando as labaredas, que meu pai alimentava com aduelas e sarrafos. A gente da vila mexia-se, ria e cantava, iluminada por outros fogos. No dia seguinte as folhas do mamoeiro se torravam, pulverizavam. E na rua, desentulhada, apareciam grandes manchas negras.

Também conhecia o breu derretido. No armazém, barricas finas continham substância escura que, pisada, tirava a cor das moedas de vintém livres do azinhavre, raspadas no tijolo, molhadas e enxutas. Eu havia esfarelado um pedaço dessa maravilha, com um peso de meio quilo, junto à balança romana da loja. Tinha posto a massa dourada num cartucho de jornal, riscado um fósforo em cima e esperado o fenômeno. Uma lágrima correra no papel, alcançara-me o dedo anular, descera da unha a primeira falange. Largando a experiência, eu me desesperara, abafando os gritos, fora meter a mão num pote de água. Tinha sofrido em silêncio, receando que percebessem a traquinada e a queimadura.

Quando minha mãe falou em breu derretido, examinei a cicatriz do dedo e balancei a cabeça, em dúvida. Se o pequeno torrão, esmagado com o peso de meio quilo, originara aquele desastre, como admitir que pessoas resistissem muitos anos a barricas cheias derramadas em tachas fundas, sobre fogueira de S. João?

– A senhora esteve lá?

Desprezou a interrogação inconveniente e prosseguiu com energia.

— Eu queria saber se a senhora tinha estado lá.

Não tinha estado, mas as coisas se passavam daquela forma e não podiam passar-se de forma diversa. Os padres ensinavam que era assim.

— Os padres estiveram lá?

A pergunta não significava desconfiança na autoridade. Eu nem pensava nisso. Desejava que me explicassem a região de hábitos curiosos. Não me satisfaziam as fogueiras, as tachas de breu, vítimas e demônios. Necessitava pormenores.

Minha mãe estragara a narração com uma incongruência. Assegurara que os diabos se davam bem na chama e na brasa. Desconhecia, porém, a resistência das almas supliciadas. Dissera que elas suportariam padecimentos eternos. Logo insinuara que, depois de estágio mais ou menos longo, se transformariam em diabos. Indispensável esclarecer esse ponto. Não busquei razões, bastavam-me afirmações. Achava-me disposto a crer, aceitaria os casos extraordinários sem esforço, contanto que não houvesse neles muitas incompatibilidades. Reclamava uma testemunha, alguém que tivesse visto diabos chifrudos, almas nadando em breu. Ainda não me havia capacitado de que se descrevem perfeitamente coisas nunca vistas.

¾ Os padres estivaram lá? — Tornei a perguntar.

Minha irritou-se, achou-me leviano e estúpido. Não tinham estado, claro que não tinham estado, mas eram pessoas instruídas, aprendiam tudo no seminário, nos livros. Senti forte decepção: as chamas eternas e as caldeiras medonhas esfriaram. Começava a julgara história razoável, adivinhava por que motivo Padre João Inácio, poderoso e meio cego, furava os braços da gente, na vacina. Com certeza Padre João Inácio havia perdido um olho no inferno e de lá trouxera aquele mau costume. A resposta de minha mãe desiludiu-me, embaralhou-me as idéias. E pratiquei um ato de rebeldia:

— Não há nada disso.

Minha mãe esteve algum tempo analisando-me, de boca aberta, assombrada. E eu, numa indignação por se haverem dissipado as tachas de breu, os demônios, o prestígio de Padre João Inácio, repeti:

—Não há não. É conversa.

Minha mãe curvou-se, descalçou-se e aplicou-me várias chineladas. Não me convenci. Conservei-me dócil, tentando acomodar-me às esquisitices alheias. Mas algumas vezes fui sincero, idiotamente. E vieram-me chineladas e outros castigos oportunos.

Lima Barreto

25/05/2007

Uma crônica de 1915, que, infelizmente, permanece atual…

O novo manifesto

Eu também sou candidato a deputado. Nada mais justo. Primeiro: eu não pretendo fazer coisa alguma pela Pátria, pela família, pela humanidade.

Um deputado que quisesse fazer qualquer coisa dessas, ver-se-ia bambo, pois teria, certamente, os duzentos e tantos espíritos dos seus colegas contra ele.

Contra as suas idéias levantar-se-iam duas centenas de pessoas do mais profundo bom senso.

Assim, para poder fazer alguma coisa útil, não fazei coisa alguma, a não ser receber o subsídio.

Eis aí em que vai constituir o máximo da minha ação parlamentar, caso o preclaro eleitorado sufrague o meu nome nas urnas.

Recebendo os três contos mensais, darei mais conforto à mulher e aos filhos, ficando mais generoso nas facadas aos amigos.

Desde que minha mulher e os meus filhos passem melhor de cama, mesa e roupas, a humanidade ganha. Ganha, porque, sendo eles parcelas da humanidade, a sua situação melhorando, essa melhoria reflete sobre o todo de que fazem parte.

Concordarão os nossos leitores e prováveis eleitores que o meu propósito é lógico e as razões apontadas para justificar a minha candidatura são bastante ponderosas.

De resto, acresce que nada sei da história social, política e intelectual do país; que nada sei da sua geografia; que nada entendo de ciências sociais e próximas, para que o nobre eleitorado veja bem que vou dar um excelente deputado.

Há ainda um poderoso motivo, que, na minha consciência, pesa para dar este cansado passo de vir solicitar dos meus compatriotas atenção para o meu obscuro nome.

Ando mal vestido e tenho uma grande vocação para elegâncias.

O subsídio, meus senhores, viria dar-me elementos para realizar essa minha velha aspiração de emparelhar-me com a deschanelesca[1] elegância do senhor Carlos Peixoto.

Confesso também que, quando passo pela rua do Passeio e outras do Catete, alta noite, a minha modesta vagabundagem é atraída para certas casas cheias de luzes, com carros e automóveis à porta, janelas com cortinas ricas, de onde jorram gargalhadas femininas, mais ou menos falsas.

Um tal espetáculo é por demais tentador, para a minha imaginação; e, eu desejo ser deputado para gozar esse paraíso de Maomé sem passar pela algidez da sepultura.

Razões tão ponderosas e justas, creio, até agora, nenhum candidato apresentou, e espero da clarividência dos homens livres e orientados o sufrágio do meu humilde nome, para ocupar uma cadeira de deputado, por qualquer estado, província ou emirado, porque, nesse ponto, não faço questão alguma.

Às urnas

Vida Urbana, 16.01.1915
In: Lima Barreto. Crônicas Escolhidas. São Paulo: Folha de S. Paulo: Ed. Ática, 1995, pp. 89-91.
Imagem: Luiz Ricardo Leitão. Lima Barreto – O rebelde imprescindível. São Paulo: Expressão Popular
link: www.expressaopopular.com.br/internas.asp?id=51

[1] Deschanel, Paul (1855-1922): Político francês, presidente da República de fevereiro a setembro de 1920.

Stanislaw Ponte Preta

23/05/2007

Com a ajuda de Deus

TIA ZULMIRA, pesquisadora do nosso folclore, descobre mais um conto anônimo. Conforme os senhores estão fartos de saber, quando uma coisa não tem dono, passa a ser do tal de folclore. Assim é com este conto muito interessante que a sábia macróbia colheu alhures.
Diz que era um lugar de terra seca e desgraçada, mas um matuto perseverante um dia conseguiu comprar um terreninho e começou a trabalhar nele e, como não existe terra bem tratada que deixe quem a tratou bem na mão, o matuto acabou dono da plantação mais bonita do lugar.
Foi quando chegou o padre. O padre chegou, olhou para aquele verde repousante e perguntou quem conseguira aquilo. O matuto explicou que fora ele, com muita luta e muito suor.
— E a ajuda de Deus— emendou o sacerdote.
O matuto concordou. Disse que no começo era de desanimar, mas deu um duro desgraçado, capinou, arou, adubou e limpou todas as pragas locais.
— E com a ajuda de Deus— frisou o padre.
O matuto fez que sim com a cabeça. Plantou milho, plantou legumes, passou noites inteiras regando tudo com cuidado e a plantação floresceu que era uma beleza. O padre já ia dizer que fora com a ajuda de Deus, quando o matuto acrescentou:
— Mas deu gafanhoto por aqui e comeu tudo.
O matuto ficou esperando que o padre dissesse que deu gafanhoto com a ajuda de Deus, mas o padre ficou calado. Então o matuto prosseguiu. Disse que não esmorecera. Replantara tudo, regara de novo, cuidara da terra como de um filho querido e o resultado estava ali, naquela verdejante plantação.
— Com a ajuda de Deus— voltou a afirmar o padre.
Aí o matuto achou chato e acrescentou:
— Sim, com a ajuda de Deus. Mas antes, quando Ele fazia tudo sozinho, o senhor precisava ver, seu padre. Esta terra não valia nada.

[Stanislaw Ponte Preta nasceu no Rio de Janeiro em 11/01/1923 (+ 29/09/1968).
Fonte: Ponte Preta, Stanislaw. O melhor de Stanislaw Ponte Preta: crônicas escolhidas; seleção e organização de Valdemar Cavalcanti. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004, p. 85]