Archive for the ‘poetas e poesias’ Category

Meta Amor Fases: coletânea de poemas – por Mauro Luis Iasi

30/05/2009

CRISTÃO MOLOTOV

Certa vez, vi na foto
o guerrilheiro sandinista
pronto para lançar
seu coquetel molov.

Em seu peito balançava um crucifixo
em sua mão a garrafa de pepsi-cola flamejava

Percebi, então,
como as formas mais reacionárias
podem guardar os conteúdos
mais explosivos

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TRANSCENDÊNCIAS
para os camaradas e irmãos da PO metropolitana de São Paulo

Na massa universal
da matéria de nossos corpos
seja luz etérea de estrelas,
carne mineral de planetas,
ou fogo, ou água
ou planta, ou bicho

não vejo alma daquela
que no movimento
se apresenta a vida.

Aprendi que a religião
é o sol em torno do qual
gira o ser humano
antes de ver em si mesmo
o sol da sua existência.

Ordem do tempo
inimiga do novo
dona da culpa
ópio do povo

organização racional da tristeza
carrasco do meu desejo
árbitro dos castigos aplicados por nós
contra nós mesmos.

Assim, feuerbachianamente,
me tornei ateu.

Mas, quando os vejo…
com seu amor aos pobres,
com seu compromisso com a vida
na teia indissolúvel da solidariedade…

Quando os vejo
subindo as “sierras” de nossa América
com seus terços e fuzis
com sua fé e bravura…

Quando os vejo
nas madrugadas fabris
nas estradas acampados
repartindo o pouco pão…

Quando os vejo
reinventando a comunhão
renascendo a cada dia
fazendo da morte ressurreição…

Quando nos abraçamos
sobre nossa bandeira vermelha
chorando lágrimas de raiva,
alegria ou emoção…

Da inexistência de minha alma
chego a desejar
que esta vida se supere em outra
para abraçar mais uma vez
os nossos mortos.

E no calor vivo de nossas batalhas
onde construímos a cada dia
a aurora contra a noite que persiste
consigo ver, nitidamente,
entre a sombra e o escuro
o rosto sereno de um deus
que não existe.

__________
In: IASI, Mauro Luis. Meta Amor Fases: coletânea de poemas. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 50-53.

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Razão de ser – por Paulo Leminski

21/06/2008

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski
In: Melhores poemas
4. ed. São Paulo: Global, 1999. p. 7
(Os melhores poemas, v. 3).

Carlos Drummond de Andrade

18/08/2007

Eu Etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente..

Bertolt Brecht

29/05/2007

Dificuldade de governar

1.
Os ministros não cansam de dizer ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O grão de trigo cresceria para baixo, não para cima.
Nenhum pedaço de carvão sairia das minas
Se o Chanceler não fosse tão sábio. Sem o Ministro
da Propaganda
Nenhuma mulher ficaria grávida. Sem o Ministro da
Guerra
Jamais haveria guerra. Sim, se o sol se levantariade manhã
Sem a permissão do Führer
É inteiramente discutível, e se o fizesse
Seria no lugar errado.

2.
Igualmente difícil é, eles nos dizem
Dirigir uma fábrica. Sem o proprietário
As paredes desmoronariam e as máquinas enferrujariam, dizem.
Mesmo que em algum lugar se fabricasse um arado
Ele nunca chegaria a um campo
Sem as palavras sabidas que o empresário escreve
aos camponeses: senão
Quem poderia informá-los que existe arados? E o que
Seria de uma fazenda sem o fazendeiro? Certamente
Semeariam centeio onde já se encontram batatas.

3.
Se governar fosse fácil
Não seriam necessários espíritos iluminados como o
Führer
Se o trabalhador soubesse como utilizar sua máquina
E o agricultor soubesse distinguir um campo de uma
tábua de fazer macarrão
Não seriam necessários industriais e fazendeiros.
Somente porque são tão estúpidos
Precisa-se de alguns tão espertos.

4.
Ou é possível que
Governar seja tão difícil
Apenas porque a fraude e a exploração
Exigem algum aprendizado?

Fonte:
Bertolt Brecht. Poemas (1913-1956).
Tradução: Paulo Cesar Souza
São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987