Archive for the ‘leituras’ Category

Vitória de Sócrates

27/10/2010

I. F. STONE. O julgamento de Sócrates. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (331p.)

Sócrates, como se sabe, era um elitista empedernido que vivia às turras com os democráticos cidadãos atenienses. Acusado de desencaminhar politicamente a juventude, ao atacar o sistema de autogoverno, acabou condenado à morte em 399 a.C..

O julgamento é sempre lembrado pela contradição de uma sociedade democrática processar um crime de opinião. Em O julgamento de Sócrates, I. F. Stone enfatiza outro aspecto: o filósofo, em sua defesa, preferiu não invocar o princípio da liberdade de expressão, o que poderia conduzi-lo à absolvição.

E por que não o fez? Stone especula: “Se, neste caso, Sócrates saísse vitorioso, seria também uma vitória para os princípios democráticos que ele ridicularizava. Se Sócrates fosse absolvido, Atenas seria fortalecida”. O filósofo emerge do livro de Stone com seus vícios e virtudes. De um lado, o pensador que punha o conhecimento acima de tudo (o resto não passava de “doxa”, simples opinião). De outro, o sábio que usava a própria sabedoria para, com fins políticos, humilhar os notáveis da cidade.

Após várias reimpressões nos anos 90, O julgamento não está mais disponível nas livrarias. Escrito por um jornalista americano do primeiro time, conhecido por sua defesa das liberdades civis, o livro provoca excitação intelectual pela clareza com que sintetiza o complexo jogo de poder na Grécia Antiga. Talvez seja a melhor introdução ao assunto.

 

Fonte: http://www2.uol.com.br/entrelivros/noticias/vitoria_de_socrates.html

 

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Desonra, de J.M.Coetzee

09/05/2009

DESONRA
J.M. Coetzee
São Paulo: Companhia das Letras, 2000

TEXTO DA ORELHA

Aos 52 anos, divorciado duas vezes, o professor David Lurie é um homem solitário, conformado, erudito e irônico. Não se incomoda com o desinteresse dos alunos por suas aulas de poesia. Cogita escrever uma ópera sobre Lord Byron, mas sempre adia o projeto. Acredita ter “resolvido muito bem o problema de sexo”: nas tardes de quinta-feira, visita uma prostituta com idade para ser sua filha, paga o devido e tem direito ao oásis de uma hora e meia num cotidiano de aridez existencial.

Sua vida, racionalizada de maneira burocrática, soçobra quando a prostituta o dispensa e, mesmo sabendo que é um erro, Lurie tem um caso com uma de suas jovens alunas, acusado de abuso, e desprezando os códigos do ambiente universitário, Lurie cai em desgraça. Torna-se um réprobo e se refugia na fazenda de sua filha, a única pessoa com a qual tem um vínculo afetivo. Toma então contato com a realidade da África do Sul pós-apartheid, país onde é “um risco possuir coisas: um carro, um par de sapatos, um maço de cigarros”.

É uma realidade brutal, feita de vingança, banditismo, submissão. Brutalidade contra a qual a cultura ocidental é inútil: “Ele fala italiano, fala francês, mas italiano e francês de nada lhe valem na África negra”, diz o narrador quando três negros tentam queimar Lurie vivo.

J.M. Coetzee constrói em Desonra personagens de carne e osso e, por meio deles, tece relações entre classes, entre homens e mulheres, entre pais e filhos, negros e brancos, entre seres humanos e animais, entre uma longa história de exploração e um presente de ressentimento explosivo.

Escrito com fluidez exemplar, o romance enfrenta problemas intratáveis da atualidade de um país subdesenvolvido. situado na terra de ninguém onde se misturam civilização e barbárie – região bem conhecida do leitor brasileiro – Desonra é uma resposta artística profunda à ferocidade avassaladora da realidade.

por Mario Sergio Conti
[disponível em http://www.leiamaislivros.com.br ]

Mefisto, de Klaus Mann: a personificação do Mal

10/01/2009
por Antonio Ozaí da Silva*

Perdôo no autor todos os defeitos do homem;
mas no homem não perdôo nenhum dos defeitos do autor
Goethe,
Wilhelm Meister[1]
Mefisto: romance de uma carreira, escrito por Klaus Mann[2] (São Paulo: Estação Liberdade, 2000, 318p.), é uma daquelas obras que envolvem o leitor e instigam a reflexão. É impossível ficar indiferente diante da brilhante e comprometedora narrativa sobre a carreira do ator Hendrik Höfgen no contexto da ascensão do nazismo. Este, com apenas trinta e nove anos de idade e sob a proteção de uma das principais eminências do regime nazista, tornou-se o diretor do Teatro Nacional. Era o ápice de uma carreira, cuja ascensão foi vertiginosa. Höfgen, porém, à maneira faustiana, colocou a consciência e a alma sob o abrigo dos que tinham o poder de vida e morte sobre milhões de mortais, um poder maligno, o Mal em toda a sua banalidade.

O romance de Klaus Mann é um libelo antinazista e comprometedor no duplo sentido: do autor com a realidade política e social, que exigia a denúncia e a luta contra o nazismo; e, do leitor, na medida em que induz ao posicionamento político, ainda que tenha consciência do caráter ficcional. Mesmo este, porém, está sob discussão. Com efeito, o personagem Hendrik Höfgen tem Gustaf Gründgens[3], ex-genro do autor, como modelo.

A fronteira entre realidade e ficção é tênue. Escrito e publicado no ano de 1936, em Amsterdã, em língua alemã, só vinte anos depois que o romance foi editado em solo alemão pela à editora Aufbau, de Berlim (Oriental). Em 1963, a editora Nymphemburger anunciou a publicação de Mefisto, entre outras obras do autor. Em março de 1964, o filho adotivo de Gustaf Gründgens acionou o Tribunal Regional de Justiça de Hamburgo pleiteando a proibição do romance na República Federal da Alemanha. Peter Gorski almejava salvaguardar a honra do pai, falecido seis meses antes.

A justiça se viu sob o dilema de proteger os direitos do morto ou garantir a liberdade de expressão. Ela rejeita o pleito do herdeiro e este entra com recurso na Corte de Apelação de Hamburgo. Esta indeferiu e decidiu que a obra poderia ser publicada, até a decisão final do processo, mas com o seguinte prefácio:

“Ao Leitor:

O autor Klaus Mann emigrou voluntariamente em 1933 levado por seus ideais, e em 1936 escreveu esse romance em Amsterdã. Em virtude de suas idéias de então e de seu ódio contra a ditadura hitlerista, criou um quadro crítico da história do teatro da época em forma de romance. Ainda que não se possa negar que tenha tomado por modelo pessoas daquela época, ele configurou os personagens do romance fazendo uso apenas de sua imaginação literária. Isso vale sobretudo para o personagem principal. De qualquer modo, as ações e ideais atribuídos ao personagem no romance correspondem em grande parte à imaginação do autor. Daí ele ter acrescentado à obra a seguinte explicação: ‘Todos os personagens deste livro representam tipos, e não pessoas reais.’ O Editor.”[4]

O processo continuou e, na prática, o romance permaneceu proibido na ex-Alemanha Ocidental.[5] O caso envolve aspectos importantes sobre a relação entre a arte e a vida, a ficção e a realidade, o processo de criação e a reprodução literária, o direito dos indivíduos – vivos ou mortos – à proteção jurídica da honra pessoal versus o direito e a liberdade de expressão do autor. Esta polêmica politiza a criação literária e lhe dá um significado ainda mais profundo.

*

Seja como for, Hendrik Höfgen faz o pacto com o demônio. Bem que ele tenta apaziguar a consciência com o argumento de que sua decisão foi a mais acertada, que a sua aliança era a maneira de ajudar os perseguidos pelos ditadores. Ele tenta convencer o seu amigo comunista, Otto Ulrichs, de que esta tática é não só inteligente como necessária: “Não é uma tática cômoda, mas tenho de perseverar. Encontro-me em pleno acampamento do inimigo. Vou minar o poder por dentro…”, diz (p. 274). É o discurso surrado dos que pactuam com o poder opressivo. Às vezes até acreditam verdadeiramente no que dizem. Ingenuamente ou não – que importa?! – terminam por serem cooptados e adaptados aos costumes e idéias que diziam – ou ainda dizem – combater.

No auge da sua fama, o diretor Höfgen se dá à liberdade de manter, às próprias custas, um indivíduo considerado ‘pária’, ou seja, não-ariano, como seu secretário particular. Ele é inteligente:

“Os duzentos marcos pagos todos os meses representavam uma interferência mínima, quase imperceptível em seu orçamento e além disso traziam-lhe benefícios. Pois eram justamente eles que davam a essa boa ação um peso especial e lhe aumentavam o efeito. O jovem Johannes Lehmann ocupava uma posição importante no ativo do balanço daquelas “salvaguardas” que Höfgen podia se permitir sem grandes riscos. Precisava delas; sem elas dificilmente suportaria aquela situação; sua felicidade seria destruída por uma consciência pesada, que de modo estranho não queria se calar nunca, e pelo medo do futuro que às vezes perseguia o grande homem até nos sonhos” (p.259).

A consciência culpada necessita de acalento. É difícil definir até que ponto atitudes que incorrem em riscos, em determinados contextos, são realmente sinceras ou mero estratagema para conciliar-se com os outros e consigo. Será que o que fazemos pelos outros é verdadeiro altruísmo ou apenas mascara interesses inconfessáveis à nossa própria consciência? E se as nossas belas e boas ações nada mais forem do que um artifício para apaziguar a culpa que sentimos em nosso âmago?

Hendrik Höfgen sabe usar as influências que conquistou sem comprometer-se. Ele resguarda-se. É um homem de sorte: “Incidira sobre ele o vislumbre daquele brilho intenso que envolve o poder” (p.209). Poder, porém, que se sustenta sobre cadáveres. O ator Höfgen partilha desse poder; também caminha sobre os mortos e a escada que o eleva ao cume é construída pela carne, ossos e sangue dos que tombaram nas garras do Mal absoluto transubstanciado em forma humana.

O ator Höfgen joga com as aparências no imenso palco da vida. Sua atuação é cativante e poucos são os que conseguem ver atrás da sua máscara do personagem que encarna, Mefisto, o verdadeiro Hendrik Höfgen. Os espasmos da consciência culpada não o impedem de admirar a força do Mal e de se identificar com este.

“Como o Mal é forte!”, pensou o ator Höfgen num arrepio de respeito. “Que coisa ele pode se dar ao luxo de fazer e permanecer impune! Neste mundo, tudo acontece realmente como nos filmes e nas peças cujo herói muitas vezes pude interpretar.” Aquilo, no momento, era o que ele de mais ousado se atrevia a pensar. Mas prevendo algo, e sem querer admiti-lo ainda, percebeu pela primeira vez uma conexão misteriosa entre seu próprio ser e aquela esfera extraordinária, pervertida, na qual trapaças vulgares e calhordas como aquele incêndio eram idealizadas e exceutadas” (p. 185).

Klaus Mann se refere ao incêndio do Reichstag, o Parlamento alemão, perpetrado por criminosos e provocadores nazistas para incriminar os judeus e a oposição. Höfgen, nesse momento, estava em Paris, e, diante da ascensão do nazismo, com medo de retornar à Alemanha. Afinal, ele andara em companhia dos bolcheviques e assumira idéias execradas pelo novo regime político. Mesmo à distância, porém, percebeu as conexões que envolviam a idealização e execução desse crime provocador. Essa percepção não o impediu de, na primeira oportunidade que teve, se reconciliar com o inimigo e voltar ao país natal.

O momento crucial da consagração do pacto com o Mal ocorre, após o seu retorno, com a encenação da peça Fausto, de Goethe, cuja interpretação coroou a sua fama e ascensão de autor. Mefisto foi seu grande papel, ator e personagem se confundiam. Agora, na platéia está o todo-poderoso primeiro-ministro. Este faz questão de cumprimentá-lo e sela a sua fama e a certeza de que conquistara a confiança do poder.

“O primeiro-ministro levantou-se: ficou de pé em toda a sua grandeza e opulência faiscante e estendeu a mão ao autor. Estava cumprimentando-o pelo seu belo desempenho? Era como se o potentado estivesse fazendo uma aliança com o comediante.

Todos na platéia arregalaram os olhos boquiabertos. Acompanharam os gestos das três pessoas lá em cima no camarote como se fosse um espetáculo extraordinário, uma pantomima mágica intitulada “O ator seduz o poder”. Nunca Hendrik fora alvo de tanta inveja. Como devia estar feliz!” (p.207).

Sim, ele seduzira o poder e, numa simbiose macabra, fora seduzido por este. O ator provinciano se elevara ao Olimpo. Não importa o custo, nem que tenha sacrificado os verdadeiros amigos e a si mesmo no altar de tais divindades; não importa que a sua estrada tenha sido pavimentada por cadáveres. Nada importa! Tudo o que importa é compartilhar do poder encarnado pelo primeiro-ministro. Ele, contudo, tem consciência do significado do seu ato. Ele já não se pertence:

“Eram apenas a felicidade e o orgulho que o faziam tremer? Ou sentia também alguma outra coisa – para a sua própria surpresa? E o que seria essa outra coisa? Seria medo? Era algo parecido com asco… “Agora estou realmente sujo”, pensou Hendrik consternado. “Agora tenho uma mancha na mão que jamais conseguirei tirar… Agora me vendi… Agora estou marcado!” (p.207-208).

Estava certo! Mas vencera e tornara-se o diretor do Teatro Nacional. Não tardou e foi recebido pelo “Messias de todos os germanos” (p.279), o Führer. Todavia, o poder e a opulência não eram suficientes para fazê-lo esquecer os fantasmas que o atormentavam. Não há como fugir de si mesmo!

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* Docente na Universidade Estadual de Maringá e autor de “Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária” (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).
[1] Epígrafe de Mefisto: romance de uma carreira.
[2] Klaus Mann (1906-1949), filho mais velho de Thomas Mann, diante da situação política alemã, emigrou, em 1933 para Amsterdã (Holanda), onde editou a revista política-literária Die Sammlung (A coletânea) e participou da Frente Popular em oposição a Hitler. Posteriormente, exilou-se nos Estados Unidos.
[3] Gustaf Gründgens foi ator e diretor do Teatro Nacional na Prússia, uma personalidade famosa em sua época.
[4] Anexo: Sobre a publicação desta edição, de Berthold Spangenberg, p.306.
[5] Ver o anexo citado, p. 303-318.

Um roteiro literário sobre a história e política dos Estados Unidos da América

03/05/2008
ALLEN, Walter. O sonho americano e o homem moderno. Rio de Janeiro: Lidador, 1972 (230p.)

Descobri esse livro por acaso nas prateleiras da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Maringá. Trata-se se uma obra que, a partir da literatura, lança luz sobre a idéia do sonho americano, isto é, o simbolismo e a maneira como esta o expressa. O autor oferece um painel importante sobre a literatura estadunidense no século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Elaborei um roteiro que apresenta os autores (em ordem alfabética), obras relacionadas e comentários de Walter Allen.

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Allen TATEThe Fathers (Os Patriarcas)

Sobre a Virginia. Vários líderes, considerados os “pais fundadores”, são deste Estado. Washington, Jefferson, Madison e Monroe (primeiro, terceiro, quarto e quinto presidentes dos Estados Unidos) eram da Virgínia.

Este romance expressa a “mais comovente glorificação da civilização sulista” (85).

Allison LURIEThe Nowhere City (A Cidade Imaginária)

Sobre o conflito entre o estilo de vida da tradição acadêmica da Nova Inglaterra e o estilo “mais livre” californiano, mais especificamente Los Angeles. Também expressa o “movimento para a fronteira”.

Bret HARTEThe Outcast of Poker Flat

Sobre a prática do linchamento onde a justiça e a lei não tinha alcance.

Caroline GORDONNone Shall Look Back (Ninguém olhará para trás)

Sobre a Virginia e os virginianos…

Edgar Allan POEOs Assassinatos da Rua Morgue e A Carta Roubada

Ambos contextualizados em Paris, onde o autor jamais esteve.

Edgar Allan POE “freqüentemente parece o pornográfico da morte” (157). POE teve uma vida tumultuada, órfão por duas vezes. Ele era sulista e se identificava com os valores aristocráticos, anti-burguês e escravagistas. “Como homem da Virginia, Poe também estava livre da tirania da consciência puritana” (159). Ele foi pioneiro em estórias policiais e de detetives.

Ernest HEMINGWAYThe Old Man and the Sea ( O velho e o mar)

Livro baseado na sociedade cubana. O mais famoso escritor do Centro-Oeste foi um homem deslocado.

F. Soctt FITZGERALDThe Great Gatsby (1925)

Início da década de 1920, era da proibição. O personagem principal, dividido entre o poder e o sonho, representa a própria América. O autor sugere que a nação norte-americana surgiu de uma concepção platônica de si mesma. Gatsby expressa o self made man, o homem que se fez sozinho – um dos fundamentos da ideologia americana.

“Em The Great Gatsby Scott Fitzgerald mostra-nos o sonho americano em seu aspecto trágico, em outras palavras, como um sonho incapaz de se realizar exatamente por ser um sonho. Mas torna-se evidente nos últimos parágrafos do romance que Fitzgerald equaciona Gatsby ao homem americano, e o considera como figura simbólica da experiência norte-americana” (8). “The Great Gatsby é uma clebração poética do sonho norte-americano e um comentário, talvez pessimista, sobre ele” (9).

Fanny KEMBLEJournal of a Residence on a Gerogian Plantation in 1838-39 (Diário de Residência numa “plantation” da Geórgia de 1838-39)

A autora, inglesa, casada com um rico cidadão da Filadélfia, escreve sobre o período no qual viveu na Geórgia, e relata o cotidiano de uma fazenda escravocrata.

Fenimore COOPEROs Pioneiros (1823), O Último dos Moicanos (1826), A Planície (1827), O Guia (1840), O Caçador (1841).

Os romances expressam o sonho de viver em liberdade, sem as amarras da civilização – representado pelo movimento para o Oeste. O autor foi o primeiro a escrever sobre este tema.

O Último dos Moicanos é contextualizado no ano de 1757, época das guerras de fronteira entre franceses e ingleses, na qual os índios se envolvem lutando ora de um lado, ora de outro.

A obra de COOPER apresenta o Oeste como uma espécie de paraíso, destruído pelos que chegaram depois para explorá-lo.

George SANTAYANAThe Last Puritan

Expressa a ideologia mestra do norte-americano, o ideal do “povo escolhido” e pretensamente superior aos demais.

Graham GREENEO Americano tranqüilo

Crítica a visão ingênua e simplória que o americano tem de si mesmo, a qual fundamenta-se numa pretensa superioridade moral e conformista, característica herdada do puritanismo.

Harold FREDERICThe Damnation of Theron Ware (A Perdição de Theron Ware, 1896)

Sobre a fuga para o Oeste, enquanto expressão da possibilidade de ascensão social. O centro-oeste e o Oeste cumpriram o mesmo papel que a Nova Inglaterra teve para os imigrantes europeus. O autor cita o personagem de Charles Dickens (Micawber ), que fora à bancarrota em Londres e fez fortuna na “colônia”. Esta era “um lugar em que os fracassados e desajustados podiam convenientemente desaparecer” (66).

Harriet Beecher STOWEA Cabana do Pai Tomás (1855)

Este romance “mostra frontalmente ao Norte seu envolvimento financeiro com a instituição da escravatura” (81). Segundo Walter Allen, este é o melhor livro sobre “todos os aspectos das condições possíveis em que viviam os escravos”; “é também provavelmente a melhor antologia das justificativas sulistas” da escravidão (83).

Henry ADAMSDemocracy (1880)

“A atitude do cavalheiro norte-americano, poder-se-ia mesmo dizer, do aristocrata norte-americano, para com o governo, é demonstrada claramente” neste romance. Uma visão crítica sobre o governo da União no pós-guerra civil.

Henry JAMESThe Portrait of a Lady, The Wings of the Dove e Os Europeus

A exemplo de W. Cather, H. Roth e J. T. Farrell, os livros deste autor “servem para demonstrar, entre outras coisas, a complexidade do relacionamento norte-americano com a Europa” (101). Nos romances de JAMES, os americanos tendem a representar a inocência corrompida pelos costumes europeus. The Portrait of a Lady e The Wings of the Dove exemplifica “a inocência esperançosa e idealista” contrastada com o “cinismo corrupto e luxurioso” identificados com a Europa. (Id.) Isto também se aplica à obra Os Europeus.

Henry ROTHCall it Sleep (1934)

“O cenário são as favelas de Nova Iorque, os personagens são judeus russos que vieram, em grande número, nos anos imediatamente anteriores à Primeira Grande Guerra” (99). Ver, também, a obra de Willa CATHER e James T. FARRELL. Nas obras destes autores, incluindo ROTH, os imigrantes “estão impedidos pela raça, pela religião, pela língua ou pela tradição nacional, de participar da vida norte-americana exceto em seus níveis mais baixos. Eram “europeus desprovidos” no sentido mais completo do termo” (103).

Henry THOREAUDesobediência Civil e Walden, or Life in The Woods

O autor trabalhou como jardineiro de Ralph Waldo Emerson, de quem foi amigo. Defensor da idéia da resistência passiva influenciou Tolstoi e Gandhi. Defende o reencontro do homem com a natureza, a vida real. “Parecia a Thoreau que a esmagadora maioria dos homens vivia o que não era vida; viviam “de maneira aviltante, como formigas’. “A nossa vida”, diz ele “dissipa-se em detalhes”, em simulações e desilusões; em trabalho e “quanto ao trabalho não temos nenhum de real importância…” (142).

J. D. SALINGERO Apanhador no Campo de Centeio (1951)

Na trilha de Vinhas da Ira, romance de J. Steinbeck, “O Apanhador no Campo de Centeio descreve uma fuga muito mais sem esperança, a fuga daquilo que aparece ao menino herói, as evasões e hipocrisias tacanhas, ausência de generosidade da vida adulta norte-americana” (58). Para Allen: “Esses dois romances, embora de maneira diferente, são igualmente críticas ao sonho norte-americano, porque demonstram sua inadequação em face das realidades brutais da vida norte-americana” (59).

James HOGGConfessions of a Justified Sinner

Contexto: Escócia no fim do século XVIII. Relato clássico da atitude arrogante fundada na crença puritana. O livro trata do triunfo absoluto do puritanismo, a exemplo dos Estados Unidos.

James T. FARRELLStuds Loningan (1932-35) e The Face of Time (1954)

O tema é a imigração [a exemplo de Willa CARTHER e Henry ROTH]. “Studs Loningan deve ser um dos romances mais deprimentes jamais escritos. É uma crítica, friamente selvagem, da qualidade da vida norte-americana de cidade grande” – o título se refere a um menino irlandês (100). The Face of Time “descreve a vida da família O’Flaherty na zona operária de Chicago durante os primeiros anos do século [XX]” (101).

John dos PASSOSThe 42and Parallel (1930), 1919 (1932) e The Big Money (1936)

Livros que compõe a trilogia U.S.A.; uma tentativa de revelar a totalidade da América. O autor utiliza recursos como utilizar manchetes de jornais, trechos de reportagens e de canções populares (“Newsreel”); inserir capítulos biográficos de importantes figuras da sociedade norte-americana. É uma obra crítica, de inspiração socialista. Segundo Allen, “sua crítica da vida norte-americana atinge o clímax quando encontramos o jovem “carona”, desempregado, anônimo, que resume em si milhares de desempregados anônimos, de pé à margem de uma estrada qualquer do Centro-Oeste tentando conseguir uma carona, enquanto sobre ele voam os aviões, com sua carga de homens de negócios, entre Nova Yorque e Los Angeles” (207).

John STEINBECKIn Dubious Battle (1936), Vinhas da Ira (1938) e Of Mice and Men

In Dubious Battle descreve a tentativa dos comunistas em organizar os colhedores de frutas, na Califórnia.

Vinhas da Ira simboliza o sonho da fronteira, mas numa perspectiva crítica diferenciada de TWAIN e COOPER. Este romance expõe a indignação do autor diante da miséria social causada pela grande depressão. Trata de uma família que, arrasada pela erosão do solo e pelas dívidas com banqueiros, procura a “terra prometida” – a Califórnia. Mas esta já tinha donos e estava ocupada… É o romance de protesto norte-americano mais bem sucedido. A exemplo de John dos PASSOS e James T. FARRELL, STEINBECK assume a “causa dos socialmente desfavorecidos contra o poder do capitalismo financeiro” (211).

Mark TWAINAs Aventuras de Huckleberry Finn, Idade Dourada (1873) e As Aventuras de Tom Sawyer (1876)

Um dos livros que retrata o fenômeno da fronteira, isto é, o movimento para o Oeste. Este movimento “permanece como a grande imagem do senso norte-americano de possibilidade”, “um dos mais importantes componentes do sonho norte-americano” (57).

As Aventuras de Huckleberry Finn é considerado um clássico da juventude e foi escrito na seqüência de As Aventuras de Tom Sawyer.

“Dramatiza o sonho de liberdade de cada um, ou melhor, o sonho de liberdade roubada na juventude, de cada homem. Era o sonho de liberdade do próprio Twain” (170).

MELVILLE – Moby Dick

A temática é a luta do bem contra o mal e, a exemplo de HAWTHORNE, tem a influência da herança calvinista.

Michael STRAIGHTCarrington

ALLEN alerta para a literatura, como a de Willa Carther e Fenimore Cooper, que expressa uma visão paradisíaca da conquista do Oeste. É um tipo de literatura que “omite os aspectos negativos do desbravamento do Oeste e da construção das ferrovias. A completa destruição dos rebanhos de búfalos e a guerra contra os índios”. Carrington representa “uma descrição mais precisa da conquista do Oeste após a Guerra Civil” (200).

Nathaniel HAWTHORNEThe House of the Seven Gables (A Casa das Sete Torres) e The Scarlet Letter (A Letra Escarlate, 1850)

Baseia-se na lenda da maldição lançada contra a sua família – seu bisavô foi um dos juizes no julgamento das feiticeiras de Salem, em 1692 [Ver o filme As Bruxas de Salem]. Em A Letra Escarlate, a temática é o pecado dentro da concepção puritana.

“O drama moral e psicológico que ele recria e investiga não poderia ser produto de nenhum outro lugar no mundo a não ser a costa marítima da Nova Inglaterra do século XVII, porque em nenhum outro lugar o Puritanismo existiu com tamanha pureza e em tamanho isolamento. A pureza era resultado do isolamento” (125).

Ralph Waldo EMERSONThe American Scholar (O Intelectual Americano)

Ensaio que traduz o tema da auto-suficiência para um plano nacional. “Um ataque ao pedantismo e ao tradicionalismo na literatura e na escolástica, o ensaio reforça a necessidade de uma literatura democrática moderna…” (140).

Sinclair LEWISMain Street (Rua Principal) e Babbitt

Crítica do modo de vida norte-americano. O autor foi o primeiro norte-americano a ganhar o Premio Nobel de Literatura, em 1930.

Main Street é uma sátira do estilo de vida numa pequena cidade imaginária, que expressa a realidade de muitas cidades americanas. O autor “tenta destruir, pelo ridículo, a mesquinhez e o provincianismo da vida nas pequenas cidades do interior” (196).

Babbitt tem como tema os pequenos homens de negócios nos Estados Unidos, a classe média. O título do livro surge da fusão de rabit (coelho) e baby (bebê), isto é, “um ser facilmente assustável e ainda não totalmente formado”. O romance descreve “as tímidas revoltas de Babbitt contra a pressa da rotina e do conformismo” (197).

[Na mesma linha temática de Babbitt: Dickens, Our Mutual Friend e H. G. Wells, Mr. Polly]

Thackeray The Virginians (Os Virginianos)

Sobre o estilo de vida na Virginia, espacialmente no período anterior à guerra civil.

Theodore DREISERThe Financier (O Financista), The Titan (O Titã) e A American Tragedy

Retratam “a maneira selvagem e amoral de aquisição na Idade Dourada”, da mesma forma que Democracy (91). A “idade dourada” corresponde à fase pós- guerra civil: expansão da indústria, individualismo sem escrúpulos, caça aos espólios e cargos…

Thomas WOLFELook Homeward, Angel, Of Time and the River, The Web and the Rock e You Can’t Go Home Again

Todos os livros baseiam-se na vida do autor, nascido em 1900, na Carolina do Norte (sul dos EUA). Expressa a tentativa de revelar o modo de vida norte-americano.

Walter Van TILBURGThe Incident Ox-Bow

Sobre Nevada na década de 1880 e a prática de linchamento. Esta era uma prática comum executada por grupos particulares. O termo deriva do nome Charles Lynch, grande proprietário da Virgínia, que suprimiu uma conspiração fazendo justiça com as próprias mãos.

Willa CATHERMy Antonia (1918) e Death Comes to the Archbishop (1927)

Expõe o sentido de perda do imigrante, de caráter muito mais cultural que política ou econômica. Relata a história de uma família imigrante checa. “Essa perda cultura, que podia resultar na diminuição consciente do imigrante ou na sua mutilação como homem, também está brilhantemente dramatizada no romance Call it Sleep de Henry Roth, publicado em 1934” (99). Segundo ALLEN, a autora “estava presa a uma idealização do passado da América e uma reação contra o seu presente” (200). Este último romance exemplifica-o.

William FAULKNERAbsalom! Absalom!

Um dos melhores relatos para a compreensão dos efeitos da escravatura sobre o Sul. Trata-se da “história essencial do Sul a partir da introdução do Negro. O cenário é o Mississipi, que só entrou para a União em 1817 e é, portanto, um dos mais novos estados sulistas” (88).

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Um diálogo sobre Caim e Abel, rejeição e culpa

24/11/2007

Em sua obra, A Leste do Éden, John Steinbeck, cita o trecho bíblico que se refere ao assassinato de Abel e faz com que as personagens dialoguem sobre o significado deste relato, extremamente marcante para a humanidade. Vale a pena acompanhar os argumento e, é claro, ler o livro na integra.

Eis o diálogo:

“Adam disse:

− Eu me lembro que fiquei um pouco indignado com Deus. Tanto Caim como Abel lhe deram o que tinham, mas Deus aceitou Abel e rejeitou Caim. Nunca imaginei que fosse uma coisa justa. E jamais compreendi. Vocês podem compreender?

− Talvez pensemos com base em experiências diferentes – disse Lee. – Lembro de que essa história foi escrita por e para um povo de pastores. Não eram lavradores. O deus dos pastores não acharia um cordeiro gordo mais valioso que um feixe de cevada? Um sacrifício deve ser feito com o melhor e o mais valioso.

− Tem razão, o argumento é procedente – disse Samuel. – Mas devo adverti-lo, Lee, a não expor seu raciocínio oriental à atenção de Liza.

Adam estava bastante excitado:

− Mas por que Deus condenou Caim? É uma injustiça.

− Há uma vantagem em se prestar atenção às palavras – comentou Samuel. – Deus não condenou Caim, absolutamente. Até Deus pode ter uma preferência, não é mesmo? Vamos supor que Deus gostasse mais de ovelha do que de vegetais. Acho que isso acontece comigo. Caim talvez tenha levado uma porção de cenouras. E Deus falou: “Não gosto disso. Tente de novo. Traga-me alguma coisa de eu goste e eu o porei junto a seu irmão”. Mas Caim ficou furioso, estava com os brios feridos. E quando os brios de um homem estão feridos, ele quer descarregar em alguma coisa. Acontece que Abel estava no caminho de sua ira.

− São Paulo disse aos hebreus que Abel tinha fé – disse Lee.

− Não há qualquer referência a isso no Gênesis – comentou Samuel. – Nenhuma ou pouca fé. Há apenas uma insinuação sobre a índole de Caim.

− O que a Ara. Hamilton pensa dos paradoxos da Bíblia? – indagou Lee.

− Ela não pensa nada, porque não admite que existam…

− Mas…

− Pergunte diretamente a ela. Tenho certeza de que sairá da conversa mais velho, mas não menos confuso.

Adam interveio:

− Vocês dois estudaram o assunto, mas eu me limitei a absorvê-lo e não ficou muita coisa. Caim foi depois expulso por assassinato?

− Isso mesmo, por assassinato.

− E Deus marcou-o?

− Não prestou atenção? Caim ostentava a marca não para destruí-lo, mas para salvá-lo. E havia uma maldição reservada a qualquer homem que o matasse. Era uma marca de preservação.

− Não consigo superar a impressão de que Caim levou a pior nessa história – murmurou Adam.

− É possível – disse Samuel. – Mas Caim viveu e teve filhos, enquanto Abel vive apenas na história. Nós somos os filhos de Caim. E não é estranho que três homens adultos, neste século, tantos milhares de anos depois estejam discutindo esse crime, como se tivesse ocorrido ontem em King City e ainda não tivesse sido levado a julgamento” (pp. 282-283).

Carregamos a culpa por algo que não fizemos. Mas todo o mistério talvez esteja na rejeição e no que esta desencadeia. Eis o argumento de Lee:

“ – Creio que se trata da história mais conhecida do mundo porque é a história de todos. Acho que é a história que simboliza a alma humana. Estou agora procurando meu caminho… não me pressionem se não for muito claro. O maior terror que uma criança pode ter é a possibilidade de não ser amada. A rejeição é o inferno que teme. Acho que todas as pessoas do mundo, em grau maior ou menos, já experimentaram a rejeição. E com a rejeição vem a ira, com a ira vem alguma espécie de crime em vingança, com o crime vem a culpa… e aí está a história da humanidade. Acho que se a rejeição pudesse ser eliminada, a humanidade não seria o que é. Poderia haver menos loucos. Tenho certeza de que não haveria tantas cadeias. Está tudo aí, o ponto de partida, o começo. Se uma criança vê recusado o amor por que anseia, chuta o gato e oculta a sua culpa secreta. Outra rouba para que o dinheiro a torne amada. Uma terceira conquista o mundo. E sempre se encontra a culpa, vingança e mãos culpa. O ser humano é o único animal culpado” (p. 284).

No segundo volume, o autor retoma a discussão sobre Abel e Caim. Ele insere, através do personagem Lee, a questão da tradução bíblica – o que pode interferir sobre a compreensão do significado do mito. Lee afirma que leu uma versão diferente, a do Rei James. Nesta, Jeová fala a Caim, quando este está furioso:

“Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta, teu desejo será contra ti, mas haverás de dominá-lo” (p. 14).

Lee chama a atenção para o “haverás”. Para ele, “era uma promessa de que Caim dominaria o pecado” (id.). Ele defende a tese que, na verdade, Jeová deixa em aberto, isto é, Caim tem a opção de trilhar um caminho ou outro. Diz Lee:

“A tradução do Rei James faz uma promessa em “Haverás”, indicando que os homens inevitavelmente triunfarão sobre o pecado. Mas a palavra hebraica é “Poderás”, o que representa uma opção. Pode ser a palavra mais importante do mundo. Mostra que o caminho está aberto. e se volta contra o homem. Pois se “Poderás”, também é verdade que “Não Poderás” (p. 16).

Isto parece uma discussão sem sentido, bizantina. Mas não é, pois se os homens e mulheres estão dispostos a tomar as palavras ao pé da letra, a interpretá-las e, em qualquer caso, morrer por elas, é melhor tentar esclarecê-las. Como nota Lee:

“Qualquer escrito que influenciou o pensamento e a vida de incontáveis pessoas é importante. Há milhões de pessoas em seitas e igreja que aceitam como ordem: “Cumpre a ti”. Com isso, recaem na obediência. Há outros milhões que sentem a predestinação em “Haverás”. Nada do que façam poderá interferir com o que serão. Mas “Poderás”! Ora, isso faz com que um homem seja grande, proporciona semelhança com os deuses, pois em sua fraqueza, corrupção e assassinato do irmão ele ainda tem a possibilidade da grande opção. Ele pode escolher seu curso, lutar até o fim e triunfar” (p. 16).

E você, caro leitor, o que pensa sobre este tema? Como avalia este diálogo? A conclusão é sua…

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Referência:

STEINBECK, J. A Leste do Éden. São Paulo: Abril Cultural, 1984 (Volumes I e II)