Archive for the ‘Entrevistas’ Category

Pequena sabatina ao artista

28/08/2008

por Fabrício Brandão*

No terreno multifacetado das palavras, não são poucas as atribuições que podem ser percebidas em Affonso Romano de Sant’Anna. Poeta, ensaísta, professor e largamente conhecido pelo seu ofício de cronista, o autor é um daqueles observadores críticos da realidade de seu tempo. Munido desse olhar, matéria-prima essencial de sua obra, atravessou uma vida de íntima relação com as letras, aspecto que se desdobra em seus mais de quarenta livros publicados. A própria história da Diversos Afins é testemunha de alguns dos escritos dele, pois, durante o tempo de existência da revista, Affonso vem colaborando conosco de forma significativa com suas crônicas. Estar próximo a ele é perceber a postura reflexiva, compenetrada e, ao mesmo tempo, irônica de um verdadeiro inconformado com aquilo que fizemos de nossa contemporaneidade. Em meio às paisagens ensolaradas de Ilhéus, no litoral sul da Bahia, captamos um pouco das opiniões que posicionam o escritor como um questionador de um tudo. Exalando uma visão extremamente atenta e aguçada, Affonso conversa conosco sobre temas como os equívocos da pós-modernidade, os aspectos contemporâneos da poesia, a convergência das mídias e o complexo conceito de arte na atualidade. Esteta ou contestador, o fato é que estamos diante de um alguém que põe em crise as nossas próprias perplexidades.

DA – Suas crônicas percorrem uma universalidade de temas. Porém, o foco das atenções aponta para uma apreensão ampla do humano em todas as suas complexidades. Esse olhar é uma boa ferramenta de provocação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Acho que escrever é um certo modo de olhar. Não só o escritor vê coisas que a pessoa normal não percebe, mas vê e expressa isso de uma maneira específica. E a crônica é a redescoberta do cotidiano, dentro do qual você tem as coisas que transcendem esse cotidiano.

DA – É possível acreditar na escrita como uma espécie de libertação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Sim. Libertação, catarse e, ao mesmo tempo, aprisionamento. Desde o momento em que se transforma em escritor, você também é prisioneiro da linguagem, prisioneiro em vários sentidos. Você começa a ver o mundo através da linguagem. Assim como o músico ouve sons e melodias o tempo todo, o escritor só vê o mundo através dessa lente, dessa rede, que tem esse caráter duplo de aprisionar e libertar.

DA – É muito difícil chegar a um consenso quando o assunto é definir a qualidade de uma obra literária, sobretudo se a discussão aponta para os chamados juízos de valor. Em sua opinião, o que deve nortear esse tipo de avaliação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – O juízo de valor ético e estético entrou em crise sobretudo na modernidade, no século XX. Assim como deixou de haver limites entre o feio e o bonito, o louco e o são, o sujo e o limpo, o alto e o baixo, o dentro e o fora, houve, principalmente na segunda parte da modernidade, na chamada pós-modernidade, uma indisposição em relação ao valor, como se qualquer coisa equivalesse a qualquer coisa. O que é uma mentira. Entre as mentiras da pós-modernidade, essa é uma delas porque na vida de qualquer um, sobretudo na daqueles que pregam a ausência de valor, valores estão sendo decretados. Dizer que os valores morreram é decretar um valor.

DA – Aquilo que chamamos pós-modernidade, caracterizada principalmente pela avalanche de informações, vem carregado de sintomas de um tempo onde parecemos nos agarrar pouco à substância das coisas. Será que estamos perdendo a capacidade de resistir?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Está muito complicado realmente, ainda mais para uma pessoa que vem de outra geração, como é o meu caso. Um jovem que está começando agora, e ele já nasce nesse contexto, não tem parâmetros de experiências para avaliar o presente. Existe realmente uma tendência na atualidade para a superficialidade, a fragmentação, a aparência, a pressa, a negação dos valores. Isso tudo são características da pós-modernidade. Tem muita gente que endossa e gosta disso. Eu não, pois tenho uma posição crítica em relação a isso. Acho que o intelectual, o ficcionista, o teórico que endossa as coisas da pós-modernidade é um desastre. Ele está assumindo uma ideologia, enquanto que a função do intelectual é justamente contestar as ideologias porque atrás delas existe uma coisa mais visceral e mais autêntica.

DA – Vivemos um período de crescente convergência entre as mais diferentes mídias, onde tempo e espaço se comprimem simultaneamente. Em que medida essa conjunção de fatores pode ser uma aliada dos novos escritores?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Era muito mais simples antigamente quando os gêneros eram muito estabelecidos, não só os gêneros líricos, dramáticos, épicos, o que era romance e poesia, mas o que significavam esses suportes também. O livro era uma coisa, o teatro, outra. Hoje há uma superposição muito rica. Eu gosto disso. Seu texto de repente ganha uma vida nova dentro desse quadro que é uma espécie de jogo de espelhos. Temos, por exemplo, poema transformado em vídeo, em balé, em pôster. E o problema que existe hoje é o desafio para o artista ter uma certa convivência com essas mídias. Em meu primeiro livro, o qual se chamou O Desemprego do Poeta, onde eu estudava o deslocamento do poeta na sociedade moderna, eu dizia que João Cabral de Melo Neto, em 1945, havia afirmado que os poetas precisavam se aproximar do rádio, forma de comunicação revolucionária da época (não tínhamos sequer televisão ainda). No entanto, ele falou aquilo, mas nunca se aproximou do rádio. Da minha parte, eu tentei me aproximar dos meios de comunicação todos. Fiz poemas de encomenda para rádio e televisão, por exemplo. Dentro desse ambiente, teve muita gente que se recusou a fazer parte do processo.

DA – Baseado nisso, você acha que o autor, mesmo o mais tradicional, ficaria muito alheio se não estivesse inserido nessa tendência?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Não. Ele pode de repente ficar na dele, como faz o Manoel de Barros, que constrói aquele poema filosófico sobre o nada, e fica lá no Mato Grosso, não incomoda ninguém, não corre atrás de ninguém. Fica na dele e o poema no papel. Acho que uma das coisas importantes na vida em geral e, sobretudo na vida artística, é a liberdade de cada um escolher o caminho que quiser.

DA – A contemporaneidade, rompendo certas convenções, trouxe uma nova aurora para a poesia? Qual a efetividade dessa provável ruptura?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Isso é outra arma de três gumes. Primeiro, não existe liberdade, pois ela é um conceito abstrato. Tudo está preso a um sistema determinado. Por exemplo, uma formiga que esteja andando aqui parece que está seguindo para onde quer, mas não, na verdade, está condicionada a uma série de fatores. Liberdade total é uma ficção. Mas aconteceu no caso específico da poesia uma coisa que eu acho meio danosa. Eu pego muitos livros de poesia que surgem por aí de um pessoal que não tem a menor noção do que é o verso. O verso é uma estrutura e tem gente que fica escrevendo e corta ele onde bem quer. Às vezes, nem corta, pára o verso onde bem entende como se aquilo fosse um texto em prosa. E, no fundo, é prosa, pois não se tem a idéia do verso como unidade rítmico-formal. Isso leva a uma série de mal-entendidos e começa a ser uma espécie de facilitário, quando a gente sabe que o poema mais simples, às vezes, exige um trabalho muito grande.

DA – Seu último livro, “A Cegueira e o Saber”, aborda questões que chamam a atenção daqueles que se aventuram pelo misterioso mar da criação literária, citando casos de nomes importantes, como James Joyce e Scott Fitzgerald, e que um dia tiveram obras suas recusadas por editores. Podemos dizer que sua intenção principal foi a de reduzir o peso dos ombros daqueles que procuram publicação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – A intenção eram várias. Primeiro, narrar para quem está interessado, principalmente o jovem autor iniciante, umas peripécias normais existentes na carreira do escritor. Depois, até exorcizar coisas que já vivi e vivo porque hoje, com mais de quarenta livros publicados, eu continuo a ter uma série de problemas também. Os problemas não param. Eu sempre tive nos meus textos uma preocupação de dizer para o leitor alguma coisa útil, além de dizer algo que eu penso. Outro dia, uma leitora me disse que sempre aprendia alguma coisa do ponto de vista da informação, da cultura nas minhas crônicas. Então, esses textos, que estão na Cegueira e o Saber, parte deles tem a função de dialogar com o jovem. Talvez isso venha do lado professor, de ter dado aula a vida inteira e também pelo fato de ser procurado o tempo todo pelo jovem autor que busca saber coisas. As perguntas são sempre as mesmas e, por conseqüência, as respostas também são idênticas. Tem umas coisas que eu estou experimentando e outros escritores antes de mim experimentaram. É bom passar isso para quem está começando.

DA – Para onde apontam seus novos rumos?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Eu vou lançar, na metade do ano, um livro que se chama O Enigma Vazio, um aprofundamento da análise das questões da arte e da cultura de nosso tempo. É um trabalho no qual eu peguei as análises feitas por grandes autores de algumas obras, por exemplo, o que o Octavio Paz escreveu sobre O Grande Vidro, de Marcel Duchamp, o que Jacques Derrida escreveu sobre Os Sapatos, de Van Gogh, o que Roland Barthes escreveu sobre um pintor americano chamado Cy Twombly, e assim por diante. Tudo isso para mostrar ao leitor como os grandes falam imensas tolices em termos de arte. Se os grandes erram dessa maneira, que dirá um jornalista, um crítico de país de periferia, de província que fica repetindo uma linguagem sem raciocinar. É um livro muito desafiante e que põe o dedo na ferida, uma leitura não mais subalterna desses textos, desses autores e da realidade. Não é possível, por exemplo, um professor que freqüenta exposições, lê e viaja, aceite uns produtos apresentados como arte, mesmo sabendo que aquilo não é arte e não diz coisa nenhuma. Insere-se no reino da insignificância, no sentido de algo que está ali, mas não significa nada. Você está diante daquilo e querem lhe vender como uma obra de arte fabulosa, cheia de predicados. Então, eu demonstro, nesse livro, o que é a invenção do discurso crítico. A crítica alucina. A crítica faz literatura quando deveria estar fazendo coisas objetivas. Literatura é outra coisa. E é importante que seja um escritor que venha denunciar nesses pensadores que eles estão fazendo literatura porque de literatura eu entendo.

DA – Inclusive essa abordagem aponta para toda aquela discussão em torno da perda da aura do objeto artístico.

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – É mais grave porque eles criam aura onde não se tem nada. Toda estética moderna caiu num paradoxo. Plagiando Benjamin, acabou a aura. Acabou coisa nenhuma, pois inventaram uma aura para coisas que não têm aura. Uma coisa é você olhar um quadro de Rafael, de Da Vinci, uma escultura grega que já vem com uma aura, obras que estão dentro de um padrão consagrado, sacralizado. Outra coisa é você pegar um urinol, uma roda de bicicleta ou pegar um quadro totalmente branco e começar a ter delírios. Esse delírio é verbal, literário, não tem nada a ver com a obra em si, pois existe uma esquizofrenia entre o discurso e o objeto.

DA – “Arte e fuga da espera” é um dos seus textos emblemáticos, no qual você mexe com o fio delicado de nossas existências – aquilo que projetamos como a fonte de nossas ansiedades. No caldeirão de contradições que é o nosso país, para qual direção apontam melhor as nossas esperanças?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – O futuro do país é a soma de todas as suas contradições. Ninguém pode prever. O Brasil de hoje não é o Brasil do tempo de Vargas, não é o Brasil do tempo de Deodoro, nem de Tiradentes, nem de Cabral. Há vários brasis em movimento no tempo, sem falar do espaço, pois os índios da Amazônia são Brasil também. Estão na Idade da Pedra, mas são Brasil. Então, o futuro nesse sentido é muito imprevisível. Cada geração tem a sua pretensão de vir e colocar uma pedra nesse edifício, empurrar essa bola numa direção determinada. E a esperança nesse sentido é uma fatalidade do ser humano. Não existe nenhum ser vivo que não viva em expectação, como dizem os psicólogos. Se você tirar a expectação de sua vida, isto é, a expectativa, a visão de futuro, você pára de viver. Uma planta tem instintivamente a sua expectação, estão em movimento a seiva, o fruto, o aroma. Ela está produzindo uma coisa para depois. Os seres são assim também. Então, como diria Clarice Lispector, nós estamos condenados à esperança.

___________
Fonte: http://www.diversos-afins.blogspot.com/ Publicado sob autorização do editor. Imagens: Leila Lopes
* Fabrício Brandão é editor da revista eletrônica cultural DIVERSOS AFINS (http://www.diversos-afins.blogspot.com/). Formado em Comunicação Social, dedica-se à poesia e alguma prosa, acreditando que a magia do mundo só é descoberta quando as palavras saem das gavetas e cruzam a rua ao encontro de um outro alguém. E-mail: diversosafins@gmail.com

Anúncios

Entrevista – Literatura reconfortante de um mundo irreal

20/08/2008

Em entrevista a O POVO, o professor da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e ex-preso político Mário Maestri, 60, aponta as razões por trás do sucesso editorial do escritor Paulo Coelho

“Um dos primeiros ensaístas a voltar os olhos sobre sua obra fora o professor Mario Maestri”. Feita por Fernando Morais em O Mago, a afirmação também vem revestida de crítica. Ainda na página 541 da biografia do escritor Paulo Coelho, Morais admite: em texto posterior, Maestri – cujos trabalhos iniciais analisavam com imparcialidade a obra do escritor carioca – cederia à rabugice da crítica literária brasileira. Para o biógrafo, grande parcela dessa crítica vive, salvo um ou outro hiato de bom-humor, às turras com o autor best seller.

Em entrevista a O POVO, o professor gaúcho Mário Maestri, 60 anos, fala, de passagem, sobre o episódio. E cutuca: Paulo Coelho teve o biógrafo que mereceu. Doutor em História pela Université Catholique de Louvain (UCL), na Bélgica, Maestri analisa a obra de Paulo Coelho. Nesse exercício, ele sugere explicações para o fenômeno editorial que representado por Coelho e retoma conceitos apresentados no livro Por que Paulo Coelho teve sucesso, publicado em 1993. Para o pesquisador, as razões por trás do estrelato literário do mago são razoavelmente simples: com uma prosa trivial, assemelhada estruturalmente às tele-novelas, os livros de Coelho destinam-se a um público feminino. Não por acaso, explica Maestri, os personagens mais bem-acabados pelo autor são mulheres, como Brida e Veronika. Isso permite que “jovens e menos jovens desiludidas com a vida identifiquem-se com as soluções literalmente mágicas obtidas pela charmosa bruxinha irlandesa para suas frustrações”. Atualmente, Mário Maestri dá aulas na Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Ainda em 2007, em reportagem publicada pela revista americana New Yorker, Maestri colaborou com uma análise da obra de Paulo Coelho. (Henrique Araújo, Especial para O POVO)

O POVO – Há resposta simples e direta que explique a surpreendente trajetória de Paulo Coelho?

Mário Maestri – Por ser escritor de escassas qualidades e alcançar enormes vendagens, Paulo Coelho constitui indiscutivelmente um fenômeno, ou seja, um fato relevante que exige explicação científica. Em artigo longo, A feitiçaria yuppie de Paulo Coelho, de 1993, reapresentado em forma ampliada como livro, em 1999, Por que Paulo Coelho teve Sucesso, expliquei o sentido daquela literatura e da oposição aparente entre uma qualidade escassa e uma aceitação fluvial. É interessante que, na página 541 de O Mago, Fernando Morais refere-se a esses dois trabalhos, registrando que não os leu e ajeitando-os a suas necessidades. Já em 1993, lembrava que a produção literária de Paulo Coelho era, certamente, prosa literária de tema esotérico, e não ensaísmo de auto-ajuda, como proposto por inúmeros críticos que não haviam lido a produção coelhista, criticando-a a partir da esdrúxula posição “não li e não gostei”. Sobretudo, assinalava, em uma tentativa de análise racionalista de uma ficção irracionalista, as características textuais, estruturais e de conteúdo, assim como o momento histórico, que levaram ao paradoxal sucesso da ficção do Bruxo escrevinhador. Apontei, sobretudo, a estrutura muito simples da narrativa, como as tele-novelas: texto fácil, em ordem direta, com frases, parágrafos e diálogos breves, contando história simples, que avança no espaço e no tempo, cortada por episódios autônomos. Uma narrativa sempre encenada por poucos personagens, em geral não mais do que cinco, contracenando sempre em forma dual com o protagonista, com nomes ou denominações fáceis de serem lembrados. Portanto, uma literatura fácil e acessível a leitores ocasionais, não habituados à ficção densa. Isso, ao meu ver, teria permitido, mas não garantia, um sucesso nascido da capacidade dessa literatura mágico-esotérica de servir de lenitivo à enorme população mergulhada em perplexidade, desânimo, desconcerto, etc., quando da vitória da maré neoliberal. Em 1999, propus que Coelho tivesse modernizado a sub-literatura irracionalista que pôde sair das sombras, com a verdadeira irracionalização do mundo. O Diário de um Mago foi lançado precisamente quando ruía o Muro de Berlim!

OP – Como teve início o seu interesse pela obra do autor?

MM – É uma história divertida. Em 1969, estudante, passei alguns dias preso no DOPS. Um tio, delegado, me presenteou com Meu pé de laranja-lima, um outro sucesso louco na época, que desdenhei pela baixa qualidade literária e ofereci ao meu companheiro de cela, um enorme açougueiro argentino, preso por viver no Brasil sem documento e surrar a mulher. De noite, acordei com seus soluços: homem se debulhava em lágrimas, com o coração partido pela história melosa contada por José Mauro de Vasconcellos. Desde então me interessa o sucesso desse tipo de produção cultural.

OP – O senhor é doutor em História. Do ponto de vista das ciências humanas, que aspectos da obra de Paulo Coelho se relacionam mais diretamente com o cotidiano das suas centenas de milhares de leitores?

MM – O aspecto determinante é a trivialidade. A mesma trivialidade das tele-novelas, da cinematografia melosa, da música brega, dos romances de amor, etc. Trata-se de narrativa de cunho individualista, socialmente piegas e tranqüilizadora, que reitera preconceitos e ilusões, como “querer é poder”, “os justos vencerão”, “todos seremos felizes”, “está em nós vencer”, “ricos e pobres são iguais”. Nessa narrativa, o receptor, reconfortado, desbrava maravilhado mundos conhecidos e seguros, arrombando portas abertas, descobrindo obviedades. Tudo ao contrário da verdadeira arte, que enseja experiências profundas, sentimentos complexos, através de aventura estética de conteúdos essenciais que, desorganizando o senso comum e enriquecendo a consciência, remete para a vida real e não para o mundo das ilusões.

OP – Por falar em leitor, o senhor se arriscaria a traçar um perfil do leitor médio de Paulo Coelho? Afinal, para quem o mago escreve?

MM – No Brasil, Argentina, Portugal, Bélgica e Itália, países onde me informei, sem maior sistematicidade, sobre a recepção da literatura coelhista, parece dominar, claramente, o público feminino, sobretudo jovem e adulto. Em verdade, alguns dos personagens melhor construídos por Coelho são mulheres, como Brida, o que permite que jovens e menos jovens desiludidas com a vida identifiquem-se com as soluções literalmente mágicas obtidas pela charmosa bruxinha irlandesa para suas frustrações. Tenho também a impressão que esse tenha sido o público alvo dos primeiros romances do autor.

OP – Primeiro grande sucesso de Paulo Coelho, O Diário de um Mago foi lançado em 1987. Em seguida, viriam O alquimista e Brida. Esses três romances formam uma espécie de núcleo duro no conjunto da obra do autor. A questão é: como os romances posteriores, até os mais recentes, trabalharam as temáticas e premissas presentes nos primeiros livros?

MM – Esses três foram os livros escritos quando, em 1987-90, Paulo Coelho surfava no sucesso, com enorme impacto cultural e ideológico, de sentido profundamente irracionalista e quietista. O livro As valkírias, de 1992, já assinala o declínio de literatura obrigada por sua trivialidade a reapresentar, sempre, sob formas diversas, os mesmos ingredientes, apesar da metamorfose da conjuntura histórica que lhe garantira o sucesso. Paulo Coelho é homem inteligente à frente de um enorme negócio. Ele se esforça para superar essa tendência declinante, que certamente não lhe impedirá de seguir vendendo, e muito bem, nesse mundo globalizado, sem precisar acender vela para qualquer santo, um produto cada vez mais distante do impacto inicial.

OP – Numa de suas entrevistas, o senhor fala que Paulo Coelho costuma reorientar-se literariamente. Ele faz mesmo novas opções estéticas ou seus livros mudam apenas de cor?

MM – É precisamente para contrabalançar o declínio a que acabamos de nos referir, que Paulo Coelho procura reinventar-se, a ele e a sua literatura. Despiu a capa, abandonando a posição de bruxo, procurando propor-se como simples ficcionista, nos romances Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei [1994], O monte Cinco [1997] e, sobretudo, Veronika decide morrer [1998]. Jamais alcançou, porém, nesses e nos trabalhos seguintes, o impacto relativo das obras iniciais. Vai ser sempre, sobretudo, o autor de O alquimista. O verdadeiro assalto que empreende à Academia Brasileira de Letras, em agosto de 2002, ou a atual biografia acordada com Fernando Morais, são operações de marketing bem pensadas e bem realizadas, destinadas a contrabalançar essa perda de impacto e de dinamismo relativo. Mesmo se aceitando que Paulo Coelho tenha vendido cem milhões de livros em vinte anos, cinco milhões por ano, trata-se de sucesso relativo, diante dos trezentos milhões, em apenas dez anos, 30 milhões por ano, da escritora J. K. Rowling. Ou seja, apenas em livros, a Bruxa britânica faturou relativamente seis vezes mais que o nosso feiticeiro carioca!

OP – Para epígrafe de O Mago, Fernando Morais destaca duas declarações do crítico literário Wilson Martins. Na primeira, de 1998, Martins desanca Paulo Coelho. Escrita sete anos depois, a segunda tolera-o. Por que a crítica literária no Brasil despreza o pop star das letras nacionais? O senhor acredita que uma reabilitação do escritor esteja, agora mesmo, sendo processada ou o mago ainda amargará bastante desprezo?

MM – A evolução de Wilson Martins em relação a Paulo Coelho tem sido a da crítica brasileira, que tende a se render ao magnetismo das vendagens siderais e direitos astronômicos, em mundo em que a pedra de toque é o sucesso de mercado e monetário. Em geral, a crítica já defende Paulo Coelho como ficção de planície que prepara para vôos mais elevados. O que é uma ilusão. A leitura, por si só, não eleva. Literatura racista, sexista ou irracionalista reforça o racismo, o sexismo, o irracionalismo. As telenovelas não levam ao bom teatro ou ao bom cinema. A música brega não introduz à popular e erudita de valor. O caminho para Graciliano Ramos não passa por Paulo Coelho. A narrativa trivial é uma droga que droga o consumidor e o mantém apartado da arte e da vida. Atualmente, a posição de escritor de sucesso mundial, injustiçado pela crítica brasileira, já é parte da estratégia de marketing coelhista. Não foi pela qualidade de sua obra, mas pelo número de exemplares vendidos e pelo novo consenso da crítica, que ele entrou na Academia Brasileira de Letras, algo impressionante, mesmo se considerando a sabida permeabilidade da veneranda instituição. Em todo caso, a avaliação positiva ou negativa da crítica, importante na recepção e, portanto, na vendagem, não cria ou anula a qualidade de uma obra, podendo apenas reconhecê-la ou ignorá-la. O mulato e maximalista Lima Barreto foi ignorado e desancado pela crítica, não apenas de sua época, sendo um enorme fracasso de vendagem. Ele consolida-se, porém, crescentemente como um dos maiores ficcionistas brasileiros.

OP – Logo no primeiro capítulo de O Mago, Fernando Morais apresenta Paulo Coelho como alguém que se enfeza rapidamente quando não se vê cercado por jornalistas e fãs. A seu ver, a biografia faz jus às contradições do personagem?

MM – Fernando Morais consagrou-se com sua reportagem sobre Cuba – A ilha -, publicada em 1976, durante a Ditadura Militar, no começo da chamada Abertura, quando era imenso o interesse da população brasileira sobre Cuba. Repetiu o sucesso com Olga, em 1985, sobre a militante comunista alemã, companheira de Prestes, entregue por Getúlio aos nazistas. Neste último e nos seguintes livros, perseguiu, com sucesso, as vendagens, mesmo através de amplo sacrifício de conteúdo. Creio que vendeu já dois ou três milhões de livros apenas no Brasil. Uma enormidade! Com a biografia de Paulo Coelho, traduzível para dezenas de línguas, vai ampliar enormemente sua tiragem. É sua maior operação mercadológica. Apesar da alta qualidade do seu texto, sua produção historiográfica denota igualmente conteúdo claramente trivial. Estou nas páginas iniciais de O Mago, mas arriscaria dizer, sem medo de ser injusto, que Paulo Coelho não encontraria melhor biógrafo no Brasil. Fernando Morais candidatou-se, em 2003, à Academia Brasileira de Letras, sendo derrotado por Marcos Maciel, ex-senador e ex-vice presidente da República de 1995 a 2002. Certamente com esse trabalho e um santo forte como Paulo Coelho, vai tornar-se igualmente imortal.

Fonte: Jornal O Povo, 09.08.2008. Disponível em http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/810701.html#menu

Franz Kafka não pertence a nenhum ismo

13/07/2007

Colóquio de Guido Araújo com Eduardo Goldstücker

[Revista Civilização Brasileira, Ano I, Nº 3, Julho de 1965. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, pp. 149-154 – Foto: Franz Kafka em companhia de sua noiva, Felícia]

A Eduard Goldstücker cabe o mérito de haver sido um dos idealizadores e principal organizador da Conferência de Líblice sobre Kafka (Liblice foi o castelo que serviu de tema para o célebre romance de Kafka), que constituiu o primeiro debate da obra kafkiana à luz do marxismo, em âmbito internacional.

Goldstücker realizou seus estudos de línguas latinas e germânicas na Universidade Carolina em Praga. Durante a guerra esteve na Inglaterra na qualidade de exilado político e tornou-se germanista pela Universidade de Oxford.

Em 1943, com a idade de 30 anos entrou para o serviço diplomático do governo tchecoslovaco do Presidente Benes. Serviu como diplomata em paris, Londres e Tel-Aviv até 1951, quando foi preso. Envolvido nos processos stalinistas dos primeiros anos da década de 50, que tiveram lugar na Tchecoslováquia, foi condenado em 1953 à prisão perpétua. Reabilitado em 1955 entrava no ano seguinte para a Faculdade de Filosofia de Praga como germanista, onde se encontra até hoje à frente da cátedra de línguas germânicas.

A partir de 1944 o professor Eduard Goldstücker vem publicando uma série de estudos sobre a literatura alemã. Foi ele o editor tcheco das Obras Escolhidas de Goethe e nos últimos anos dedica-se à pesquisa da literatura praguense em língua alemã, que possui grandes escritores como Rilke, Kafka, Brod, etc.

Além de valiosa contribuição à análise marxista da obra de Kafka – feita por ocasião da Conferência de Liblice – Goldstücker lançou no princípio deste ano um ensaio intitulado Sobre o Tema Franz Kafka (Na Tèma Franz Kafka) e no momento prepara uma monografia de Kafka, que trará contribuições novas para aclarar o problema das relações do autor de O Processo com a poetisa tcheca Milena Jasenská.

Pergunta: Em julho de 1962, no Congresso Mundial da Paz, em Moscou, Jean-Paul Sartre apelou para a desmilitarização de Kafka. Perguntaria se este apelo continua válido e qual a contribuição que ele trouxe para uma visão nova de Kafka na análise científica?

Goldstücker: Sartre, naquela ocasião, apelou sobretudo aos países socialistas para que não recusassem a herança da obra kafkiana porque – segundo sua maneira de ver – é possível muito bem integrar Kafka na cultura socialista, mas, na luta ideológica entre os mundos capitalista e socialista, se faz necessário que Kafka seja desmilitarizado. Penso que é uma exigência correta, porém devemos entender esta desmilitarização de um modo mais amplo do que imaginava Sartre.

Nos anos da guerra fria formou-se no mundo ocidental a idéia de que Kafka representa o aliado do Ocidente contra os países socialistas, e como tal o usavam. De qualquer maneira apoderaram-se dele. Tenho plena convicção de que a posse de Kafka pelos propagandistas ocidentais da guerra fria é completamente errada. Entretanto, apesar de ser contrária ao espírito da obra de Kafka, ela sobrevive até hoje. Por exemplo, através da própria experiência, sei que muitos órgãos de imprensa no ocidente interessam-se por Kafka, enquanto o podem aproveitar contra nós. Quando passamos a apreciar a obra kafkiana e sua importância do ponto de vista marxista, então esses mesmo órgãos de imprensa perdem o interesse por Kafka e passam a nos acusar de havê-lo roubado; como se Kafka lhes pertencesse, o que é naturalmente um absurdo!

Por outro lado, é óbvio que ninguém bem intencionado com o marxismo e a literatura chegaria à idéia de apresentar Kafka como algum socialista.

O problema de Kafka é precisamente o de não ser possível reclama-lo para nenhum ismo, nem político, nem filosófico, nem religioso. Sobre Erasmo de Roterdam se dizia que era “homo per se” – homem para si – que não pertencia a nenhum campo. Kafka, penso, é tal homem em nosso século. Kafka não podia e nem era capaz de inclinar-se para nenhuma opinião existente. Não pode plenamente aceitar nenhuma solução da problemática vital que lhe oferecia o seu tempo. Pesquisou todas elas, interessava-se por cada uma, mas não aceitou nenhuma, porque tinha a impressão de que em cada uma delas estava escondida alguma ilusão – e ele não queria acreditar nas ilusões; e, se aceitasse qualquer das soluções existentes da problemática vital, teria de fazer um compromisso. E ele não estava disposto e não era capaz nem de fazer compromissos, nem de acreditar nas ilusões.

Por isso, a demanda da desmilitarização de Kafka me parece um problema de minuciosa análise científica da obra de Kafka, para indicar até onde e em que sentido sua obra pertence à cultura mundial; a qual é, apesar da divisão do mundo, afinal, uma só.

– Aqui cabe a pergunta: até que ponto e se em geral Kafka é atual na sociedade que constrói o socialismo? Numa sociedade que é muito diferente daquela em que vivia e criava Franz Kafka.

Goldstücker: Esta pergunta representou o objeto da discussão na nossa Conferência sobre a vida e obra de Franz Kafka, que teve lugar em fins de maio de 1963, no Castelo de Liblice, perto de Praga.

Acho que Kafka é atual também na nossa sociedade, isto é, na sociedade em que a classe operária conquistou o poder. A revolução socialista ainda não culminou na nova sociedade e esta traz consigo muitas heranças da sociedade e que Kafka viveu e sentia como um grande obstáculo para a vida humana.

Pergunta: Que é a atualidade de Kafka?

Goldstücker: Segundo penso, a atualidade de Kafka encontra-se, sobretudo, no fato – que já tive oportunidade de mencionar de passagem – de que Kafka esforçava-se por ver o mundo e a vida sem ilusões. E nós precisamos de tal visão! Nós, que nos deixamos levar na vida pelas ilusões, que fomos, em freqüência, superficial e ingenuamente otimistas, necessitamos uma visão clara, sem compromisso e sem ilusões, da nossa vida e do nosso mundo. A obra de Kafka nos conduz a isso.

Tal pergunta é importante porque toda a vida moderna da época industrial nos encaminha ao perigo de uma desumanização. Precisamos, de algum modo, nos defender contra a pressão desumanizadora da civilização da máquina. Kafka mesmo a sentia em si de uma maneira muito aguda. Daí as suas imagens de uma vida desumanizada, mecânica e absurda.

Mas, apesar de que ele sozinho não haja encontrado a solução para a sua problemática, não foi subjugado pelo niilismo e cinismo, do qual nos tenta convencer essa pressão desumanizadora. Na última etapa do seu combate, vemos Kafka como se abrisse uma pequena janela da esperança. Esperança que se encontra no fato de que o verdadeiro sentido da vida humana é a luta. Kafka, que foi tão pouco combativo em vida, que não soube solucionar nenhum problema da sua existência: seja seu conflito com o pai, o matrimônio, uma vida unilateral de escritor, nada… em sua obra, segundo penso, nos diz que o único sentido que o homem pode dar à sua vida está na luta!

Na parte final da obra de Kafka a palavra luta aparece com muita freqüência: tanto nos seus diários como em todo o romance O Castelo. Luta para que o homem conserve a sua humanidade mesmo sob as mais difíceis condições, mesmo debaixo da pressão desumanizadora da civilização da máquina. Fato que representa ao mundo um apelo na obra de Kafka para que o homem seja imbuído do sentimento de responsabilidade pela sua vida e de seus semelhantes. Tudo isto, na minha opinião, é muito atual; válido ainda na nossa sociedade e continuará sendo por muito tempo, enquanto não finalizarmos a revolução socialista, enquanto não chegarmos ao objetivo almejado – a edificação da sociedade comunista.

Pergunta: Até que ponto a interpretação marxista da obra kafkiana, que vem sendo feita pelo senhor, Fischer, Garaudy e outros, tem contribuído para corrigir a falsa opinião generalizada de Kafka, tanto no Ocidente como no Oriente?

Goldstücker: A literatura sobre Kafka representa já hoje uma vasta biblioteca e constantemente aparecem novos livros, ensaios, tratados – novas interpretações de Kafka. Penso que a situação é tal que, enquanto as pesquisas kafkianas no Ocidente tem atrás de si pelo menos uma intensa tradição de um quarto de século, as buscas marxistas sobre Kafka apenas começam.

O problema, porém, é que a maioria preponderante das interpretações ocidentais de Kafka não leva em conta as circunstâncias histórico-sociais, sob as quais Kafka vivia e trabalhava. Interpreta a obra de Kafka isolada das situações sócio-históricas; transformando-a de algo bastante concreto num problema metafísico.

Eis a principal falta da interpretação kafkiana no Ocidente e o erro básico que deve ser corrigido. Quanto à atitude do que nós chamamos de Oriente para com Kafka, quer dizer, nos paises socialistas, foi, até faz pouco tempo, até o ano de 1962, em geral, uma atitude de considerar Kafka um escritor decadente. E, como a decadência era recusada, por conseguinte Kafka era recusado também e não lhe foi dedicada nenhuma atenção especial.

Felizmente, muita coisa já foi feita para corrigir esta falta e a nossa Conferência kafkiana representou um passo importante neste sentido.

É necessário ver Kafka com novos olhos, sem preconceitos do ponto de vista marxista; é necessário verificar o que da obra de Kafka teve uma importância apenas momentânea e o que é válido ainda hoje como parte viva de nossa herança cultural. Esta é a tarefa em que, atualmente, estão empenhados muitos ensaístas, críticos e pesquisadores marxistas.

Pergunta: É Kafka um autor realista?

Goldstücker: A questão do realismo em Kafka é mais complicada; Kafka pertence à geração que se formou no tempo em que desaparecia a era do liberalismo burguês, quando todas aquelas grandes ilusões da cognoscibilidade de todos os problemas, do constante progresso ininterrupto, do bem-estar de repente passaram a ser sentidas como falsas. Chegava o fim da era liberal e surgia o imperialismo que desejava abandonar toda a herança humanística da classe burguesa. Naquele tempo a jovem geração, isto é, a geração de Franz Kafka, sentiu de repente que todos os valores – os quais os seus pais desejavam entregá-los como patrimônio – deixaram de ser valores e não contribuíam para formar uma base existencial para a nova geração. Por isso esta geração sentia uma certa inimizade para com a opinião positivista, cuja essência da realidade pode ser vista pelos fenômenos superficiais; que basta constatar, colocar lado a lado os fenômenos superficiais da realidade e desta maneira já se conhece a sua essência. Ao contrário, os da geração de Kafka tinham a impressão de que nem a maior acumulação possível de detalhes da superfície é suficiente para descrever a verdadeira realidade do mundo e da vida.

Kafka é o escritor que neste sentido foi mais longe, de uma maneira mais radical – pelo menos aqui na Europa Central – porque ele se recusou a aceitar a realidade superficial em que vive o homem, preso à rede da moderna vida mecanizada do dia a dia. Ele a recusou como uma fachada irreal e falsa, atrás da qual encontra-se escondida a verdadeira realidade do mundo e da vida. Tinha a impressão que era necessário romper esta aparência e somente lá no fundo encontraria a face verdadeira da existência.

Por isso sua obra é como é. Quando Kafka chegava em casa, vindo do seu escritório, e sentava-se para escrever, quando fechava a porta, era como se eliminasse do seu quarto o mundo de cada dia, as experiências diárias – as quais ele considerava uma realidade falsa – e pela força de vontade e de sua imaginação criava um mundo no qual esperava encontrar a realidade verdadeira. Eis porque o seu mundo está subjugado a uma lógica diversa da que rege o universo das nossas experiências cotidianas; não se trata de uma lógica de sonhos, se não uma lógica – eu diria – de lucidez relaxada pelo cansaço demasiado; lucidez que temos, por exemplo, pouco antes de adormecermos; e assim ele esperava chegar até à realidade verdadeira. Em Kafka temos de distinguir duas facetas da realidade: uma falsa, tal como nos aparece na vida de cada dia e uma verdadeira pela qual é necessário ainda lutar.

Toda a arte de Kafka representa uma luta em busca da verdadeira realidade – luta que não foi acabada. E aí está porque ele mandou queimar depois da sua morte a maioria da sua obra, na qual sentia não ter conseguido o que desejava. Felizmente, sua intenção não foi realizada, falta-me tempo para tratar aqui deste assunto que está ligado com um problema muito importante da história da literatura em geral. Durante os últimos 150 a 170 anos sempre algumas camadas sociais que se encontravam no cume da sociedade, mediante as mudanças sociais e históricas, perderam a sua posição. De tais camadas surgem os artistas que possuem um sentimento de solidão e os quais, como se olhassem por debaixo das ruínas do seu mundo, vêem a sua época de uma maneira mais lúcida e em certos aspectos mais precisa do que os outros. Tal é o caso de alguns grandes fenômenos do romantismo europeu, tal é o caso por exemplo de Kleist na literatura alemã, tal é o caso de Baudelaire e de Kafka. Mas tudo aqui está esboçado de uma maneira breve, pois é um problema que ainda vai exigir uma elaboração mais detalhada.
______________
* Agradeço à Olga Ozaí da Silva por digitar o texto e apoiar este projeto.