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Por uns velhos vãos motivos, somos cegos e cativos – por UBIRACY DE SOUZA BRAGA

25/09/2010

* Um dos maiores escritores de todos os tempos, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839. Poeta, romancista, novelista, contista, cronista, dramaturgo, ensaísta e crítico, fundou a Academia Brasileira de Letras e foi seu primeiro presidente. Não se sabe ao certo, se frequentou escolas formalmente. Antes de ser jornalista e cronista, “foi caixeiro de livraria, tipografia e revisor”. Em 1855, publicou a poesia “A palmeira”, no jornal Marmota Fluminense, artesanalmente editado numa livraria que havia se transformado em ponto de encontro de escritores da época. Entre suas obras mais conhecidas estão os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), onde “o verdadeiro tema é a nossa mortalidade, o que não constitui assunto para descaso e gracejo, pois o tema enseja uma perspectiva, ao mesmo tempo, distanciada e hilária. O gênio da ironia propiciou-nos poucos exemplos à altura do escritor afro-brasileiro (…), a meu ver, o maior literato negro surgido até o presente” (Bloom, 2003: 687).

Para concordarmos com Alfredo Bosi (2007), no clássico e singular livro Machado de Assis. O enigma do olhar, Machado de Assis não foi, “nem conservador, nem evolucionista, nem positivista, nem cientificista, nem republicano, nem militante abolicionista, embora inequivocamente simpático ao movimento antiescravista dos anos 70 e 80. Machado educara o seu olhar em valores e modos de pensar que vinham da tradição analítica e moral seis-setecentista. Valores e modos de pensar que permearam o seu distanciamento estratégico e deram à sua linguagem um quê de discreto e picante que pode até parecer clássico” (Bosi, 2007:163).

E para reiterarmos ainda o ensaísta e diplomata Sérgio Paulo Rouanet, coordenador do projeto arrojado do centenário de Machado, além do dandismo (alegre, irônico e exuberante) e do talento estético, ele tinha habilidade de manter “distância das lutas políticas do império”, mas fez literatura “como missão”, no sentido que emprega (Sevcenko, 1998; 1998). A qualidade se revelou no fim de 1866, quando Machado assumiu interinamente a direção do Diário do Rio de Janeiro, com a ausência do diretor Saldanha de Marinho (1816-1895) e do diretor-chefe, Henrique César Muzzio. Com a vida relativamente estabilizada, Machado de Assis “ganhou o mundo” ao lado de Carolina: cresceu no serviço público, coisa rara nestes em que vivemos um “Minotauro Imperial” (cf. Braga, 2009), onde galgou e teve sossego para escrever, fato caro entre nós nesses dias e mesmo no decorrer da historia. Seus anos românticos chegaram ao fim.

De outra parte, já a atriz e diretora de produção, mutatis mutandis, do espetáculo cearense sobre Machado de Assis, Ana Cristina Viana nos conta que celebrar seus 25 anos de cena montando este texto representa, inicialmente, “concretizar um projeto de quatro anos”. Assim, afirma: “Então, que não me torrem a paciência dizendo que a montagem veio na esteira do centenário de Machado ou da minissérie de Luiz Fernando de Carvalho, ´Capitu`. Segundo a atriz que encara Capitu em três momentos de sua vida, com ênfase na velhice (nada tão machadiano), ir em frente foi inevitável, apesar da possibilidade de comparações. Foi ela quem incentivou Ceronha Pontes a topar fazer a adaptação, talvez estimulada pela sensibilidade diante de ´Uma Branca sombra Pálida`, conto de Lygia Fagundes Telles, levado ao palco há alguns anos” (cf. Diário do Nordeste. Fortaleza, 31.03.2009).

Ele, Machado de Assis, pode ser, para este nosso século XX, se nos permitem uma digressão, e claro, se estivermos atentos para as mudanças nas estruturas econômicas, sociais e políticas vista na pena e na dimensão histórica por Eric Hobsbawm, como aparece nos estudos clássicos “A Era das Revoluções”, “Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”, “Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz”, “Nações e Nacionalismo desde 1780”, entre outros, com uma visão acuradíssima dos dias de hoje, com elementos etnobiográficos “ditos e escritos” em “Tempos Interessantes”. Nasceu no Egito ainda sob o domínio britânico. Obteve nacionalidade britânica. Nessa época, tanto a Áustria quanto a Alemanha sofriam com a crise econômica e a convulsão social, consequências diretas da Primeira Grande Guerra (1914-18). Seu pai morreu em 1929, e tornou-se órfão quando sua mãe faleceu em 1931. Ele e sua irmã foram adotados pela tia materna Gretl e seu tio paterno Sydney que se casaram e tiveram um filho chamado Peter. Mudou-se para Londres em 1933. Hobsbawm casou-se duas vezes, primeiro com Muriel Seaman em 1943, divorciando-se em 1951 e logo com Marlene Schwarz. Com esta última teve dois filhos, Julia e Andy, e um filho chamado Joshua de uma relação afetiva anterior.

Isto posto, Machado de Assis como letrado, na acepção gramsciana do termo (cf. Gramsci, 1974; 1975) percebeu um mundo em  “agonia”, sendo “uma voz inquietante que fala baixo mas provoca sempre”. Sua literatura e biografia alcançaram, talvez, o maior patamar a que se pode almejar nesse campo de conhecimento no Brasil, e de resto no mundo. Em 1904, desgraçadamente com o falecimento de sua mulher e companheira de 35 anos de casamento, Machado de Assis perde o prazer de viver, como ocorre nos grandes romances, como o de Luiz Carlos Prestes e Olga Banário, ou, Jorge Amado e Zélia Gattai reconhecidamente uma de nossas maiores escritoras que veio a falecer por estes dias aos 91 anos de idade, em Salvador. De todo modo, ainda para insistirmos no caso da literatura, mutatis mutandis lembramo-nos de Manuel Bomfim o que diz respeito ao fato de que ele recebe o “facho” das mãos de João Francisco Lisboa e Oliveira Lima, transmitindo-o, mais brilhante, às de José Honório Rodrigues, Nelson Werneck Sodré, João Cruz Costa, historiadores que deixaram a sua marca na concepção de história e, portanto, na memória, seja no plano individual, seja no plano coletivo.  Não importa que o Brasil pareça confuso, desorganizado; das suas contradições sairão grandes sínteses: “é a Mensagem de Fé e Esperança, de Bomfim”. Não era Manoel Bomfim, assim, um jacobino que escrevia dando murros na mesa: “era um [homem] dolorosamente apaixonado pelo Brasil, como Unamuno pela Espanha, não pelo gosto amargo do paradoxo, porém pelo incontrolável desejo de vê-lo se purificando na catarse”.

Para o que nos interessa, no conto Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, propugna uma análise do comportamento de alguns membros da sociedade. Descreve-os de maneira extremamente clara, precisa, com um humor recatado, ironizando-os usando como background uma conversa aparentemente inocente como a de um pai com um filho. Ora, a tese freudiana de que “se os pais soubesse educar os filhos, os filhos não precisariam de pais ao que parece se repete”. Esse conto, um dos mais deliciosos libelos do escritor contra a mediocridade intelectual e política, é satírico por excelência, lembrando a ironia filosófica dos relatos curtos de Voltaire. Praticamente sem ação, seu núcleo temático gira em torno de uma exposição de ideias cínicas, através do diálogo entre pai & filho. Teoria do Medalhão desenvolve com muita ironia as mesmas questões levantadas pelo conto O Espelho. O narrador cede seu espaço à reprodução das falas das duas únicas personagens: pai & filho. O tom terrivelmente irônico da fala do pai revela, obviamente, “a denúncia feita pelo Autor por trás do conto em relação a uma sociedade burguesa medíocre e arrogante, que prega o sucesso a qualquer preço, mesmo à custa do empobrecimento da vida interior e das relações sociais e políticas”. A atualidade é medonha se for analisado o discurso paternalista de Tasso Jereisati no e para o Senado, ou mesmo o discurso bonachão do governador Cid Gomes enumerando obras faraônicas de seu governo como se fosse um Petrus Ramus.

No caso machadiano, o diálogo familiar acontece numa noite às onze horas, após um jantar comemorativo dos 21 anos do filho. Quando pai & filho ficam a sós na sala, este aconselha o filho a se tornar um Medalhão, ou seja, “um homem que ao chegar à velhice, tenha adquirido respeito e fama na sociedade do Rio de Janeiro do século XIX”. Para tanto, será necessário que ele mude seus hábitos e costumes e passe a viver “sob uma máscara, anulando os seus gostos pessoais e suas atitudes”. E nisso disserta sobre a necessidade do filho “de sempre manter-se neutro, usar e abusar de palavras sem sentido, conhecer pouco, ter vocabulário limitado” etc. Ao final, é uma bela ironia machadiana sobre como se encontram os valores da sociedade de sua época, e porque não analogamente nos dias de hoje na sociedade cearense. Portanto, o medalhão, tipo criado pelo Autor neste conto, se caracteriza por “aparentar ser o que não é”. Caracteriza-se, sobretudo, por ter, como nos medalhões, “uma face oculta e sem atrativos, voltada apenas para o corpo do dono, e outra, vistosa, virada para o exterior, para ser vista e admirada, respeitada”.

A Teoria do medalhão é um dos contos que mostra Machado de Assis como um crítico afiado da sociedade brasileira no que ela tem de mais profundo: “a mediocridade condecorada, a troca de favores como motor básico das relações sociais, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime”. O conto é uma lição a todo homem que almeja ter prestígio, ser reconhecido pela sociedade e que elimina qualquer expressão da subjetividade em nome da absorção ao senso comum, “uma reflexão sem juízo” na definição de Hans-Georg Gadamer, à opinião da maioria no sentido político do termo. Os “papéis sociais” para fazermos referência a Talcott Parsons, no conto machadiano, pertencem, num primeiro momento, a um grupo restrito: pai & filho. As personagens não possuem nomes e são, portanto, caracterizadas somente pela posição que ocupam no grupo familiar. Num segundo momento, no decorrer da narrativa, há a construção de um terceiro papel social, este pertencente a um grupo mais amplo: o Medalhão.

No diálogo estabelecido no conto, há a presença das formas de tratamento. O pai dirige-se ao filho sempre utilizando a 2ª pessoa pronominal: tu, te, contigo, teu etc.; o filho, por sua vez, utiliza-se a 3ª pessoa, com valor de 2ª pessoa: vosmecê, lhe, o senhor etc. No primeiro caso, a presença da 2ª pessoa dá um valor de proximidade ao discurso (ou tentativa de), dando um maior sentimento de intimidade. No segundo caso, o uso da 3ª pessoa, mostra uma aceitação do discurso paterno, e, portanto o que remete ao paternalismo político, como se não houvesse outro meio de discussão. É a aceitação pacífica do papel social que cabe ao filho no final do século XIX. Daí a atualidade sempre marcante de Machado de Assis na sociedade brasileira, e de resto no mundo, quando precipita como um balão de ensaio na estufa, a mediocridade condecorada na velha política destes nossos dias, seja com o discurso bonachão de um Tasso Jereissati, seja com a aliança política do governo Cid Gomes, a troca de favores com o governo federal, como tem sido sobejamente acalentada por políticos como o Sr. Pimentel ou Eunício para o Senado, “os senadores do Lula” (sic), tendo como “combustível” básico das relações sociais e políticas, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime em momentos em que não se configura crise de hegemonia política na sociedade brasileira e particularmente no estado do Ceará. Daí a melancolia do cantor Taiguara quando afirma: “por uns velhos vãos motivos, somos cegos e cativos…Eu desisto não existe essa manhã que eu perseguia, um lugar que me dê trégua e me sorria…”.

Bibliografia consultada

ALVES FILHO, Aluizio, Pensamento Político no Brasil. Manoel Bomfim: um ensaista esquecido. Rio de Janeiro: Achiamé/Socii, 1979.

_____________, “Nietzsche e Monteiro Lobato”. In: Jornal O Estado de São Paulo, 6.9.1988.

ASSIS, Machado de, Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora  José Aguilar, 1959.

____________, Contos; seleção de Deomira Stefani, texto integral. 6ª edição. São Paulo: Ática, 1977.

____________, Crônicas Escolhidas. São Paulo: Ática, 1994.

____________, Memórias Póstumas de Brás Cubas. 22ª edição. São Paulo: Ática, 1997.

BLOOM, Harold, Gênio – Os 100 autores mais criativos da história da literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

BOSI, Alfredo, Machado de Assis: o enigma do olhar. 4ª edição. São Paulo: VMF/Martins Fontes, 2007.

BRAGA, Ubiracy de Souza, “Teu saber nada valerá se não souberem que tens saber”. Disponível em: http://secundo.wordpress.com/2010/08/07.

FERNANDES, Florestan, A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.

FOUCAULT, Michel, “Deux essais sur le sujet et le pouvoir”. In: DREYFUS, Hubert e RABINOW, Paul. Michel Foucault, Un parcous philosophique. Paris: Gallimard, 1984

GADAMER, Hans-Georg, Wahrheit und Methode: Grundzüge einer philosophischen Hermeneutik.Tübingen, Mohr, 1960.

GRAMSCI, Antonio, Conceito de nacional-popular.Teoria. Obras Escolhidas. Vol. II. Lisboa: Editorial Estampa, 1974.

____________, Gli intellettuali e l`organizazione della cultura. Torino: Ed. Einaudi, 1975.

HEGEL, G. W. F., Fenomenologia dello Spirito. Florença: La Nuova Itália, 1973, 2 volumes.

SEVCENKO, Nicolau, (org.), História da vida privada no Brasil 3 – República: da Belle Époque à era do rádio. Dir. Fernando A. Novais. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

_____________, Literatura como missão: tensões sociais na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1999.


* UBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

** Agradeço ao autor e, também, ao Francisco Secundo Neto, editor do blog Secundo Caderno

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Os ritos mortuários em Ópera dos Mortos, de Autran Dourado – por Necilda de Souza

08/05/2010

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No prefácio de O Homem e a Morte, Edgar Morin afirma que “(…) a espécie humana é a única para qual a morte está presente ao longo da vida, a única a acompanhar a morte com um ritual funerário, a única a crer na sobrevivência ou no renascimento dos mortos”. Não se pode precisar historicamente quando nem por que o homem começou a enterrar os seus cadáveres. Alguns estudiosos, como o próprio Edgar Morin, atestam que “não existe nenhum grupo arcaico, por mais primitivo que seja, que abandone seus mortos ou que os abandone sem ritos” (MORIN: 1976 p. 25). Não há consenso, mas é possível que os primeiros homens, ainda nômades, abandonavam seus mortos e seguiam seu caminho. Pode ser que por questão de higiene, ou motivo religioso passaram a construir sepulturas. As primeiras conhecidas datam de aproximadamente 80 mil anos a.C. A existência dos ritos é constatada desde o homem de Neanderthal, há 600 séculos. “Tudo se passa como se, desde as origens, o homem pensasse na eventualidade da vida contínua após a morte” (THOMAS: 1993).

O rito funerário é a prática mais primitiva que persiste até hoje. Qual o motivo de o homem ter conservado um comportamento tão arcaico? Edgar Morin responde que o ritual existe porque a morte, apesar de estar no cerne de todo ser humano, ele ainda não conseguiu domá-la, ou sequer, compreendê-la. Como não consegue entender, “os ritos manifestam vivo desejo de atenuar a morte, de ultrapassá-la… numa palavra, de negá-la”.

Segundo Edgar Morin, a partir da segunda metade do século XIX começa uma crise de morte, juntamente com a crise geral do mundo contemporâneo. A literatura e a filosofia seriam os medidores do grau da angústia da sociedade, “pois por elas e nelas se revelam as contradições e aspirações, a miséria e as fraquezas, as revoltas e as grandezas antropológicas.”

Dessa forma, a literatura, que por muito tempo foi desprezada pelos historiadores, passa a constituir uma excelente fonte para a compreensão do comportamento do homem diante da morte.

Autran Dourado e o rito

Segundo Maria Lúcia Lepecki, “a morte em Autran Dourado é tema, motivo e assunto.” Autor de 27 livros, dentre eles romances, contos, ensaios e novelas, o escritor mineiro que vive atualmente no Rio de Janeiro, privilegiou o tema da morte na maioria de suas obras. Considerado pelos críticos como um escritor da corrente introspectivo-regionalista, Autran Dourado começou a publicar em 1947, é contemporâneo de Clarice Lispector e João Guimarães Rosa. Sua obra foi traduzida para várias línguas, foi agraciado com diversos prêmios nacionais e internacionais, mas só recentemente sua obra tem despertado o interesse da crítica literária brasileira.

Ópera dos Mortos é, sem dúvida, um dos romances mais bem construídos do autor. Incluído pela Unesco numa coleção das obras mais representativas da literatura mundial, foi considerado injustamente por alguns críticos como o único romance de qualidade do autor. Sua narrativa focaliza o íntimo de Rosalina, filha única de João Capistrano Honório Cota, que assume as personalidades contraditórias do pai e do avô, Lucas Procópio. Todo o texto é organizado em torno da morte. Rosalina só nasce após sucessivos abortos da mãe e ela própria perde o filho no desfecho da narrativa. Solitária, vivendo apenas com a escrava Quiquina, que é muda, a protagonista se enclausura no sobrado construído pelo pai, herdando dele o orgulho de um fracasso político. Isolada das pessoas da cidade, ela passa os dias fazendo flores de pano entre os relógios parados. Após a morte da mãe, seu pai para o relógio da sala sem nenhuma explicação e Rosalina repete o gesto quando seu pai morre. No desfecho, Rosalina não morre, mas, enlouquecida, é levada embora da cidade, o que pode ser considerada uma forma de morte, pois Quiquina repete o gesto dos patrões parando o último relógio da casa.

A Ópera é dos mortos porque são eles que regem a vida no sobrado, principalmente a de Rosalina. Com a morte do pai, ela vai ficar sozinha na casa. Segundo Edgar Morin, “o morto-pai, ou chefe, vai perpetuar além da tumba, a antiga autoridade exercida em vida” (p. 153). Seu isolamento das pessoas da cidade é uma forma de obediência ao pai. Mais do que isso, como lembra Lepecki, “(…) a sua tragédia assume dimensão maior na medida em que ela é a única sobrevivente da família, aquela, portanto, sobre quem recai, inteira, a responsabilidade do culto aos mortos”.

O termo Ópera pode ser definido como “uma organização temporal de sons e silêncios”. O silêncio da casa com a morte da maioria de seus moradores, o silêncio da mudez de Quiquina. Mas para romper com ele, entra em cena Juca Passarinho, sonoro, falante. “Rosalina ouvia José Feliciano. A voz de José Feliciano veio dar vida ao sobrado, encheu de música o oco do casarão, afugentou para longe as sombras pesadas em que ela, sem dar muita conta, vivia”. (p. 73). Assim afirma o narrador invisível, impessoal, que representa toda a coletividade. A opção por longos monólogos interiores confirma a tese de uma obra feita muito mais de silêncios do que de sons.

Desde sua aproximação da cidade Juca pressente a tragédia que causará sua ruína: tem pesadelos, a primeira visão da cidade é a voçoroca (sinal de destruição) e o cemitério (sinal de finitude). De fato, o fim trágico, característico de Ópera, irá confirmar a suspeita de Juca. Transformando Rosalina e sendo transformado por ela, suas vidas são esmagadas pela engrenagem. São os fantasmas de Rosalina que tudo transforma em morte. A presença dos mortos na casa e na vida de Rosalina só é possível através do culto dos vivos, ou seja, da própria Rosalina. É nesta dimensão negadora da morte que surge a importância do ritual.

Apesar de em nenhum momento o texto afirmar que os ritos são pertencentes a qualquer tipo de religião, é nos termos religiosos judaico-cristãos que serão observados os ritos mortuários nesta obra. Ao situar sua narrativa em uma cidade do interior de Minas Gerais (mesmo mítica, mesmo atemporal) não é possível dizer que os ritos presentes sejam não católicos, predominantes naquela região.

Há quem considere Ópera dos Mortos como um longo ritual. De forma simbólica, João Capistrano Honório Cota presta homenagem ao pai morto ao construir um sobrado sobre a casa , procurando manter as características da primeira construção. No entanto, a primeira morte física constatada no casarão diz respeito aos “anjinhos” de Dona Genu, mãe de Rosalina. “E os filhos não vinham e não vingavam. Nasciam temporãos e mortos ou não iam além de meio ano”. (OM 17). Percebe-se nesta passagem a crença religiosa de que a criança quando morre retorna como anjo, ou seja, livre de pecado. Observa-se também que não há cerimônia fúnebre no enterro das crianças natimortas, ou dos “anjinhos”: “E lá ia o preto Damião, seguido da menina Quiquina, levar para o cemitério, sem nenhum outro acompanhamento, a miuçalha perdida, os frutos pecos do ventre de Dona Genu. Que graça podia achar Quiquina naqueles enterros de anjinhos mal nascidos? E o coronel Honório mais dona Genu iam povoando o chão vermelho do cemitério.” (OM 18)

A primeira morte com rito funerário completo é o de dona Genu. Após ter rompido relações com a cidade, o povo espera poder entrar na casa e reatar os laços de amizade com o coronel. Trata-se do caráter de publicidade da morte, ou seja, neste momento, de forma alguma os parentes do morto poderiam evitar que as pessoas prestassem sua última homenagem à dona Genu. Observe a descrição do velório: “O caixão, as essas e paramentos armados na sala, o sobrado encheu-se de um povaréu de cara sentida pela perda de uma dona tão boa como dona Genu: mostrava-se que a gente também sofria”. (OM 26)

Nessa altura da narrativa dá-se início um ritual que será repetido mais duas vezes. O coronel Honório Cota para o relógio da sala. Diante das diferentes simbologias que o objeto pode assumir, podemos reter o que mais nos importa. Parar o relógio significa dominar o tempo, ou seja, dominar a morte.

Diferente da morte dos “anjinhos”, o narrador mostra com detalhes o momento do funeral: “No acompanhamento do enterro o coronel Honório Cota vinha logo atrás do caixão, não segurava na alça, deixou isso com a gente, dando o braço a Rosalina, que como ele não chorava nem soluçava, apenas os olhos úmidos e vermelhos minavam um brilho de lágrima, que a gente, de tanto querer ver, via”. (OM 27).

Na mesma página, o narrador apresenta a outra morte da casa. “Foi quando o coronel João Capistrano Honório Cota morreu”. (OM 27). Mais uma vez a oportunidade se apresenta ao povo da cidade de se redimir, agora, perante Rosalina. “A casa se encheu de gente, ia-se de novo prestar reverência, dar os pêsames, abrir o coração solidário para Rosalina, a ver se ela aceitava”. (OM 28). A morte soava como um pretexto para a aproximação social, com a morte a casa perdia seu caráter de interdição. A expressão “prestar reverência”, é lembrado no prefácio de SORM: “Também no rito funerário trata-se de teatralizar a relação última com o defunto, de “materná-lo”, honrá-lo… em suma, fazer como se não tivesse morrido.

Por falar em teatralização, com gestos medidos, Rosalina para o outro relógio da sala. Agora, resta apenas um relógio para ser parado na casa. Não resta dúvida de que será na ocasião da morte da última da linhagem dos Honório Cota. Mas até lá, a narrativa irá percorrer um longo caminho.

Como se disse, a aproximação de Juca no sobrado irá alterá-lo profundamente. Sozinha, reprimida por um amor que não deu certo, Rosalina que se embriaga todas as noites, se envolve sexualmente com Juca Passarinho. Mesmo sob o olhar de censura de Quiquina, eles passam a se encontrar com frequencia. Dividida em duas, pois à noite Rosalina assume uma personalidade completamente diferente da aparência diurna, confundindo Juca, que se vê transformado (não tem mais a alegria do “passarinho”), ela engravida. Resultado de uma união profana (tudo o que não diz respeito à casa), assim como os anjinhos de dona Genu, o filho de Rosalina nasce morto. Desse fato, nasce uma das cenas mais dramáticas do romance. Juca Passarinho correndo na madrugada com o filho nos braços, embrulhado em um pedaço de pano. Antes, porém, Juca pensa em enterrar o filho na horta, mas Quiquina gesticula para que ele procure as “goelas abertas”, a voçoroca. Além da simbologia de não enterrar o filho (profano) no lugar sagrado (casarão), há também o caráter histórico de haver um local certo para a inumação. No entanto, percebe-se que também Juca considera o filho natimorto como profano. “Não pensou em enterrar aquele embrulho no cemitério, nas voçorocas. Apenas obedecia. Agora parou. Não conseguia mais avançar nem se afastar. Não podia jogar aquele embrulho na beira da estrada. A cerca, o pasto. Jogou o embrulho e a pé por cima da cerca, saltou- a. Logo adiante, entre duas touceiras, começou a cavar apressado, o mais depressa que podia. Tinha de ser bem fundo. Por causa dos tatus, ia dizendo. Tatu fuça tudo.”(OM 203).

O último capítulo do livro inicia com a expressão “De repente a gente voltava ao sobrado”. Agora não era para nenhum velório, mas para a “morte em vida” de Rosalina. Dessa vez, em uma atitude antecipada no texto, Quiquina para o último relógio da casa. Pode-se considerar a partida de Rosalina com uma morte, pois ela desaparecerá para sempre diante do povo da cidade. E então, as pessoas percebem não seria mais possível uma reconciliação, pois a morte os havia separado para sempre. “Lá se ia Rosalina para longes terras. Lá se ia Rosalina, nosso espinho, nossa dor”.

Referências

BAYARD, Jean-Pierre. 1996. O sentido oculto dos ritos mortuários: morrer é morrer? Tradução de Benôni Lemos. São Paulo: Paulus

DOURADO, Autran 1967. Ópera dos mortos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira

LEPECKI, Maria Lúcia. 1976.  Autran Dourado: uma leitura mítica. Brasília: Quiron; São Paulo: I.N.L.

MORIN, Edgar. 1997. O homem e a morte. Tradução de Cleone Augusto Rodrigues. Rio de Janeiro: Imago


* NECILDA DE SOUZA possui graduação em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mandaguari (1993) e mestrado em Letras pela Universidade Estadual de Londrina (2003). Atualmente, é professora na rede pública do Estado do Paraná e acadêmica em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Os labirintos das publicações eletrônicas – por Reginaldo Dias

24/04/2010

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O livro eletrônico é uma realidade a que os autores, mais cedo ou mais tarde, tendem a aderir. Antonio Roberto de Paula, sempre na vanguarda, já caminha para seu segundo título. Willame Prado, que escreve neste espaço, também aderiu à tendência. Eu ainda não produzi o meu e-book, mas convivo com a publicação eletrônica na vida acadêmica. São raros os periódicos científicos importantes que ainda preservam edições impressas. Como regra, mesmo quando ainda recebem versão impressa, eles devem estar disponíveis na internet.

Embora a obra literária seja um universo em que o culto pelo livro impresso sobreviva com mais força, encontro paralelos interessantes entre os recursos disponíveis nas publicações acadêmicas eletrônicas e certa produção literária de vanguarda.

A literatura científica, como se sabe, sustenta-se na novidade que a pesquisa então divulgada apresenta e no diálogo que mantém com o que havia sido e vem sendo produzido. Há, portanto, um jogo obrigatório de referências. O leitor leigo talvez considere, com bons motivos, uma chatice aquele conjunto de citações e de indicações bibliográficas. Isso pode ser aliviado, mas não eliminado. O pesquisador acadêmico não é o novo Adão, aquele que teve a prerrogativa de dar nome a tudo. O diálogo com seus pares é obrigatório. Era e é assim com as publicações impressas. Tem de ser assim com as publicações eletrônicas.

Há uma diferença, porém. Enquanto na publicação impressa você tem que ir atrás do livro ou do artigo citado, na publicação eletrônica, supondo que a referência  seja outro texto eletrônico disponibilizado na internet, a indicação vira um link. Você pode ler, imediatamente, o que a referência contém. Se essa referência tiver outros links, você pode ir a eles e abrir outras janelas. E isso pode acontecer em uma sucessão sem fim. Se não tomar cuidado, o leitor pode se flagrar em um labirinto. Imagina-se que o leitor, a exemplo do que fez Teseu na mitologia, tenha controle sobre o percurso que realiza, mas tais facilidades tecnológicas alteram suas opções e enriquecem sua leitura. Não se trata mais de uma leitura linear.

Se o caso é a relação de livros com labirintos, eu bem poderia fazer paralelos com Jorge Luiz Borges.Ocorre-me, entretanto, citar outro argentino genial, Julio Cortazar. Em O jogo de amarelinha, considerado sua obra-prima, ela permite ao leitor sorver a narrativa de forma não convencional. Em vez de seguir a seqüência normal das páginas,  ele pode fazer outro percurso, saltando casas, como no jogo que dá o título ao livro.

Lembro-me, também, de um livro menos celebrado, chamado Dicionário Kazar, do escritor Milorad Pavitch, em que há um procedimento inspirado nesse jogo literário. O livro conta uma história, mas tem a estrutura de um dicionário, ou seja, é composto de verbetes. O leitor tanto pode seguir o caminho linear quanto eleger outro percurso. Ao ler um verbete, ele encontrará referência de outros. Ele pode esperar para encontrar esses verbetes na seqüência normal ou se remeter diretamente a eles. Lá chegando, encontrará outras referências. E assim por diante. No final, a narrativa se torna inteligível, mas o caminho, em que se afirma a inventividade do leitor, faz toda a diferença.

Sou daqueles que sentirão saudades do livro impresso, caso eles se tornem obsoletos, mas o universo que se abre é fascinante. Por enquanto, podemos sorver as virtudes dos dois universos.


* Docente do Departamento de História, Universidade Estadual de Maringá; Doutor em História. Publicado na coluna Entrelinhas, em O Diário do Norte do Paraná, 21 de abril de 2010.

Liberdade utópica – por Paula Naomi Meguro

24/03/2010

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“Dizem que eu sou louco por pensar assim, se sou muito louco por eu ser feliz, mais louco é quem me diz e não é feliz…”. Balada do louco – Arnaldo Baptista – Rita Lee

“A punição que os homens de bem sofrem quando se recusam a tomar parte é viver sobre o governo dos maus”. Platão

“São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes”. Ray Bradbury

É fato inconteste que os indivíduos são dotados de liberdade; seja liberdade política, religiosa, ideológica, etc. No entanto, qualquer afirmação de que o homem é um ser livre merece ser recepcionada com ressalvas. A liberdade abordada nesse estudo não é aquela que vem expressa na máxima de que “a liberdade de um acaba onde começa a liberdade do outro”, mas sim a relativa disposição que as pessoas possuem em se guiarem de forma autônoma/independente em detrimento do convencionado pela imensa maioria.

Muito embora seja inevitável se influenciar pelos ideais consolidados pela maioria, seja por meio da tradição, do consenso e de tantas outras formas, o homem não só se deixa influenciar pelo imenso “rebanho” como também tende a aceitar, sem nenhum tipo de questionamento, a existência de determinadas valorações a condutas que pratica. O perigo não é a influência, que é uma conseqüência até esperada; o risco que se corre é acatar “bovinamente” o propagado pela “tirânica” maioria, isto é, aceitar as aludidas valorações como determinações a serem seguidas de maneira absoluta e incontroversa.

Eventuais divergências, ou até o mero questionamento do que fora estatuído, constituem, muitas vezes, ofensa à sociedade, que não quer que seu modelo pré-estabelecido seja posto em dúvida. Não raro esses conceitos, tidos como certos e indiscutíveis, são legitimados por meio de um revestimento legal, ou seja, o que apenas era uma convenção social, uma orientação, um hábito, torna-se um comando de lei, e que, portanto, está sujeito à reprimendas/sanções do Estado.

Na obra Fahrenheit 451[1], escrito pelo norte-americano Ray Bradbury, observa-se justamente essa situação. O Estado recrimina qualquer tipo de inovação. A sociedade retratada na obra caracteriza-se, mormente, pelo fascínio que os seus membros possuem pelo ócio. Os indivíduos vivem entorpecidos pela programação vazia que a televisão oferece, a qual, inclusive, interage com os mesmos, e também pelos remédios tomados. Desse entorpecimento resulta uma sociedade dominada pelo lugar comum, não há diferenças entre as pessoas, há uma verdadeira massificação. E o Estado, por sua vez, representado na obra por Beatty, o chefe dos bombeiros, reprime qualquer indício de contestação da ordem estabelecida pela maioria. Beatty comanda um grupo de bombeiros numa época em que a referida corporação não apagava o fogo, mas que, ao contrário, incitavam-no em livros. Na ficção em comento, os folhetins foram abolidos com o escopo de atalhar a propagação do conhecimento. Primava-se, em suma, por informações triviais, sem substância, que não traziam em seu bojo reflexões e questionamentos. Os bombeiros, mantenedores da ordem, incineravam os livros que alguns indivíduos teimavam em possuir, inobstante o mandamento coercitivo em contrário. O ideário contido nos livros era considerado pernicioso pelo grupo dominante. Nesse diapasão, depreende-se que os textos queimados, em si, não despertavam interesse por parte das autoridades públicas, o que era incômodo e causava preocupação era qualquer tipo de suscitação de dúvida ao sistema anestesiante, que os mesmos, de forma indireta e oblíqua, perquiriam; representando, portanto, uma ameaça à sobrevivência do grupo majoritário nos moldes já delineados.

No contexto, a leitura de livros configura uma forma de escapismo àqueles que não se adequam aos padrões que a maioria idolatra. Os leitores representam a minoria esmagada que tem que se subordinar à consciência social (e, na ficção, também estatal). O que o Estado e a sociedade quer coibir são reflexões, questionamentos acerca do “por quê” das coisas. A leitura mecânica, sem interpretação, sem crítica, é a ideal, porquanto não gera nenhum tipo de contradição e complexidade. Ora, tudo o que é mastigado, dado de forma inconteste, não causa pânico aos que não querem pensar e não querem que os outros reflitam.

A aceitação da ordem social vigente, sem ressalvas, denota uma “bestialização”, afinal, não há a garantia de que o ideal propagado pela maioria, em detrimento de uns poucos, seja a mais correta que a destes. A convenção da opinião majoritária em não pensar/questionar é imposta aos demais como um comando cego a ser seguido.

Hodiernamente, presencia-se um cenário bem parecido com o descrito na obra Fahrenheit 451, quando, por exemplo, as pessoas se dirigem às lojas, a fim de praticar um ato puramente privado, de escolha individual, que é comprar vestimentas, e se vêem numa torrente de roupas da “atriz global” ou da “moça da propaganda”; ou, ainda, quando se conceitua que determinado padrão é o certo ou o belo em contraposição do que é errado ou feio.

O que as pessoas não percebem, bem como as personagens da obra, é que os conceitos sociais são muito contingentes e discricionários, daí que não é legítimo impô-los a todos indistintamente. Ao contrário das leis físico-naturais, os comandos sociais não possuem (ou não deveriam possuir) caráter absoluto, uma vez que seu conteúdo é fixado em razão de convenções entre os homens. Hanz Welzel, ilustre penalista alemão, sintetizou poeticamente tal raciocínio: “nenhum de nós, homens, assistimos o conselho dos deuses, no qual foram tomadas as decisões finais acerca das regras do correto e do justo” e, tendo em vista isso, “o homem não pode ter jamais a certeza absoluta de que a estrutura de sentido que extrai de si ou cuja verdade afirma seja a única justa em um contexto histórico”.[2]

É mister ressaltar que os conceitos majoritários, impostos de forma coercitiva, encontram legitimidade não só no aparato estatal e na conseqüente consciência social, advinda das leis e da própria convenção/hábito/tradição, mas também é respaldado pela indústria cultural que, por intermédio da mídia (televisão, rádio, internet…) reproduz o que a maioria “quer ver”, “ quer comprar”, “quer ter”. Não é conveniente à mídia oferecer aos destinatários um programa, produto ou idéia que, no jargão utilizado, “não dê ibope”. Ora, após todo o raciocínio explanado, é evidente a massificação à qual o homem é submetido sob a roupagem de uma suposta liberdade. A canção “Terceira do Plural” do grupo Engenheiros do Hawaii reflete bem a situação descrita: “eles querem te vender/ eles querem te comprar/ eles querem te matar… a sede/ eles querem te sedar”.

De forma paradoxal, é lícito afirmar ainda que a liberdade, no viés analisado, origina o totalitarismo, sendo, nesse sentido, totalitária a moral vigente do senso comum, do vulgar. Os personagens Montag, Clarisse McCllean e Faber representam a “subversão”, ou seja, caracterizam tudo o que vai contra ao que é cunhado de “normal” (mas, afinal, o que é normal? E quem estabeleceu o que é normal?). A idéia de que existe uma ditadura da maioria é reforçada por essas figuras no livro que, ao não se adequarem à sociedade entorpecida em que vivem, questionam o que lhes são impostas, ou melhor, mastigadas. Os indivíduos agem mecanicamente, e os livros, tão odiados, abriam passagem para o que era contraditório, instigante e sem sentido, isto é, abriam passagem para a desestabilização e o pensamento. Ora, numa sociedade que prima pelo senso comum não pode ter em suas entranhas algo que não se coadune com os seus princípios, que destoe da imensa maioria “ruminante”. Havia, em síntese, uma intolerância e repúdio por tudo o que era diferente e novo, o que metaforicamente foi representado pela chamada “ditadura da maioria”. Cumpre salientar ainda que a determinação do Estado, personificado pelos bombeiros que queimavam os livros, embora imposto coercitivamente aos jurisdicionados, era respaldado pela sociedade, ou seja, o que, de início, pode ter sido apenas um comando legal, tornara-se uma orientação aceita, sem reservas pelos indivíduos.

Indubitavelmente, pode-se asseverar que estar no grupo da maioria, pertencer à coligação do elo mais forte, ter as características (pessoais, financeiras, religiosas) que todos cultuam proporciona uma grande sensação de conforto. Todavia, será que todo esforço desprendido para se alcançar ao que todos cultuam não fará com que os indivíduos percam a individualidade/originalidade? A resposta só pode ser sim. Pune-se a diferença, ao invés de premiá-la. Todos os indivíduos têm que ser iguais, seguir, mansamente, o que lhes é cominado pela famigerada ditadura da maioria.

Fazendo um paralelo com o romance e com a sociedade atual encontram-se vários pontos em comum. A trama retrata o impasse que as pessoas tidas como diferentes encontram. Há uma grande dificuldade dos personagens centrais em manifestarem suas idéias, tendo em vista que estas dissonavam com o pensamento indolente da época. Não é aceito sequer a instigação de dúvida ao sistema eleito. Na contemporaneidade, seguindo a mesma máxima de repúdio ao que é diverso, fazer a afirmação de que se é ateu ou homossexual, ou, ainda, ostentar a condição de ser gordo, ter o cabelo crespo, dentre tantas outras situações, equivale a ser marginalizado da mesma sociedade que convencionou que o indivíduo deve ter um corpo atlético, ser temente a Deus e etc.

É interessante notar que os métodos utilizados para perpetuarem os valores da maioria são os mesmos na ficção literária e na realidade atual, a saber os meios anestesiantes da televisão e do uso contínuo de pílulas que possuem o nítido escopo de mascararem a vida como de fato ela é. Convém recitar novamente os versos da música do Engenheiros do Hawaii: “Corrida para vender cigarro/ cigarro para vender remédio/ remédio pra curar a tosse/ tossir, cuspir, jogar pra fora…”.

Recorrer aos referidos subterfúgios (programas televisivos e remédios) não deixa de ser um escapismo que os próprios livros, em si, proporcionam. O cerne da questão consiste na idéia de que como é o modo pelo qual as pessoas se valem para atingir essa fuga e o que se obtêm por meio dela. Sem dúvida, a diferença basilar entre as duas alienações é que na TV, e também nas drogas, o indivíduo não é impelido à prática da reflexão (talvez, para não se ter justamente a consciência do quão é manipulado e possui uma vida vazia – situação tão debatida na obra); já a fuga oferecida pelos livros, queimados em Fahrenheit 451, representava na sociedade retratada um modo de subversão em razão de que os mesmos faziam com que os indivíduos adquirissem uma visão mais crítica da realidade; mostrando-a não perfeita como a prolatada. Os personagens, ao realizarem a leitura dos livros, buscavam uma forma de fuga, de válvula de escape em relação à realidade circundante; não concordavam em participar do convencionado, daí o “alheamento”/fuga, que, na verdade, proporcionava uma maior compreensão dos fatos.

Dessa maneira, pode-se dizer que a liberdade, da maneira como foi exposta, é hábil a condenar o homem a um totalitarismo sui generis, não aquele totalitarismo ferrenho nos moldes do nazi-fascismo, mas aquele totalitarismo silencioso que, de forma oblíqua, impõe seu ideário e que entra sorrateiramente na consciência coletiva e que, justamente, em virtude de seu caráter clandestino, reveste-se de maior periculosidade. Ainda que, à primeira vista, possa parecer insano consignar que a liberdade origine o totalitarismo, tal disparate revela-se em sintonia com a realidade se se pensar que a profusão de idéias, proporcionado pela liberdade de expressão que cada qual possui, é uniformizada por uma convenção soturna, de forma que haja um conceito cultural para cada valor, sendo, destarte, imperiosos e totalitários os conceitos axiológicos imputados pela convenção tácita. Para se mascarar a liberdade, e fazer com que os indivíduos sigam o convencionado, não é necessário que haja orientações legais proibitivas, canhões nas ruas ou ideologias escusas sendo difundidas, basta oferecer às pessoas a impressão de que estão se guiando por conta própria, e controlar-se-á o que os indivíduos pensam. Demonstrou-se, aqui, com fulcro na obra Fahrenheit 451 que nem sempre (quase nunca, diga-se de passagem, o saudoso Nelson Rodrigues, com sua peculiar argúcia e bom humor, já sentenciara que “toda unanimidade é burra”) o adágio popular que apregoa que “a maioria tem sempre a razão” merece guarida, haja vista mormente que a orientação (que na obra é uma norma coercitiva) de seguir a maioria constitui instrumento apto a transformar pessoas pensantes e críticas em “rebanhos” e indivíduos alienados, embriagados pela propaganda televisiva ou ainda por antidepressivos e drogas afins.

Referências:

BAPTISTA, Arnaldo e LEE, Rita. Balada do louco. Disponível em: http://vagalume.uol.com.br/engenheiros-do-hawaii/3-do-plural.html – acesso em 28 fev. 2010

BRADBURY, Ray. Fahrenheit, 451. São Paulo. Tradução de Manuel da Costa Pinto. Ed. Globo, 3ª ed., 2005.

GRACIA MARTÍN, Luis. O Horizonte do Finalismo e o Direito Penal do Inimigo. São Paulo. Tradução de Luiz Regis Prado e Érika Mendes de Carvalho. Ed. Revista dos Tribunais, 1ª ed., 2007.


* Acadêmica do curso de Direito pela Universidade Estadual de Maringá.

[1] BRADBURY, Ray. Fahrenheit, 451. São Paulo. Tradução de Manuel da Costa Pinto. Ed. Globo, 3ª ed., 2005.

[2] Apud GRACIA MARTÍN, Luis. O Horizonte do Finalismo e o Direito Penal do Inimigo – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2007, 1ª ed., p. 144.

“Correio do Tempo”, de Mário Benedetti – por Pávila Vicentini Faeti

03/03/2010

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Quando iniciamos a leitura de uma obra literária, esperamos poder reconhecê-la por traços característicos que nos levem a compreender o que o autor queria dizer, e o significado do título da obra. A escolha da mesma se dá pela curiosidade que quase sempre é suprida ou frustrada, mas que encontra a resposta que estava procurando ao ler o livro escolhido.

O livro Correio do Tempo trata de relações delicadas que perpassam o tempo e que se encontram na realidade da sociedade capitalista. Relações permeadas de lutas, relações que transbordam humanidade. Cada conto, cada momento lido, nos leva a perceber a infinidade de implicações que rodeiam nossas relações, por mais banais que pareçam. Estamos sempre em luta, em constante luta.

Em nossa vida privada e publica, estamos cercados por interesses que fogem ao nosso controle e que mudam nossas vidas, mesmo quando nos tornamos apenas os que se deliciam das conseqüências, quando somos apenas os coadjuvantes dessa história.

A política está estampada em cada momento de nossas vidas, como um papel de parede em uma casa que determina a diferença de cada ambiente. Os momentos políticos que a sociedade vive pintam de maneira diferente cada momento e escolha que fazemos em nossa vida, e determinam nossos passos.

O marxismo, com o propósito que o homem seja cada vez mais humano, inspira as lutas cotidianas. De um lado, um ator político que deseja que as lutas de classe possam trazer mais igualdade; que as mulheres possam amar livremente como os homens; que o capitalismo não destrua as boas lembranças de tempos mais tranqüilos, que passam a ser esquecidos em vista da construção dos monumentos capitais do operário que se entrelaça ao burguês e é traído por ingenuidade, da inocência roubada que leva também à morte de muitos, das perseguições de guerra, de ideologias que roubam pessoas de pessoas e fazem da ausência uma pessoa, um companheiro constante a nos seguir.

As lutas de cada país saem de um contexto distante de nossa realidade e atingem nossa vida. Existem, por certo, aqueles que jamais são atingidos por coisa alguma. Não é desses que nos atemos quando analisamos a beleza da vida em movimento, pois estes não representam nenhum significado nas lutas cotidianas, são apenas pessoas que passam pela vida, mais que não a vivem.

Vamos pensar naqueles que vivem a vida, que se entregam ao amor, amor pela vida, pela ideologia, pelo poder, pelo homem, amor que é capaz de transformar tudo em luta.

Cada conto lido no livro de Mário Benedetti nos remete a realidades tão próximas a nossa, não pelos seus acontecimentos, mas pelo significado de cada coisa, de cada descrição de toques, lugares e desejos.

Amores que são destruídos e construídos a partir de perseguição da ditadura; amores não realizados pelas diferenças sociais, esperas, chegadas e partidas. Lutas de classe que foge do âmbito operário versus capitalista e que chegam à realidade homem ladrão e mulher burguesa, que contrastam e nos levam a enxergar que nossa vida é uma rotina política.

Descrições saudosas de um passado militante que não volta, de amores que se vão com a luta. De lutas que levam toda uma vida e que nem sempre se chega à vitória, mas muitas vezes, a vitória parece derrota, e a derrota torna-se a mais importante das vitórias.

A liberdade de poder desejar o que se quer desejar e poder ter o que é possível possuir, liberdade de lutar, mesmo que sobre codinomes e máscaras, mas aí a necessidade de viver é maior que a própria identidade.

Lembranças que são pesadelos, que roubam a vida de quem as têm e que não deve pertencer a mais ninguém, para que suas vidas também não sejam roubadas.

A percepção de um regime que rouba o direito de ser pessoa e o aliena em utilidade e eficiência. Os que resistem a isso são marcados para sempre com a violência, a prisão e muitas vezes a morte. Rouba o direito da mãe de ser mãe e tornam um assassino pai.

Enfim, o livro correio do tempo, mostra-nos que o tempo seja o tempo que passa, ou tempo que se tem, faz que sejamos quem somos e cobra-nos também um alto preço por desejar-mos ser aquilo que não querem que sejamos, por sonharmos com tempos melhores quando tempos melhores não podem chegar até nós.

Lutas que consomem vidas e que sobrevivem ao tempo justamente porque vidas foram oferecidas. E são dadas em lutas que sequer percebemos, em momentos que muitas vezes nem paramos para ver que enquanto vivemos muitos ainda estão nas sombras e sofrem perseguições por terem ideais de uma vida melhor. Ditaduras que na América Latina roubaram vidas, identidades e fizeram com que muitos não tivessem nem mesmo a certeza se estão mortos ou se são apenas recordações de coisas e pessoas que nem existiram.

O tempo pode passar em nossas vidas e podemos apenas olhar para o tempo e chegarmos ao fim. Mas podemos também ser aqueles que fazem algo com o tempo que temos, que fazem com que mais do que utilidade seja significado o seu tempo; e que mesmo no silencio e na solidão sua voz seja ouvida como quem luta, mesmo que sozinho, para que o tempo não nos roube mais de vida, para que o tempo seja um instrumento de luta e vitória e não mais um momento de deixar que as cosas passem, que a feridas cicatrizem. O tempo não cura feridas, o tempo abre novas feridas.


* Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá.