Archive for the ‘Dostoiévsky’ Category

Humanidade miserável – por Aurora Bernardini

14/04/2010

* Em seu primeiro romance, Dostoiévski trouxe à tona os sentimentos e infortúnios dos excluídos de São Petersburgo

Um mundo multiforme e contraditório, ao qual se referiu Igor Vólguin – estudioso da obra de Dostoiévski (1821-1881) – configurou-se em volta do escritor desde sua primeira infância. Doçura e crueldade, miséria e esbanjamento, fantasia e realidade, ordem rígida e evasão, soberba e submissão, avareza e dom de si são apenas algumas das características que haverão de marcar Gente Pobre (1844-1846), seu primeiro romance.

Fiódor era o segundo dos sete filhos (quatro homens e três mulheres) de Mikhaíl Andréievitch e Maria Fiódorovna Netcháiev. O pai, médico, iniciou sua formação cuidando dos feridos da campanha contra Napoleão em 1812, mas teve uma carreira medíocre. Vítima de um terrível complô dos servos que maltratava, morreu em sua propriedade rural localizada em Tula, cidade próxima a Moscou. A mãe, Maria Fiódorovna, era filha de um rico comerciante. Mulher sensata e generosa, abrandava o marido ciumento e protegia a prole de seus ataques.

Quando Fiódor nasceu, a família morava nas dependências do grande hospital público Mariinski, em Moscou, onde o pai trabalhava. A casa em que moravam era circundada por um jardim, separado do hospital por uma grade. Era para lá que o jovem Fiódor escapulia, misturando-se aos pacientes e deles ouvindo as histórias mais variadas. Os relatos o impressionavam a ponto – dizem alguns de seus biógrafos – de ter tido aos 9 anos o primeiro ataque de epilepsia, doença que nunca o abandonou e que descreveria, com instantes de êxtase, em Mýchkin, Smerdiákov e em outros protagonistas de seus futuros romances.

Infortúnios

Em 1834, Fiódor e o irmão mais velho, Mikhail, foram inscritos no internato Tchermak, de onde sairiam para ingressar na Escola de Engenharia do Gênio Militar de São Petersburgo. Aos sábados, voltavam para casa e, valendo-se dos momentos em que o pai descansava, devoravam os livros de seus autores prediletos (Walter Scott, Charles Dickens, George Sand, Victor Hugo) e recitavam poemas de Púchkin e Jukóvski para a mãe, já doente de tuberculose, que os ouvia encantada.

A partir de 1837, as desgraças se sucedem. Primeiro a morte de Púchkin, o ídolo, depois, a da mãe amada. Outro grave desgosto: o irmão e grande amigo Mikhail não é aceito na Escola de Engenharia por questões de saúde. Na escola, rigorosíssima, mas onde injustiças são cometidas em prol dos protegidos, Fiódor passa por dificuldades financeiras e mal consegue sobreviver, pois o pai – tomado por uma avareza incontrolável – não lhe envia o dinheiro imprescindível. Em junho de 1839, recebe o telegrama em que é informado da morte do genitor, que fora brutalmente assassinado pelos colonos mujiques. A comoção é tanta que lhe sobrevém outro acesso epilético.

O crime repercute em sua consciência de forma indelével. Fora das leis humanas, ele também é culpado, também desejara a morte do pai, dirá Freud em seu ensaio “Dostoiévski e o Parricídio”. Se as leis humanas erigem um “muro de pedra” em volta do indivíduo, os futuros protagonistas de seus livros haverão de transpô-lo, caindo em um território ora ilógico, ora alucinado, em que será dito aquilo que tem medo de revelar a si próprio.

A gênese do romance

No entanto, a vida continua. Fiódor traduz Balzac e Schiller, compõe dois dramas históricos, joga e despede-se do irmão Mikhail que, agora casado, vai morar em Revel. Quem lhe fará companhia durante certo tempo é o irmão André, que vai a São Petersburgo estudar arquitetura.

Passados alguns concursos, Dostoiévski entra nos quadros do serviço ativo do Gênio Militar. Em 1844, porém, em vista de uma transferência que haveria de levá-lo para longe de São Petersburgo, demite-se irrevogavelmente. É em meio às dificuldades financeiras e ao mar de dívidas em que se encontra mergulhado que começa a esboçar Gente Pobre, seu primeiro romance. Em março de 1845, escreve ao irmão em Revel: “Estou contente com meu romance. Já o estou passando a limpo. É uma obra sóbria e limpa, apesar de alguns defeitos”.

Dostoiévski mal podia imaginar o estrondoso aplauso com que a crítica progressista da “escola natural” russa – de tendência social, voltada para o tema dos desvalidos, com Belínski à frente – iria saudar o livro, publicado em 1846. Em forma epistolar, o romance traz duas digressões nas quais os dois heróis contam um ao outro sua vida modesta e atribulada. De um lado está o pobre escriba Makar Diévuchkin – que, como Akaki Akákevitch, de Gógol, só possui um uniforme remendado – e, de outro, seu secreto amor: a doce e terna Varvara Dobrosiólova, jovem que vive de costura, em uma casa ao lado.

O leitor há de ficar impressionado com os sentimentos insuspeitos e as “verdades elementares” que suscitam esses habitantes de uma São Petersburgo que, ao lado de belos palácios, avenidas fervilhantes e heróis retumbantes, como Don Carlos e Posa, abriga pardieiros de uma humanidade miserável composta de pequenos funcionários, usurários, prostitutas, estudantes e jovens ultrajadas. “Eles são vossos irmãos”, escreveria Belínski. “Em algum canto sombrio, o coração puro e nobre de um conselheiro dedicado a seus chefes e, com ele, o de uma jovenzinha, ultrajada e triste” – conforme escreveu Dostoiévski – lhe apontava a vereda pela qual começaria o percurso de sua longa estrada.


* Fonte: Revista Cult, 28 de março de 2010. Disponível em http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/humanidade-miseravel/

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Liberdade por necessidade – por Terry Eagleton

24/02/2010

Terry Eagleton sobre “O Grande Inquisidor”, Lapham’s Quarterly,19/01/2010

[Tradução: Caia Fittipaldi]*


Publicada pela primeira vez na Rússia czarista em 1880, Os irmãos Karamazov é obra prima metafísica de Fyodor Dostoevsky, romance animado por clamores de danação eterna tanto quanto de imortalidade. Sigmund Freud acreditava que o livro deixasse entrever tendências obscuramente enigmáticas, até mesmo criminosas, de Dostoevsky; e surgiu na Rússia uma neologia – Karamazovshchina – para designar a depravação, a violência e o desvio psicológico que o romance explora. Como boa parte da ficção de Dostoevsky, seu último romance combina o trágico e o grotesco, momentos de êxtase místico e episódios de farsa selvagem. Seus personagens parecem viver em permanente estado de angústia patológica ou sensibilidade mórbida: nobres arruinados, caricatos proprietários de terra e funcionários doentes de paranóia social, todos mergulhados no gozo pervertido de serem insultados ou humilhados.

Seus extraordinários romances, dentre os quais Crime e Castigo (1866), O Idiota (1869) e Demônios (1872), apresentam uma sociedade naufragada em miséria feudal, mas colhida por ideias vanguardistas, misturadas com anarquismo e niilismo, tementes a Deus e negadores de Deus. Como alguém que conheceu a sedução da Cristandade Russa Ortodoxa, Dostoevsky jamais olhou com bons olhos a política radical e o secularismo liberal; como muitos modernos, era politicamente conservador e artisticamente temerário. E sua imaginação era acossada por rebeldes e parricidas, pelos marginais danados e amaldiçoados, tanto quanto pelos santos e pelas escrituras. A dissolução talvez seja apenas a via torta que leva ao Paraíso. É possível que os endemoniados entendam melhor Deus, à sua própria moda, que muitos bispos de gola engomada.

Os irmãos Karamazov não é apenas uma meditação sobre a graça e o pecado, inferno e salvação. É também um romance de intriga, um “policial”, como se diz hoje. Enormemente complexo, em algumas edições com quase mil páginas, o romance evolui em torno do assassinato de Fyodor Karamazov, proprietário de terras, e a ação – do início ao fim são apenas quatro dias – oferece todo o drama e a tensão das melhores histórias de detetive. Sobre um frágil fundamento de narrativa, repousa uma imensa, gigantesca, descomunal superestrutura de comentário social, de meditação religiosa e de ruminação filosófica. Os filhos de Fyodor, irmãos e herdeiros, muitas vezes chegam ao limite da loucura e da ruína espiritual, sempre exibindo desprezo profundo pela moralidade pequeno-burguesa. Dimitri, violento e sexualmente dissoluto, rufião metade sensual metade infantil no campo moral, é devorado por ódio edípico. Alexei, o mais jovem, também desdenha a linha média da moralidade, mas tende mais ao angélico que ao demoníaco. O irmão do meio, Ivan, o racionalista, parece rejeitar Deus completamente e engaja-se em vivo debate diretamente com o Demônio – que lhe aparece vestindo calças xadrez fora de moda.

O mais extraordinário fragmento do romance é “O Grande Inquisidor”.[1] Ivan conta a Alexei o que se conhece como “o Grande Inquisidor”, como parte de um diálogo entre os irmãos sobre a questão da fé religiosa. Suas discussões são dramáticas, negociações estratégicas, mais do que disputa de argumentos filosóficos. Não se pode pois subestimar essa maravilhosamente rica narrativa convertendo-a em simples exposição de ideias de Dostoevsky. Como a narrativa de Marlowe em Coração das Trevas[2], trata-se de uma história dentro de outra história. Não se sabe o quanto acuradamente se expõem aí crenças de Ivã, nem o quanto são influenciadas por aquelas específicas circunstâncias conversacionais. Durante o episódio não temos acesso à sua consciência. Em vez disso, ouvimos uma história que não tem qualquer existência separada desse específico ato de contar, e da qual o próprio Ivan zomba, apresentando-a como “nada além de poema zonzo, de estudante zonzo”. Talvez esteja apenas tentando ‘conquistar’ o irmão, a quem a fábula soa mais ou menos incompreensível. Estará tentando dar uma sacudida na fé de Alexei? A forma complexa, desviante do episódio, em outras palavras, nos chama a atenção para o fato de que estamos na presença de literatura, não de filosofia ou teologia. O Grande Inquisidor acusa Cristo, o que não parece característico de Dostoevsky, homem de inclinações religiosas. Por outro lado, o pouco prestígio de que goza o rebanho comum, aos olhos do Inquisidor, soa bem próximo das próprias opiniões do autor. Nada nesse grande capítulo pode ser lido superficialmente. A verdade nunca se compra barata.

A trama de “O Grande Inquisidor” é bem simples: Jesus volta à Terra, descuidado a ponto de desembarcar na cidade de Sevilha durante a Inquisição Espanhola. O Grande Inquisidor, já chegando aos 90 anos, ordena a prisão do Salvador, com planos de o fazer queimar vivo no dia seguinte, em praça pública, como “o mais vil dos hereges”, e vai à cela onde Jesus está preso para explicar por quê. O que se lê daí em diante é uma das mais cuidadosamente bem arquitetadas apologias do despotismo religioso jamais escritas, ou é espantosa sátira desse tipo de autocracia. Por que Jesus, pergunta o Inquisidor, depôs o intolerável peso da absoluta liberdade sobre os ombros da pobre, fraca, depravada humanidade? Como se atreveram Jesus e seu pai a professar tal eterno amor por todos os homens e mulheres, ao mesmo tempo e m que os tentam com tantos ideais impossíveis? Melhor, claro, seria oferecer ao povo aquilo por que o povo mais suplica – o pão da terra –, em vez de oferecer-lhe só o etéreo pão da bem-aventurança eterna. A terrível verdade é que os seres humanos são fracos demais para carregarem o peso da liberdade. “Nada seduz mais os homens que ter a consciência livre”, o Inquisidor explica a Jesus, “mas nada, ao mesmo tempo, mais o atormenta que a consciência livre. E por isso, em vez de um fundamento sólido que traga paz à consciência humana de uma vez por todas, vocês preferem algo desconhecido, enigmático, indefinido; vocês escolhem algo que está além da força humana.” O homem anseia, sobretudo, por entregar sua assustadora liberdade a um mestre benigno, que cuidará de manter-lhe vivo o corpo e o aliviará do sofrimento conhecido como desejo de escolher.

O único alívio, sugere o Inquisidor, é a Igreja. “Melhor que nos escravizem, mas nos alimentem” – eis o choro do povo; a Igreja, em sua sabedora, responde a essa súplica com as três sagradas consolações, “milagre, mistério e autoridade.” Diferente de Ivã, intelectual cruel, o povo pobre deseja cultuar, não entender; e a combinação na Igreja tradicional, de operar milagres, uma gota de mistério, segredo e enigma, e uma autoridade que parece dispensar qualquer fundamento puramente racional, graciosamente deixa-se venerar. O Grande Inquisidor entende, e tem certeza de que Deus não entendeu, que os seres humanos são horrivelmente fracos e impotentes. O amor do Grande Inquisidor consiste em protegê-los em sua fragilidade, não, sadicamente, esfregar-lhe no nariz aquela fragilidade. O Grande Inquisidor conclui sua denúncia e Jesus nada diz. Em vez de falar, curva-se para a frente e beija na boca o Grande Inquisidor. O Inquisidor suspende a execução de Jesus. Condena-o ao exílio eterno. Que nunca mais volte.

Diferente de muitos ateus e agnósticos – diferente, de fato, também de muitos crentes – Dostoevsky assume que Deus é fonte, não obstáculo, da liberdade humana. Deus é amor, como argumenta Santo Tomás de Aquino, é o que nos permite sermos nós mesmos, assim como o cuidado da boa mãe, do bom pai, permite aos filhos florescer como seres autônomos. Paradoxalmente, é nossa dependência de Deus que nos liberta. Dostoevsky não tem paciência para as fantasias infantis-adolescentes de Deus como um Paizão que só existe para atrapalhar nossos prazeres secretos, uma espécie de Bill O’Reilly celestial chato. Há bons motivos psicológicos para que acalentemos aquela fantasia, masoquistas crônicos que somos. Freud sabia da gratificação que obtemos de cada surra que levamos de nosso crudelíssimo, vingativo superego. Trata-se apenas de desaprender essa visão infantilizada de Deus e passar a vê-lo como amigo, amante, parceiro de luta e conselheiro da defesa. Exatamente o que tanto não queremos fazer. É muito mais conveniente vê-lo como velho irascível e safado, um desses rock stars badalados que todos os dias têm de ser aplacados e acalmados. Isso feito, todos podemos gozar as delícias edípicas de nos rebelar contra Deus.

O Grande Inquisidor acerta também ao ver Deus como assustador. No Velho Testamento, Jafé manifesta-se como um fogo terrível de ver, um abismo sublime que derrota qualquer tentativa de representação. Mas o Inquisidor não vê que o que tudo ultrapassa, em Deus, é o amor. É como um terror santo que tudo destrói para tudo renovar, sem limite para o perdão e o favor. A paixão de Deus por suas criaturas tem a intransigência das coisas não condicionadas, do incondicionado perfeito. Deus não tem, como tantos gnósticos imaginam tão confortavelmente, uma face criativa e uma face destrutiva. O escândalo é que as duas faces são uma e a mesma.

A liberdade também tem duas faces desse tipo. É ao mesmo tempo dom e maldição, veneno e cura, auto-realizarão e autodesfazimento. A vida das criaturas livres é ao mesmo tempo precária e entusiasmante, o que é mais do que se pode dizer da vida dos peixinhos de aquário. O animal histórico, diferente do animal natural, vive sempre em risco, “condenado a ser livre”, diz Sartre. “Vivemos em liberdade por necessidade”, acrescenta Auden. Arrastamos nossa liberdade pelo mundo, como correntes e bola de ferro. Mas, embora os humanos possam fazer mau uso da liberdade, não são completamente humanos sem ela. O maior elogio jamais feito à humanidade é a doutrina do inferno. Se somos livres para rejeitar a própria fonte de nossa liberdade, para cuspir na cara do Criador, então, sim, somos superiores a tudo. E se o Criador se fez assim tão humilde, desejando a própria vulnerabilidade, então talvez não seja tão autoritário controlador como se diz que seja. O pensamento contudo é tão assustador quanto prazeroso, motivo pelo qual o Inquisidor pode não ver coisa melhor a fazer-se com a liberdade além de imediatamente passá-la adiante, como jogador de meio de campo, desesperado para passar a bola que acaba de receber.

Esse ato de renúncia, pode-se ver, não é idêntico a crer que a mais alta forma de liberdade é a voluntária cessão da liberdade. Para o Inquisidor, que tem da humanidade a visão diminuída típica dos conservadores, homens e mulheres deveriam abandonar a liberdade que têm, porque a liberdade é praga. Por outro lado, para um certo tipo de protagonista trágico, devemos abrir mão da liberdade precisamente porque é o nosso bem mais amado. Se livremente podemos abrir mão dela, abraçar deliberadamente nosso destino, então, sim, somos invulneráveis. No próprio ato de nos submeter à autoridade superior, revelamos um poder que a transcende. Há algo desse paradoxo na crucificação de Cristo; e na aceitação amorosa do Pai, por Jesus, está o fundamento de sua ressurreição. Só ao abraçar a humilhação e a morte, sem as ver como degraus da escada para a glória, Jesus transfigura a fraqueza em potência. Ao mesmo tempo, esse paradoxo pode também ser a mais sutil das tentações do demônio. Foi, no caso dos nazistas, que encontraram um tipo mais profundo de liberdade, muito superior à miserável modalidade liberal, que encontraram ao submeter-se ao Führer e à Pátria-mãe. A linha que separa o comandante da SS e o mártir que voluntariamente se entrega ao martírio do próprio corpo para salvar outros é muito fina.

Os norte-americanos tipicamente pensam nos aspectos positivos do idealismo; o Inquisidor considera destrutivas as consequências disso. Para um europeu como eu, jamais deixo de me surpreender com o idealismo dos EUA – ironicamente, onde se constituiu uma das civilizações mais materialistas de toda a história. Os norte-americanos devem sempre mais afirmar que protestar, mas esperar que lamentar, ser vencedores mais que perdedores, sempre aspirantes, nunca submissos rastejantes. Nesse mundo faustiano de sempre mais, mais, mais, a negatividade é crime grave. Se se mete na cabeça um tipo de vitória sobre a matéria digna da Ciência Cristã[3], não há limites para a ambição humana.]

Essa ideologia blasfema, sintetizada na conhecida mentira norte-americana do “Yes, you can” [sim, você pode] fazer o que quer que meta na cabeça que fará, passa sem ver pela fragilidade e pela finitude do homem – território que o Inquisidor conhece muito melhor. Também diferente nisso do Inquisidor, esse otimismo sem limites não vê o que bem se pode designar como “o terrorismo do ideal”. Claro que é preciso acalentar ideais, mas, como “a lei” para São Paulo, os ideais não podem fazer mais do que mostrar onde cada um errou; nenhum ideal consegue mostrar a alguém como fazer melhor. Esse é o motivo pelo qual Paulo amaldiçoa a lei. Os ideais têm nariz empinado e colarinho duro, em tudo parecidos com o superego freudiano – uma faculdade que nos estimula a aspirar abaixo de nossas potências, a falhar sempre e, depois, a mergulhar num poço de auto-recriminação [também chamado ‘autocrítica’]. O idealismo é cúmplice da violência e do desespero, não antídoto contra eles. O desejo neoconservador de arrastar o universo para fora da barbárie, rumo à luz da civilização, está em exposição e pode ser visitado, por exemplo, na baía de Guantánamo.

É contra essa fúria arrogante, esse ciclo autodestrutivo, que o Inquisidor procura proteger o homem comum. Se não esperamos demais dos outros, não cairemos em posições de trágico desapontamento e frustração cada vez que os outros não chegam até “lá”, inevitavelmente, tantas vezes faltando tão pouco. O niilismo ou o cinismo são a outra face do idealismo. O realismo é a única base segura para uma vida moral. O que mais partilhamos com os seres humanos nossos companheiros é nossa carne frágil. Qualquer solidariedade que não se baseie nisso e baseie-se em algum tipo de partilha de altos propósitos sempre será frágil. Solidariedade entre fracos é perdão mútuo; e o perdão é a mais avançada forma de realismo porque, para ser autêntico, o perdão tem de reconhecer plenamente o horror da ofensa no momento em que a afasta de si.

Como Freud sabia bem, os mais sublimes impulsos do homem têm raízes nos impulsos mais basais e, se não tiverem, não florescem. O que nós criaturas temos em comum, afinal, é o corpo sem adornos, o que é o mais universal de nós mas, também, o mais vulneravelmente precário e único. Por isso a vítima do campo de concentração, desnudada de toda e qualquer cultura e história específica, é prototipicamente humana em sua absoluta miséria. A alternativa real ao idealista é o perdedor. A mensagem do Novo Testamento é que os pobres, as putas, os adúlteros seriais, os colaboradores dos poderes coloniais, a escória do mundo herdarão o império, não os pios e bem-comportados. E chama a atenção que Jesus sequer tenha pedido que esses tipos de péssima reputação se arrependessem antes de unir-se a eles – escandalosa, espantosa inovação introduzida pelo povo judeu.

A teologia do Grande Inquisidor soa estranha porque ele não vê que a perigosa liberdade que Deus dá aos homens e mulheres é, dentre outras coisas, liberdade do jugo da lei. Por isso Jesus diz “Meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mateus XI 28-30). São os escribas e fariseus, diz ele, que impõem pesados fardos às costas dos pobres. Jesus exige, como maior demanda, por sua vez, amor e tolerância. Com essas demandas, mostra que Deus não é um Paizão, que não é adversário autoritário e restritivo, cheio de truques. No Velho Testamento, a palavra em hebraico para “adversário” é Satan, e Deus ganha traços de Satan para os que o concebam como alguma espécie de superpotência assustadora, e pensem que para barganhar e obter os favores dele bastaria fazer as coisas certas. Segundo Jesus, Deus já perdoou todos – falta apenas que todos se deixem amar por Deus. Aí está a tremenda dificuldade. Muito mais prazeroso é abraçar as cadeias que sujeitam os outros.

O Grande Inquisidor alista-se entre os que veem Deus como seu inimigo. Ele crê que, como um déspota brutal, Deus joga sobre os ombros de homens e mulheres mais do que podem carregar; esse peso, o Grande Inquisidor não chama dízimo ou imposto, mas liberdade. Ao mesmo tempo, o Inquisidor não vê a solidariedade de Deus com a fraqueza humana – que também é conhecida pelo nome de Jesus. No Calvário, Deus se comprova frágil e carnal até a morte. Seu único significante é o corpo torturado de um homem que falou de amor e justiça e o Estado condenou à morte. Só se se consegue olhar de frente esse terrível fracasso, pode-se encontrar fundamento para algo mais edificante. Só depois de enterrado na terra, pode-se subir aos céus. O amor fez sua morada em terra coberta de excrementos, como Yeats não nos deixa esquecer. Idealismo moral que recuse essa verdade é sempre, só, mais ideologia.

Dostoevsky com certeza sabia que o Jesus do Novo Testamento rejeita a clara divisão que o Inquisidor apresenta, entre o pão da terra e o pão do espírito. No Evangelho de Mateus, a salvação não é questão “religiosa” ou etérea; é questão de alimentar os famintos e tratar dos doentes. No verdadeiro espírito judaico, o ensinamento é ético até a medula. São os de mente materialista que preferem religião em outros termos e palavras, se possível palavras do outro mundo, para compensá-los do excesso de esse-mundanismo crasso de sua verborragia materialista. Não surpreende que uma garota material(ista)[4] como Madonna tenha aulas de misticismo no Kabbalah Center em Los Angeles. Onde mais, se não lá, poderia ela escapar por um momento dos agentes, fãs, gerentes, cabelereiros, costureiros e tais? Claro que a salvação não pode depender só de prosaicos copo d’água e côdea de pão. O Grande Inquisidor é sujeito profundamente mundano, que tem objeções ao que vê como cobranças espirituais cruelmente irrealistas. Em termos mundanos espertos, ninguém jamais foi tão longe quanto ele. Mas ele não percebe é que Deus é um tipo único de superego, que antes aceita o fracasso e ama o fracassado, do que recompensa o sucesso.


* Caia Fittipaldi reside em São Paulo, é formada em Linguística, pela USP, e trabalha como tradutora e editora de texto. Texto recebido por e-mail da rede castorphoto. O original, em inglês, pode ser lido em: http://www.laphamsquarterly.org/reconsiderations/freedom-by-necessity.php?page=all

[1] NT: Pode ser lido, em português, em http://www.scribd.com/doc/24831393/Fiodor-Dostoievski-O-Grande-Inquisidor .

[2] NT: Pode ser lido, em português, em http://www.scribd.com/doc/11021362/Joseph-Conrad-O-Coracao-Das-Trevas

[3] NT: Para saber o que é, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Christian_Science

[4] NT: Ing., “material girl”. É o título de música gravada por Madonna, em seu segundo álbum, “Like a Virgin”, lançado em janeiro de 1985. “Material Girl” passou a ser uma espécie de codinome da cantora (emhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Material_Girl).

Dostoiévsky – Os Irmãos Karamázov

21/11/2009

Os Irmãos Karamázov, romance que sintetiza a obra de Dostoiévski, ganha uma edição em dois volumes, com tradução feita diretamente do russo por Paulo Bezerra.