Archive for the ‘Resenha’ Category

Cristo era um revolucionário? – por EDUARDO SOCHA

13/06/2010

Para Terry Eagleton, hoje considerado o crítico literário mais influente da Inglaterra, a resposta é sim e não

Cristo, um líder político? Eagleton analisa os quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) e, seguindo as omissões, contradições, escolhas e tendências de suas estruturas narrativas, procura dar conta de uma questão controversa que historicamente excede o campo da teologia.

Na apresentação ao livro, o crítico mostra que a pergunta retórica – “Jesus era apenas um líder espiritual e não um líder político?” – já incorpora um anacronismo pelo qual as interpretações mais costumeiras passam batidas. Afinal, perguntas dessa natureza só se tornam possíveis quando se “projeta para o passado uma distinção moderna entre religião e política que certamente não está nas Escrituras”. Nesse sentido, independente da voltagem espiritual das pregações de Cristo, é no mínimo sensato supor que a severa punição da crucificação não se deu por exclusivas razões de fé. Os romanos não se interessavam por diatribes ideológicas ou religiosas de suas colônias, mas destinavam a crucificação àqueles que representavam uma concreta ameaça à ordem pública.

O texto incisivo e elegante de Eagleton, cuja envergadura teórica rechaça qualquer acusação de diletantismo, não se exime de passagens corrosivas que, em outras épocas, facilitariam enormemente o trabalho dos inquisidores e censores do Index. Quando se fala, por exemplo, da proximidade de Jesus (depois desmentida) e principalmente de Judas com a seita dos zelotes (movimento clandestino anti-imperialista dedicado a expulsar os romanos da Palestina, que Eagleton compara ironicamente à Al-Qaeda), o autor chega a cogitar não sem um certo cinismo: “Talvez Judas tenha vendido Jesus porque esperava que ele fosse um Lênin e ficou amargamente desencantado quando compreendeu que não ia liderar o povo contra o poder colonial romano”.

Eagleton detecta o ímpeto materialista das atitudes cristãs (“O Reino dos Céus revela-se uma questão surpreendentemente materialista”), testemunhadas aliás na própria letra dos Evangelhos. E conclui que Jesus, ao contestar as autoridades judaicas e ao defender um horizonte de justiça e fraternidade até então inexistente (embora não ambicionasse com isso uma transformação radical do poder – “a César o que é de César”), foi a um só tempo mais e menos revolucionário que Lênin e Trotski. Pode-se não concordar com muito do que é dito. Mas o estilo afiado de Eagleton consegue localizar uma dimensão curiosamente incendiária e não tão popular do Cristo dos Evangelhos, confirmando, no final das contas, que uma outra exegese é possível.

Jesus Cristo – Os Evangelhos
Apres.: Terry Eagleton
Trad.: José Maurício Gradel
Jorge Zahar
240 págs.


* Fonte: Revista Cult, 30 de março de 2010, disponível em http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/lancamentos-ciencias-humanas-2/

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Os Corações Futuristas

11/10/2008

por Fernando Soares Campos

Optar pela leitura de determinado livro é praticamente o mesmo que convidar alguém a quem apreciamos para junto a nós refletir, rir, chorar, indignar-se, divergir ou pactuar idéias. Com uma vantagem: o autor nunca pode recusar o convite. Em Os Corações Futuristas, romance de Urariano Mota, o autor se torna esse agradável parceiro. A obra oferece ao leitor a oportunidade de assistir ao espetáculo da alma. Paixões, sexualidade, culpas, frustrações e esperanças se entrelaçam num audacioso sonho de liberdade. Tudo isso conflitando com a opressora realidade experimentada por Carlos, João e Samuel, personagens que, navegando entre as suas convicções e incertezas, centralizam-se na história que tem como cenário o Recife de Capiba, o Pernambuco de Miguel Arraes e o Brasil de Paulo Freire, sob o regime de uma ditadura nada romântica.

José Carlos Malta Marques, meu amigo de infância e juventude (eu ainda na infância, ele já na juventude) costuma dizer que “amizade impõe parcialidade”. Certamente tal sentença faz sentido, mas nem por isso a gente deve privar-se de reconhecer publicamente os méritos dos amigos. Urariano Mota também é meu amigo, desde os idos de 1988, quando ele, Rui Sarinho e Tarciana Portela faziam o programa Violência Zero, numa emissora de rádio do Recife. Além do jornalismo radiofônico, Urariano trabalhava numa atividade “âncora”, aquela que dava o verdadeiro suporte à sua subsistência: era funcionário do Banco do Brasil. Vez ou outra eu passava lá na agência onde ele trabalhava, no bairro da Encruzilhada, e trocávamos um dedo de prosa. Num desses rápidos bate-papos, lembro-me que, observando meu amigo manuseando e contabilizando boletas bancárias, com habilidade digital no teclado de uma calculadora, falei: “Trabalhar com uma papelada dessas deve ser muito chato”. Ele nada respondeu, me serviu um cafezinho e falamos alguma coisa mais sobre o seu programa no rádio. Na verdade, quando afirmei aquilo, pretendi provocar a sua reação, de maneira que ele revelasse como lidava com a rotina do seu trabalho. Gostaria de saber como um espírito inquieto, acostumado a meditar sobre os departamentos da alma humana, alguém que estava sempre em busca de respostas sobre a natureza do comportamento humano, sentia-se em meio aos trâmites de um trabalho burocrático. Naquele momento, Urariano limitou-se a ouvir a minha observação sem explicitar qualquer opinião sobre o meu questionamento. Porém, hoje, quase duas décadas depois, Urariano Mota me respondeu através do seu romance Os Corações Futuristas, narrando as inquietações de um dos jovens personagens:

Carlos não percebia ainda, como uma lei geral, que no trabalho não se vende só o esforço físico. Ele não percebia que assim como existem na terra as categorias de metalúrgicos, industriais, comerciários, bancários, banqueiros, no inferno ou no céu também existem as categorias de almas de banqueiros, metalúrgicos, comerciários e industriais. Ele julgava, como uma lei geral, que no domínio de um ofício era possível manter a cabeça livre do espírito da gente do ofício. Seria como se nos dedos que batiam aquelas asneiras protocolares, no corpo que se assentava nove horas batendo aquilo, nos ouvidos que digeriam os sons da oficina e o malho da voz do chefe, seria como se em meio a tudo a alma e o gosto não sofressem impressão, pois estariam resguardados de fé e concreto, bem ocultos. Esta crença, diga-se de passagem, cairia melhor em João, que acreditava na lenda de Spinoza polindo lentes, enquanto pensava em latim Sobre o Melhoramento do Intelecto (pág. 89/90).

“O que é isso companheiro, nós fomos, ou somos, tudo isso?!”

Esta é a pergunta que bem poderia ser feita pelos protagonistas ao autor da trama de Os Corações Futuristas, mas também pode ser formulada por qualquer um de nós, ao nos revelarmos construtores da História. Na escola tradicional, a História Oficial parece ter o objetivo de nos transformar em militantes da passividade. É lá que, desde cedo, tentam nos impressionar com os feitos dos super-heróis nacionais.

O jovem Samuel, que se torna professor do curso ginasial, tenta dar uma aula sob o tema “A independência dos Estados Unidos”. Em meio às suas explanações e considerações, Samuel percebeu o desinteresse dos seus alunos pela aula. Descobriu que entre eles circulava uma revista pornográfica, aquilo que um dos alunos chamou de “Verdadeira guerra da América”, provocando as gargalhadas dos colegas. Urariano Mota conhece as limitações do ser humano e as progressivas conquistas da alma, o acúmulo das experiências pelos fatos vivenciados e pelas observações do comportamento geral da sociedade, por isso mesmo seu personagem Samuel, bem-intencionado aspirante ao magistério, apenas se indignou com o comportamento da turma, passou-lhe uma inócua descompostura, e queixou-se ao velho diretor. Este, como tantos outros nos dias de hoje, estava mais preocupado com o faturamento da escola-empresa do que nos resultados de uma escola como instrumento de formação de cidadãos.

Samuel ainda não tinha experiência suficiente para entender que, apesar de ter sido dita como provocação, aquela frase do aluno galhofeiro expressava uma verdade que poderia, naquelas circunstâncias, ser denominada “ironia do sarcasmo”. Se a revistinha pornográfica não é propriamente a “verdadeira guerra da América”, entretanto pode ser considerada uma poderosa arma nessa guerra suja da alienação juvenil. Hoje as revistas pornográficas ocupam mais espaço nas bancas do que os cantinhos destinados aos jornais e à meia dúzia de publicações instrutivas. Milhões de jovens poderiam estar freqüentando bibliotecas e livrarias, adquirindo obras como Os Corações Futuristas e tantas outras que ainda não encontraram o caminho das grandes editoras. Enquanto isso, a maior parte dos nossos adolescentes (e nem tão) está condicionada (condenada) à reclusão nos banheiros, hipnotizados pela pornografia colorida, a prostituição gráfica, despojada da arte do mestre Carlos Zéfiro, em solitários delírios, bem acima dos limites saudáveis.

E João? Até parece que João leu Os Corações Futuristas e, assustado, se reconheceu como personagem do livro. Ou, pelo menos, João teria dito: “Um dia alguém vai escrever a nossa história, vai contar a sacanagem que fizeram com a gente”. Refeito do susto, hoje, João, parafraseando Sartre, diria: “O que importa agora é o que vamos fazer com a sacanagem que plantaram em nós”.

Bernard Shaw afirmou que “Todo livro que vale a pena ser lido foi escrito pelo Espírito”, atribuindo a autoria de todas as obras da Literatura Universal a única fonte. O problema é que, assim como existe bancário com espírito de banqueiro, escravo com espírito de senhor, podem existir banqueiros travestidos de escritores, ou espíritos escritores que ainda não distinguem ética de estética, deixando-se influenciar pela ditadura do mercado. Em Os Corações Futuristas, Urariano Mota demonstra a possibilidade de uma literatura universal em cada aldeia, como preconizava Leon Tolstoi. Nele, a Estética é apenas um elemento da Ética, mas sem abrir mão da criatividade.

Ler Os Corações Futuristas foi como se eu estivesse fazendo uma lição que saltei, na escola da vida, quando tinha a idade dos jovens personagens. Com o leitor de excelentes produções ocorrem coisas assim: morre um jovem velho para, logo em seguida, renascer um velho rejuvenescido.

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Fonte: http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=657

Análise/livro/"Cartas a Favor da Escravidão": Esforço letrado de Alencar é chocante

08/10/2008

por TALES AB’SÁBER
ESPECIAL PARA A FOLHA
Textos publicados revelam um escritor admirável e ao mesmo tempo execrável, que faz pensar nos novos senhores do Brasil

Quem ler as “Cartas a Favor da Escravidão”, de José de Alencar, que a editora Hedra publica após 140 anos de sua primeira aparição, deve se espantar. De fato, o livro tende para o inacreditável.

Há muito que circula a percepção em círculos progressistas de que as elites nacionais poderiam funcionar por princípios pré-modernos em plena modernidade, diante dos quais o horizonte real de desenvolvimento social do país não é um móvel histórico forte.

A vida ideológica estável de nossa época nos impede de checarmos as concepções de mundo do poder e seu controle do corpo e destino no mundo do trabalho. Em um tempo em que todo poder emana do capital, e a crítica da violência no espaço do trabalho está vedada por princípio, apesar da virtual escravidão, a verdade é que a violência contra o trabalho continua aí, presente, configurando amplos setores da economia. No entanto, tais novos senhores do trabalho do outro estão justificados a priori.

Afinal, imensas empresas, como as grandes marcas esportivas ocidentais, não exploram também ao extremo o trabalho, até mesmo o infantil, no sudoeste asiático, ao mesmo tempo em que terceirizam as responsabilidades, como se nada tivessem a ver com essa ordem de iniqüidades, mesmo quando ganham tudo com ela?

Clareza e astúcia

Em uma certa passagem de nossa modernidade, José de Alencar se pôs a defender, com seu estilo transparente e elegante, a posição do Partido Conservador pela manutenção da escravidão no Brasil. A instituição estava abalada, pois fora abolida no império inglês (1833), nas colônias francesas (1848) e nos EUA (1863).

As pressões sobre o Brasil eram grandes, e d. Pedro 2º sinalizava, mesmo que de modo muito lento e gradual, para o horizonte de supressão do trabalho escravo. Então Alencar escreve essas peças execráveis, mas, paradoxalmente, admiráveis pela clareza e pela astúcia, sustentando a necessidade civilizatória da escravidão.

Fundado em um princípio de violência inconciliável da civilização com a natureza e com o outro humano -o bárbaro-, que seria civilizado pela força avançada que o poria como escravo, mas força que também o tornava um virtual sujeito para ele próprio, Alencar se utiliza de todos os argumentos imagináveis em seu tempo para justificar o modernamente injustificável, do risco de crise social à necessidade econômica fatalista e até mesmo um desenho de amálgama de raças pela miscigenação e pela cultura, que faria da escravidão a mãe da cultura nacional.

Hoje, o esforço letrado e frio do escritor é chocante e nos parece vazado de desfaçatez. Algo parece ter mudado no valor dos fatos e da história.

Mas o que podemos dizer dos neo-senhores, que mantêm condições de terror e ignomínia no mundo do trabalho? Se eles fossem obrigados a falar, como recentemente os neocons americanos o fizeram para justificar a ilegítima invasão no Iraque, seu sistema de razões e sofismas soaria semelhante ao do elegante e culto senhor de escravo e romancista brasileiro, como toda ordem de razão que emana da pura força.

De modo algum é acaso que este tenha sido o único trabalho publicado do autor no século 19 ausente das obras completas de 1959. Tal voz conservadora é de fato mais poderosa quando silenciosa, quando não mais necessita se justificar. Por isso o livro de Alencar é importante. Ele dá voz e configuração ao que silencia, pois não necessita justificativa, e pode apenas agir, tão sistematicamente no Brasil.

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TALES AB’SÁBER é psicanalista, membro do Instituto Sedes Sapientiae e autor de “O Sonhar Restaurado” (ed. 34)
Fonte: Folha de S. Paulo, 08 de outubro de 2008. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0810200809.htm
Imagem: Quadro “Loja de Rapé”, aquarela inacabada em que o pintor Jean-Baptiste Debret retrata escravos urbanos no Brasil do século 19

Poesia e Utopia

06/02/2008

Alipio Freire. Estação Paraíso. São Paulo: Expressão Popular, 2007, 128p.*

Conheci o Alipio nos corredores e salas do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo (SP), nos primeiros anos da década de 1980. Ele trabalhava como jornalista e eu era um jovem descobrindo o mundo da política. Nossos contatos foram esporádicos, ditados pelas atividades sindicais cotidianas. Não obstante, foi marcante. Nossos caminhos tomaram diferentes direções, mas não o esqueci. Em minha mente ficou a imagem de um companheiro bem-humorado e solicito, mas também circunspecto e de poucas palavras. Seu jeito de ser, algo misterioso e com uma certa aura, atiçava a minha curiosidade e admiração. Eu sabia que ele era da geração que enfrentou a sanha assassina dos ditadores; e eu era apenas um jovem cuja experiência sindical e política se resumia a fazer greve, pichar muros e colar cartazes, participar de reuniões etc. Atividades que tinha o seu risco, pois, mesmo que em tempos de “abertura política”, ainda estávamos sob a ditadura militar. Porém, não podiam ser comparadas à militância dos companheiros e companheiras que semearam a utopia socialista e os tempos de liberdade, ainda que “burguesa”, com a vida e o sangue vertido nas ruas e prisões. Naquele tempo, homens como Alipio eram para mim seres quase que mitológicos, envoltos em mistérios e dignos de admiração.

Agora, vejo a imagem do Alipio em seu livro Estação Paraíso e descubro que também é poeta. Não sabia que tinha essa qualidade. O tempo passa e envelhecemos, mas a sua fisionomia ainda mantém os traços marcantes que ficaram em minha memória. Leio suas palavras e sinto que elas têm o vigor dos que persistem, apesar do passar do tempo e das mudanças políticas. As idéias teimam em não envelhecer. A utopia se renova nos poemas que expressam uma experiência de vida singular, numa perspectiva dos que sabem da necessidade de resgatar a memória histórica e fazer a crítica ao passado e presente, condições essenciais para evitar a repetição da tragédia e construir o futuro.

O passar dos anos contribui para o desencantamento. O mito desfaz-se diante do conhecimento da história. Descobrimos, então, que aqueles “deuses” eram seres humanos de carne e osso que partilhavam das nossas fragilidades humanas. Mas isto não diminui a admiração, apenas a coloca em novo patamar. Afinal, foram homens e mulheres que ousaram agir, ainda que em condições extremamente desfavoráveis. Cometeram erros, é verdade; mas romperam os diques do conformismo e atreveram-se a pensar e agir, acalentados pelo sonho da liberdade e a utopia de um Brasil diferente. Merecem o respeito das novas gerações. Os jovens de hoje precisam saber que a democracia, ainda que limitada e “burguesa”, não foi uma dádiva dos ditadores. O simples direito de poder votar é uma conquista regada pelo sangue dos que ousaram lutar!

Os poemas do Alipio expressam uma época em que a morte rondava os que, como Lola, anunciavam um novo tempo. Mas ele nos fala do nosso tempo, do presente. Os ditadores assassinaram jovens corpos cheios de vida e sonhos, com a vã esperança de, assim, aniquilar as idéias. Fracassaram. As idéias sobreviveram nos corpos marcados pela tortura e almas atormentadas pelas lembranças do sofrimento da carne; sobreviveram no resgate da memória dos que se foram; e foram revivificadas nos que vieram depois, os quais, ainda que não soubessem e percorressem outros caminhos, estavam imbuídos dos mesmos ideais.

A ditadura passou, a utopia permaneceu. Nos novos tempos das liberdades democráticas, a utopia foi instrumentalizada, incorporada e negada. Mercantilizada, tornou-se moeda de troca para a ocupação de postos no aparato do poder estatal. Hoje, os assassinos da utopia se metamorfoseiam em democratas e guardiões da ordem social; pragmáticos, não ousam ir além da política segura que lhes assegurem os lugares conquistados; seus discursos vazios de conteúdo conservam as condições de injustiça e desigualdade. Os assassinos da utopia do nosso tempo não precisam lançar mão de meios bárbaros, embora possam recorrer ao argumento do “estado de direito” para perseguir os que insistem em anunciar a aurora.

A utopia permanece como uma necessidade. É reconfortante vê-la renovada nas palavras do poeta:

O bicho homem constrói sua casas
suas máquinas, sua vidas
em perfeita harmonia entre si
e com a natureza
Reconciliados.

As crianças de todas as raças
são coradas e sadias
todos s adultos seus pais e mães
e o saber e a inteligência
são repartidos igualmente
como o pão e o vinho
o leite e o mel (p. 43-45).

O poeta se mantém fiel às idéias pelas quais lutou. É um modo de honrar a memória de Lola e de tantos outros que pereceram nos porões da ditadura militar. Seus poemas prenunciam a aurora que virá:

Aurora
eu te diviso
ainda tímida
inexperiente

das luzes
que vais acender

dos bens
que repartirás
com todos os homens

– Prenunciou o poeta gauche
em seu sentimento do mundo

Antes
muito antes
do nascer
Aurora (p. 73).

A aurora anuncia o novo mundo, a utopia realizável. E a cada amanhecer do novo dia, ela se impõe como uma certeza a ser construída pelos homens e mulheres do presente e do futuro. Por outras “Lolas”, outros “Alipios” e poetas cujas palavras se transformam em ação. Estação Paraíso fala à alma dos que sentem o mundo e a necessidade de transformá-lo. As palavras do poeta denunciam a barbárie e nos comprometem com a luta por sua superação:

Eles assassinaram a Aurora

Restou ao dia amanhecer
solitário
em ruptura
radical

Havemos de amanhecer

O mundo se tingirá
E o sangue que escorrer será doce
de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces
Aurora (p. 85).

Sim. Porque apesar dos assassinos, no passado e presente, a Aurora se anuncia em cada alvorecer. Como frisa o poeta:

Apesar de todas as nossas misérias…
Eppur se muove! (p. 107).

Os poemas de Alipio Freire precisam ser lidos e relidos. Situados no tempo através do texto introdutório escrito pelo próprio autor, seus leitores compreenderão a essência do seu significado. Mas do que compreender, é preciso senti-los. E não há como se manter insensível diante da veemência das palavras impressas no papel. A propósito, a edição de Estação Paraíso tem excelente qualidade. O mérito é da Editora Expressão Popular e evidencia a possibilidade de um projeto editorial que publique com qualidade e preço baixo, favorecendo o acesso aos bens culturais. O autor doou os direitos autorais à editora. Até porque seu livro é concebido como “um objeto poético”. Para Alipio, “transformá-lo em mercadoria é uma contingência fugaz do nosso tempo, como fugaz é o capitalismo” (p. 15). A escolha da Editora Expressão Popular é coerente com o ideário político do autor.

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* Publicado originalmente em Revista Espaço Acadêmico, nº 81, fevereiro de 2008. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/081/81res_ozai.htm

Franz Kafka: a afirmação da liberdade

09/07/2007

Resenha:
Michael Löwy. Franz Kafka, sonhador insubmisso. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005 (208 p.)

Antonio Ozaí da Silva

para José Eduardo Izzo Junior

“Pode-se ainda dizer algo novo sobre Kafka?”, pergunta-se Michael Löwy. Ainda que a obra do escritor tcheco seja daquelas que produziram leituras interpretativas e exegéticas diversas, o autor de “Franz Kafka, sonhador insubmisso” aposta que sim. Mas é possível ser original e superar as leituras de cunho estritamente literário, biográfico, psicanalíticas, teológicas, judaizantes e sociopolíticas dos diversos comentadores e críticos literários que se debruçaram sobre a obra kafkiana? Löwy investe num olhar que procura captar o “fascinante poder de insubmissão” expresso na escrita de Franz Kafka (p. 07).

A leitura de Michael Löwy é marcada pela perspectiva antiautoritária do autor de O Processo. Essa é a chave da leitura que permite responder afirmativamente à questão colocada e, ao mesmo tempo, produz uma reflexão ímpar, que, situada no rol das interpretações sociopolítica, procura “articular os outros níveis, graças a um fio vermelho que permite ligar a revolta contra o pai, a religião da liberdade (de inspiração judaica ortodoxa) e o protesto (de inspiração libertária) contra o poder mortal dos aparelhos burocráticos: o antiautoritarismo” (p. 11).
A obra de Kafka, incorporada ao léxico de várias línguas através do termo kafkiano, expressa a crítica antiautoritária, vale frisar, a afirmação da liberdade, na medida em que seu significado é profundamente assimilado “pelos milhões de leitores modernos para os quais o nome de Kafka tornou-se sinônimo de inquietação, em face do sistema burocrático” opressor. “As cadeias da humanidade torturada são feitas de papel de escritório”, afirmou Kafka (págs. 13-14). Para Löwy, essa imagem kafkiana “sugere, ao mesmo tempo o caráter opressivo do sistema burocrático, que subjuga os indivíduos com seus documentos oficiais, e o caráter precário das cadeias, que facilmente poderiam ser rompidas se os homens quisessem libertar-se delas” (p. 15).

O olhar diferenciado de Michael Löwy lança luz sobre as potencialidades libertárias e insubmissas do autor de Praga. E, por outro lado, oferece ao leitor a possibilidade de realizar uma leitura política crítica. Mas não se trata de enquadrar ideologicamente a obra de Kafka e reduzi-la “a uma doutrina política, seja ela qual for”. Como esclarece Löwy: “Kafka não produz discursos, ele cria personagens e situações e exprime, em sua obra, sentimentos, atitudes, uma Stimmung. O mundo simbólico da literatura é irredutível ao mundo discursivo das ideologias; a obra literária não é um sistema conceitual abstrato, na trilha das doutrinas filosóficas e políticas, mas criação de um universo imaginário concreto, de personagens e coisas” (p. 19).

Eis a diferença fundamental entre literatura e textos de caráter político. Ainda que a obra literária tenha significado político, não se trata de política partidária ou adesão a uma ideologia específica. Neste caso, estaríamos diante de um panfleto. Isso não significa que o autor seja ideologicamente neutro, mas sim que o texto literário pertence a outro campo diverso da atividade humana, com características que lhes são próprias. Não obstante, isto não impede a leitura crítica da obra literária. Em relação a Franz Kafka, por exemplo, não impossibilita que se explore “as passagens, passarelas, os elos subterrâneos entre seu espírito antiautoritário, sua sensibilidade literária, suas simpatias socialistas, por um lado, e seus principais escritos, por outro” (id.).

O acesso à documentação sobre a vida e obra do autor, e o diálogo crítico e criterioso com os diversos intérpretes e comentadores, faz de Michael Löwy um leitor privilegiado da literatura kafkiana. Isto se evidencia no transcorrer do livro. O leitor não acostumado às querelas interpretativas pode até mesmo cansar-se diante das discussões e detalhes apresentados em certos trechos. Porém, o leitor interessado em compreender profundamente a obra kafkiana terá o seu esforço recompensado. O que parece bizantinismo em certos aspectos ganha importância na medida em que configura a riqueza da obra. Por outro lado, o diálogo de Löwy com as várias linhas interpretativas ilumina a sua argumentação e, conforme avançamos na leitura, delineia-se o perfil insubmisso de Franz Kafka.

Löwy analisa as inclinações socialistas de Kafka, um socialismo de verniz antiautoritário. Sua pesquisa se orienta nessa direção. Daí a referência ao anarquista russo Piotr Kropotkin. Ele se fundamenta em relatos contemporâneos e em determinados aspectos da obra kafkiana como América. Contudo, como nos alerta Löwy, não se trata de “demonstrar uma pretensa “influência” dos anarquistas de Praga – ou de Kropotkin – sobre seus escritos. Ao contrário, foi ele que, a partir de suas próprias experiências e de sua sensibilidade antiautoritária optou por freqüentar durante alguns anos, esses meios (e por ler alguns de seus textos). Com efeito, nada seria mais falso do que acreditar que ele tivesse desejado transcrever suas simpatias libertárias em sua obra literária” (p. 55).

É equívoco rotular a obra kafkiana de anarquista (ou outro ista qualquer). Mas é possível identificar o ethos libertário. Este “se exprime em diferentes situações que estão no centro dos seus principais textos literários, mas, antes de tudo, na maneira radicalmente crítica como é representado o semblante compulsivo e angustiante da não-liberdade: a autoridade”. O leitor que queira descobrir na obra kafkiana um livro que expresse diretamente a utopia libertária certamente se frustrará. Esta “não aparece como tal em lugar nenhum em seus romances e contos: ela existe somente em negativo, como crítica de um mundo totalmente desprovido de liberdade, submetido à lógica absurda e arbitrária de um “aparelho” todo-poderoso” (p. 56).

Löwy mostra que as experiências de vida do autor de Praga – a relação paterna, o emprego etc – reforçam a perspectiva antiautoritária. Esta não aparece enquanto doutrina política, mas na forma “de um estado de espírito e de uma sensibilidade crítica – cuja principal arma é a ironia, o humor” (p. 57). Se a sua obra expressa um dos aspectos fundamentais do pensamento anarquista, nem por isso é passível de defini-la enquanto tal. “Kafka estava longe de ser um “anarquista”, mas o antiautoritarismo – de origem romântica e libertária – atravessa o conjunto de sua obra romântica e libertária, num movimento de universalização e de abstração crescente do poder da autoridade paterna e pessoal até a autoridade administrativa e anônima” (p. 59), acentua Löwy.

Um dos elementos diferenciadores da análise de Michael Löwy é sua capacidade de universalizar a experiência para além das interpretações psicologizantes. A crítica à ditadura paterna constitui um dos fundamentos íntimos da perspectiva rebelde e insubmissa de Kafka. Ele se coloca do lado dos trabalhadores empregados do pai; fica do lado dos oprimidos. Por outro lado, como demonstra Löwy, o escritor tcheco nutre admiração especial por aqueles que se rebelam e lutam pela liberdade, com destaque para as figuras femininas.

A leitura do livro de Michael Löwy nos permite compreender a obra de Kafka. Sua análise revela o quanto o poder impessoal também pode ser tirânico e como este significado está presente nos livros e contos kafkianos. Em América, Na Colônia Penal, O Castelo, O Processo, etc., Kafka disseca e desvenda o poder em todas as suas manifestações. Simultaneamente, Löwy observa o quanto a obra de Kafka também está sujeita às interpretações conformistas ou mesmo aquelas que culpabilizam as vítimas do despotismo burocrático. É o caso de alguns intérpretes da obra O Processo. Löwy assinala que esse tipo de exegese tem em comum “o fato de neutralizarem ou apagarem a formidável dimensão crítica do romance, cujo tema central, como bem compreendeu Hannah Arendt, “é o funcionamento de uma hipócrita máquina burocrática na qual o herói foi inocentemente capturado” (p. 110).

Após apresentar e analisar as várias interpretações e se deter sobre a conclusão de O Processo, Löwy considera que esta “é ao mesmo tempo “pessimista” e resolutamente anticonformista. Ela exprime a sensibilidade do pária-rebelde em Kafka, que manifesta nessas páginas ao mesmo tempo a compaixão pela vítima e uma crítica da submissão voluntária. Podemos lê-las como um apelo à resistência” (págs. 126-127).

A obra de Kafka expressa uma theologia negativa, conforme notou Walter Benjamin. Michael Löwy resgata a correspondência entre Walter Benjamin e Gershom Scholem e concorda que este conceito “é efetivamente o único que pode dar conta de modo adequado do tipo muito particular de problemática religiosa presente nos romances de Kafka” (págs. 131-132). “Em outros termos”, afirma Löwy, “os escritos de Kafka descrevem um mundo entregue ao absurdo, à injustiça autoritária e à mentira, um mundo sem liberdade em que a redenção messiânica só se manifesta negativamente, por sua ausência radical” (p. 132). Configura-se, portanto, uma utopia negativa que tem afinidades eletivas com a teologia negativa. Um dos textos que melhor condensam esta “espiritualidade libertária” é a parábola “Diante da lei”. O significado deste texto é analisado por Löwy no capítulo com o sugestivo título “A religião da liberdade e a parábola “Diante da lei” (págs. 129-156).

A análise da obra O Castelo é atualíssima. A leitura nos propicia o entendimento de como o despotismo burocrático conta com a servidão voluntária para se legitimar. Com efeito, vivemos num mundo em que a acomodação e adaptação à ordem constituem comportamentos elogiáveis e aconselhados. Mesmo os que em tese deveriam nutrir posturas críticas diante da máquina burocrática se submetem efusivamente e aceitam as diretrizes emanadas dos órgãos superiores sem esboçar qualquer resistência. O comum é aceitar a autoridade burocrática como natural.

Löwy contextualiza os romances analisados. O Castelo está relacionado à conjuntura da vaga insurrecional que sacudiu a Europa nos anos 1818-1922. Isto explicaria porque, em sua avaliação, nesta obra a ênfase recai sobre a temática da resistência ao poder. Mas se trata da resistência individual. Nesta perspectiva, Löwy chama a atenção para um personagem em geral pouco observado. Trata-se de Amália, “uma dessas raras personagens nos romances de Kafka que encarnam, de modo irredutível, a recusa a obedecer, a insubmissão, em suma, a dignidade humana – pagando por isso um preço muito alto” (p. 185). Aqui, mais uma vez, nota-se a admiração de Kafka pelas mulheres que se rebelam contra o poder instituído.

Após discutir as interpretações sobre o “realismo” de Kafka, Michael Löwy finaliza este ensaio enfatizando “o poder de “iluminação profana” da obra kafkiana. A capacidade do autor de Praga em lançar luz sobre um mundo prisioneiro de “cadeias de papel de escritório”, um mundo despoticamente dominado por formas de poder impessoais e tiranias profeticamente apresentadas em textos como O Processo, “é, sem dúvida, uma das causas do seu extraordinário impacto sobre a cultura do século XX” (p. 201). Portanto, não é casual que o nome do autor tcheco tenha se tornado um adjetivo vinculado aos absurdos do nosso tempo. Como enfatiza Löwy: “Não é por acaso que o termo “kafkiano” entrou para a linguagem corrente: ele designa um aspecto da realidade que as ciências sociais tendem a ignorar e para o qual não têm qualquer conceito pertinente: a opressão e o absurdo da reificação burocrática tal como são vividos pelas pessoas comuns” (págs. 204-205). Não obstante, a obra de Kafka também expressa a possibilidade de resistir, de não se submeter. Para tanto, é preciso compreender os mecanismos que nos dominam e, como o autor, cultivar a insubmissão.

Para concluir, o livro de Michael Löwy também mostra o quanto determinados indivíduos influenciam as nossas vidas. No Post-Scriptum ele expõe em poucas linhas como chegou a esse tema e como suas pesquisas evoluíram durante anos até a publicação deste livro. Neste relato ele presta uma justa homenagem a Maurício Tragtenberg:

“Ouvi falar pela primeira vez de Kafka durante meus anos de ginásio no Brasil, numa conferência de Maurício Tragtenberg sobre “A burocracia em O Castelo de Kafka”.[1] Maurício era um jovem intelectual judeu-brasileiro, autodidata – mais tarde, faria uma carreira universitária – de sensibilidade marxista-libertária. Não me recordo dos detalhes da conferência, mas, em linhas gerais, ele sustentava que o romance de Kafka era uma das mais interessantes análises críticas da significação dos poderes burocráticos nas sociedades modernas. Meu livro deve muito a essa longínqua intervenção de meu amigo desaparecido, Maurício Tragtenberg” (p. 16).

Ainda bem que existem indivíduos e livros como esses. São palavras que permanecem e cativam as gerações. São exemplos de insubmissão. Os sonhadores utópicos e insubmissos resistem!

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Fonte: Revista Espaço Acadêmico, Ano VII, Nº 74, julho de 2007

[1] Em 1962, na Revista ALFA. Nº 1. Departamento de Letras da F.F.C.L. de Marília (SP), Maurício Tragtenberg publicou o texto “Franz Kafka – O Romancista do “Absurdo”, também disponível na Revista Espaço Acadêmico, nº 07, dezembro de 2001.