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George Orwel fiel a seus princípios – por SERGIO AMARAL SILVA

10/07/2010

Nascido há mais de um século, o revolucionário e radical George Orwell continua atual. “1984”, o livro mais conhecido do autor que criou expressões como “guerra fria” e “Big Brother”, chega agora aos 60 anos.*

“Se a liberdade significa alguma coisa, será, sobretudo, o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.” “1984”, George Orwell

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido em Bengala, na Índia sob dominação inglesa, em 25 de junho de 1903. Sua mãe tinha ascendência francesa, e seu pai era um funcionário civil da marinha britânica. O garoto foi educado na aristocrática Academia de Eton e, desde cedo, mostrava sua decepção com a sociedade de que fazia parte, revelando uma precoce rebeldia intelectual.

Aos 19 anos, entrou na polícia imperial britânica, passando os cinco anos seguintes entre a Índia e a Birmânia (atual Mianmar). Nesse período, revoltou-se contra a política colonial opressora da Inglaterra, desertando em 1927. Da experiência resultariam alguns de seus primeiros ensaios e seu romance de estreia, “Dias na Birmânia”, publicado em 1934.

No final dos anos 1920, de volta à Europa, Blair renegou sua origem, sua fortuna e o próprio nome, por considerá-los vergonhosos. Adotou o pseudônimo de George Orwell e passou a viver como operário de fábrica em Paris e depois como professor primário em Londres. Em 1933 sairia seu relato sobre essa vivência de miséria e falta de liberdade, “Na Pior em Paris e Londres”. Foram tempos difíceis para o escritor, que em 1935 publicou A “Filha do Reverendo” e, em 1936, “Keep the Aspidistra Flying”.

CRÍTICA

Se Orwell se deixasse abater pelos obstáculos iniciais, teria encerrado prematuramente a carreira. Um exemplo? Um de seus primeiros trabalhos recebeu da crítica o amável comentário de que ele escrevia “como uma vaca com uma espingarda”…

Alguns anos mais tarde, Orwell já começava a ser reconhecido como um autor de talento, ao mesmo tempo em que adotava atitudes cada vez mais radicais. Assim, engajar-se na Guerra Civil Espanhola, que começou em 1936, foi para ele um ato natural. Conforme suas próprias palavras, “reconheci imediatamente que era um estado de coisas pelo qual valia a pena lutar”.

Em 1937, publicaria “O Caminho Para Wigan”, narrando a extrema pobreza dos trabalhadores das minas do norte da Inglaterra. No livro, afirmou que desejava “escapar de toda forma de dominação do homem sobre o homem”.

No mesmo ano, foi para a Catalunha, onde se alistou para lutar contra o fascismo ao lado dos anarquistas do Partido Operário de Unificação Marxista, o POUM . Foi para a frente de batalha.

Em Barcelona, ele e seus companheiros começaram a ser perseguidos pelos comunistas, que deviam ser seus aliados. Isso acabou revelando o caráter duplo da posição dos russos.
Deu baixa após um ferimento a bala no pescoço e voltou à Inglaterra, tendo escrito em 1938, “Homenagem à Catalunha”, que saiu no Brasil com título de “Lutando na Espanha”. A partir desse livro, um amargo e desencantado testemunho ocular da guerra, consolidase seu objetivo literário. Como o autor afirmaria no ensaio “Por que Escrevo”, de 1946, o de “transformar a escrita política em arte”. E acrescenta: “Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar a atenção, e penso sempre que vou encontrar quem me ouça.”
DESAFETOS
Ainda em 1938, contraiu tuberculose e passou uma temporada em Marrocos, onde escreveu a novela “Coming Up For Air”, publicada em 1939, ano em que começou a segunda guerra mundial. Orwell pensou em lutar, mas foi declarado fisicamente inapto. Ilustração Kuco Depois de sua intensa vivência espanhola, ele se mostrou decepcionado com os partidos comunistas, com sua estrutura rígida e obediência irrestrita a Moscou. Se por um lado sua postura de socialista revolucionário se fortaleceu, ao mesmo tempo cresceu nele o anti-stalinismo, levando-o a uma espécie de socialismo independente. Em 1941, trabalhando para a BBC, escreveu o ensaio “O Leão e o Unicórnio”. Na época, defendia a nacionalização “da terra, das minas, das estradas de ferro, dos bancos e das principais indústrias”. Ainda durante a guerra, serviu num corpo civil para defesa local.

“A REVOLUÇÃO DOS BICHOS”

Além do fascismo e do imperialismo, outros grandes inimigos de Orwell eram a desonestidade de propósitos e as atitudes politicamente ambíguas dos que apoiavam o regime comunista de Stalin. Isso ficou ainda mais claro quando, na Segunda Guerra, a União Soviética se aliou ao Ocidente contra Hitler. Em 1943, Orwell tornou-se editor literário do jornal Tribune e começou a elaborar uma fábula que exibisse o totalitarismo e a face burguesa da Rússia. Ali, os comunistas eram representados pelos porcos de uma fazenda inglesa dirigida por animais: “A Revolução dos Bichos”. Naquela circunstância, “estar disposto a criticar a Rússia e Stálin é a prova da honestidade intelectual”, afirmou em agosto de 1944. Vários editores britânicos se recusaram a lançar o romance, temendo criticar o aliado inglês na guerra. Finalmente, o livro acabou saindo, em 1945. Foi um acontecimento literário, que ajudou a alertar o Ocidente sobre a verdadeira natureza do regime de Moscou.

Nesse trabalho, o autor superou em definitivo a trama muitas vezes pobre de suas primeiras novelas, tratando com desenvoltura seu argumento, num cenário que lhe era muito familiar. Afinal, era apaixonado pelo campo, onde vivera no fim dos anos 1930. Na sátira, ele criticava duramente a corrupção pelo poder, indo do particular para o geral. Essa habilidade, aliás, constitui um dos pontos fortes da obra de Orwell, principalmente nos ensaios sobre política.

“1984”

Com o fim da guerra, Orwell foi para uma ilha na Escócia. Lá, aprofundou sua condenação ao autoritarismo de todos os gêneros em seu último livro, o mais conhecido: “1984”, que guarda semelhanças com “Admirável Mundo Novo” (1932), de seu companheiro de escola Aldous Huxley. George Orwell foi um dos mais influentes escritores políticos do século 20, dado o alcance histórico e geográfico de sua literatura. A propósito, a expressão guerra fria, que marcou a segunda metade do século, apareceu pela primeira vez num artigo de Orwell, de acordo com o registro do Oxford English Dictionary.

TRAIÇÃO?

O escritor morreu de tuberculose em Londres, em 21 de janeiro de 1950, com 47 anos incompletos. Antes, porém, envolveuse num polêmico episódio no qual, segundo alguns historiadores, ele teria denunciado ao governo britânico 130 suspeitos de comunismo. Outros acreditam que Orwell apenas forneceu uma lista de nomes para que essas pessoas não viessem a receber propaganda anticomunista. Segundo consta, aqueles acusados não sofreram nenhuma retaliação.

Passadas décadas desde esses acontecimentos, interessa-nos perguntar qual a utilidade de ler o autor ainda hoje, quando seus maiores adversários políticos – o imperialismo, o fascismo e o comunismo – estão praticamente derrotados. Afinal, foi exatamente nos anos 1980 que começou a cair o regime soviético que inspirou 1984…

Há muitas respostas possíveis, entre elas a de que Orwell merece ser lido, mais que por interesse histórico, pela honestidade, coragem e fidelidade aos ideais em que acreditava. “Capaz de exagerar com a simplicidade e a inocência de um selvagem”, como disse Pritchett ao resenhar “O Leão e o Unicórnio”, o escritor tem uma importante lição a nos transmitir sobre engajamento e paixão na literatura, ainda mais útil num tempo como o atual, em que predominam o individualismo e a apatia.

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* Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria Literatura. Fonte: Revista Literatura, nº 24, disponível em http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/24/artigo144825-1.asp

Homenagem: Albert Camus – por Manoel da Costa Pinto

15/05/2010

Morto há 50 anos, Camus resistiu, pela solidariedade da revolta, às promessas e utopias políticas de seu tempo*


Comentando a obra do escritor Albert Camus – que morreu há 50 anos, num acidente de automóvel em 4 de janeiro –, o crítico João Alexande Barbosa escreveu:

“Desde Núpcias até a conferência de Uppsala, é possível traçar uma linha de coerência para com o fragmento, que termina por emprestar à obra uma feição incômoda de inconclusão para aqueles que desejam sempre a segurança dos sistemas classificatórios. Para esses, Camus sempre deixou de dizer alguma coisa. O seu mundo não era nem podia ser esgotante porque sobretudo pretendia ser verdadeiro. Feito de sugestões, pesquisas, avanços e recuos, era um mundo dialético por natureza. Se no discurso que pronunciou na Suécia é possível apontar a dimensão de um escritor já amadurecido na sua arte, não é menos possível mostrar a sua fidelidade para com o mundo corajosamente inseguro que construiu. Daí uma espécie de eterno retorno que é constante em sua obra: cada novo livro oferece a possibilidade para melhor compreensão de um anterior. Mas quando esperamos o fechamento do círculo, eis que as cordas se desatam e novamente começa o jogo difícil da procura. Por isso, Jean Starobinski pôde escrever: ‘Camus pertencia menos a seus livros do que à tentativa que lhes sucedia, e que colocava novas questões’.”

A obra de Camus sempre girou em torno de alguns temas ou obsessões, examinados a partir de gêneros diferentes: ficção, teatro, ensaio. E cada um deles, por sua vez, recapitula as origens de uma intuição, de uma disposição fundamental, que começa a se delinear em sua Argélia natal.

Camus é conhecido como o “filósofo do absurdo”, que teria dado à sua percepção do confronto entre o desejo de clareza do homem e a opacidade do mundo (em O Mito de Sísifo) uma dimensão romanesca e teatral (em livros como O Estrangeiro e A Peste e em peças como Calígula e O Mal-entendido). Essa repartição da obra camusiana é muito semelhante àquela encontrada na obra de Jean-Paul Sartre, também ele um escritor e pensador que abordou temas como consciência e contingência em ensaios (O Ser e o Nada), romances (A Náusea) e peças (Entre Quatro Paredes).

Por causa disso, da amizade entre ambos e de certas coincidências intelectuais e biográficas (como a questão do engajamento e a Resistência ao nazismo), Camus se viu a contragosto associado ao existencialismo de Sartre. Enquanto a situação política do pós-guerra sustentou interesses comuns, essa vinculação não foi tão incômoda. Com o acirramento da Guerra Fria, porém, as diferenças se acentuaram, culminando na ruptura entre ambos após a polêmica em torno de O Homem Revoltado, livro de 1951 em que Camus faz uma crítica aos movimentos revolucionários que transformam a história num fim em si mesmo, legitimando a violência em nome da eficácia política – atitude filosófica à qual haviam aderido Sartre e Maurice Merleau-Ponty (este último, ao menos, no livro Humanismo e Terror).

Tais divergências, contudo, não eram apenas de ordem ideológica. É verdade que tanto Sartre quanto Camus escreviam ficção em diálogo cerrado com suas concepções
ensaísticas e que a “náusea” sartriana se assemelha ao absurdo – a tal ponto que a própria definição que dele nos dá Camus, em O Mito de Sísifo, faz referência explícita ao filósofo existencialista: “Esse mal-estar diante da inumanidade do próprio homem, esta queda incalculável diante da imagem do que somos, esta ‘náusea’, como a denomina um autor de nossos dias, é também o absurdo”.

A diferença fundamental é que aquilo que Sartre denominou de “náusea” é a representação ficcional (no romance homônimo) do movimento da consciência, de sua descoberta da indeterminação do ser em contraste com a viscosa fixidez das coisas, ao passo que Camus cria a “noção de absurdo” depois de ter experimentado o “sentimento do absurdo”.

E este, por seu turno, se esboça não a partir de uma pesquisa sobre a estrutura do ser ou da intencionalidade da consciência (como ocorre com Sartre a partir de Husserl e Heidegger), mas de uma sensação de “divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário”, que começa a se insinuar nos textos de feição autobiográfica, a meio caminho entre o ensaio e a ficção, que Camus publica na juventude.

Celebrações hedonistas

Nascido em Mondovi (província argelina de Constantine) em 1913, Camus passou a infância em Belcourt, um bairro pobre de Argel, entre banhos de mar, “peladas” em que brilhava como goleiro e devaneios alimentados pelos livros do tio Acault, um açougueiro erudito que lia Balzac, Gide e Valéry.

Essa vida socialmente miserável, porém inundada pela opulência do sol mediterrâneo, acabaria por moldar um temperamento ao mesmo tempo austero e marcado pelo apego físico àquilo que está destinado a desaparecer. Resultam daí seus dois primeiros livros: as ficções breves, quase ensaísticas, de O Avesso e o Direito (1937) e os relatos de Núpcias (1939), sobre suas andanças por cidades da Argélia e da Itália (num registro lírico que ele iria retomar anos depois em O Verão, de 1954).

Entre celebrações hedonistas do mar e da paisagem mediterrânea (“Aqui, compreendo o que se denomina glória: o direto de amar sem medida”, escreve ele diante das
ruínas romanas de Tipasa, no litoral magrebino), vemos surgir em germe aquele travo do sentimento do absurdo. Camus fala da “confrontação de meu desespero profundo e da indiferença secreta de uma das mais belas paisagens do mundo” (O Avesso e o Direito) e desse “homem lançado sobre uma terra cujo esplendor e cuja luz lhe falam sem trégua de um Deus que não existe”, para então concluir: “Que acordo mais legítimo pode unir o homem à vida do que a dupla consciência de seu desejo de durar e de seu destino de morte?” (Núpcias).

Tais passagens antecipam O Mito de Sísifo (1943) e sua tentativa de “sistematizar” essas intuições a partir da tonitruante frase inicial – “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. É curioso notar que, para tratar de um assunto que no fundo remete a temas do pessimismo clássico (gratuidade, derrelição, disparate), Camus tenha de falar de um gesto extremo como o suicídio, quando poderia se limitar a expor nossa incapacidade para compreender as essências para além das aparências.

Ocorre que “o absurdo não está no homem (…), nem no mundo, mas em sua presença comum”, ou seja, no contraste entre nosso “apetite de unidade” e a “hostilidade primitiva do mundo”. Portanto, Camus recusa tanto o suicídio (que aboliria o absurdo sem resolvê-lo) quanto as filosofias existenciais (Chestov, Kierkegaard, Husserl, Heidegger, Jaspers) que conduzem à reconciliação com o absurdo e, portanto, ao “suicídio filosófico”. Sua conclusão é a aceitação do absurdo como condição humana – mas uma aceitação que não se confunde com resignação: “O absurdo só tem sentido na medida em que não consentimos nele”.

“Ponto zero”

Essa tensão perpétua, cuja face luminosa já aparecera nos textos de O Avesso e o Direito e Núpcias, ressurgiria, quase ao mesmo tempo que O Mito de Sísifo, na peça Calígula (em que o imperador, transtornado com a mortalidade e a infelicidade dos homens, torna-se um cruel assassino para rivalizar com a crueldade dos deuses) e no romance O Estrangeiro (em que uma neutra sucessão de episódios conduz o protagonista Meursault à gratuidade de um assassinato cometido “por causa do sol” e ao cadafalso).

Nas anotações reproduzidas em seus Carnets, Camus referiu-se a essa trilogia sobre o absurdo como “ponto zero” de sua obra ficcional e filosófica – que a partir daí vai se desdobrar na vizinhança da história. Vivendo na França, onde participara da luta ao nazismo como editor do jornal Combat, ele escreve Estado de Sítio (peça ambientada na Espanha nos moldes dos autos medievais) e o romance A Peste, no qual a cidade de Oran sitiada pela epidemia é uma alegoria da Resistência, mas também uma fábula cautelar que se aplica a outras formas de hipnose ideológica.

E foi contra o elixir das utopias (e contra o vírus totalitário que estas contêm) que Camus escreveu O Homem Revoltado, libelo político no qual contrapõe a revolução (que “consiste em amar um homem que ainda não existe”) à revolta, que consiste em se solidarizar com um homem e com um mundo já existentes.

E como esse homem e esse mundo haviam sido descritos segundo aquela intuição sobre o absurdo, O Homem Revoltado parece sintetizar a complementaridade entre suas obras ficcionais e não ficcionais: “Este ensaio se propõe a prosseguir, diante do assassinato e da revolta, uma reflexão começada em torno do suicídio e da noção de absurdo. O mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva”.

Mas, como afirmou João Alexandre Barbosa, “quando esperamos o fechamento do círculo, eis que as cordas se desatam”. Sob o impacto de sua ruptura com Sartre, por causa de O Homem Revoltado, e de sua dilacerante hesitação durante a guerra de libertação da Argélia (filho de operários pobres, Camus não se via na pele do colonizador francês e queria preservar o convívio multiétnico de seu país), ele escreve a novela A Queda, peça de acusação (e de autoacusação) contra a soberba dos guias de consciência, na figura de um “juiz-penitente” que se apresenta como “profeta vazio para tempos medíocres” e expõe suas culpas e vaidades para cancelar qualquer possibilidade de ajuizamento.

Seria o caso de dizer que, após o lirismo dos ensaios de juventude, da tragédia solar de O Estrangeiro e do mundo enclausurado de A Peste, Camus desvela com A Queda os aspectos mais sombrios (porque moralmente ambíguos) da equivalência e da gratuidade impostas às coisas por sua percepção do absurdo. Porém, ao morrer, três anos após receber o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 (quando profere a conferência de Uppsala), ele deixava inacabado um romance que de alguma forma retornava a suas raízes mediterrâneas.

Escrito em chave autobiográfica, com várias personagens e passagens identificáveis em sua trajetória pessoal, O Primeiro Homem possivelmente sofreria modificações nas mãos de um autor avesso ao tom confessional. Mas resta dessa peregrinação às origens um ethos que percorre sua obra, a altiva austeridade de uma comunidade de homens indiferentes às promessas e utopias políticas: “incapazes de conceber a vida futura, a tal ponto a vida presente parecia-lhes a cada dia inesgotável sob a proteção das indiferentes divindades do sol, do mar ou da miséria”.


* Fonte: Revista Cult, 28 de março de 2010, disponível em http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/homenagem-albert-camus

Humanidade miserável – por Aurora Bernardini

14/04/2010

* Em seu primeiro romance, Dostoiévski trouxe à tona os sentimentos e infortúnios dos excluídos de São Petersburgo

Um mundo multiforme e contraditório, ao qual se referiu Igor Vólguin – estudioso da obra de Dostoiévski (1821-1881) – configurou-se em volta do escritor desde sua primeira infância. Doçura e crueldade, miséria e esbanjamento, fantasia e realidade, ordem rígida e evasão, soberba e submissão, avareza e dom de si são apenas algumas das características que haverão de marcar Gente Pobre (1844-1846), seu primeiro romance.

Fiódor era o segundo dos sete filhos (quatro homens e três mulheres) de Mikhaíl Andréievitch e Maria Fiódorovna Netcháiev. O pai, médico, iniciou sua formação cuidando dos feridos da campanha contra Napoleão em 1812, mas teve uma carreira medíocre. Vítima de um terrível complô dos servos que maltratava, morreu em sua propriedade rural localizada em Tula, cidade próxima a Moscou. A mãe, Maria Fiódorovna, era filha de um rico comerciante. Mulher sensata e generosa, abrandava o marido ciumento e protegia a prole de seus ataques.

Quando Fiódor nasceu, a família morava nas dependências do grande hospital público Mariinski, em Moscou, onde o pai trabalhava. A casa em que moravam era circundada por um jardim, separado do hospital por uma grade. Era para lá que o jovem Fiódor escapulia, misturando-se aos pacientes e deles ouvindo as histórias mais variadas. Os relatos o impressionavam a ponto – dizem alguns de seus biógrafos – de ter tido aos 9 anos o primeiro ataque de epilepsia, doença que nunca o abandonou e que descreveria, com instantes de êxtase, em Mýchkin, Smerdiákov e em outros protagonistas de seus futuros romances.

Infortúnios

Em 1834, Fiódor e o irmão mais velho, Mikhail, foram inscritos no internato Tchermak, de onde sairiam para ingressar na Escola de Engenharia do Gênio Militar de São Petersburgo. Aos sábados, voltavam para casa e, valendo-se dos momentos em que o pai descansava, devoravam os livros de seus autores prediletos (Walter Scott, Charles Dickens, George Sand, Victor Hugo) e recitavam poemas de Púchkin e Jukóvski para a mãe, já doente de tuberculose, que os ouvia encantada.

A partir de 1837, as desgraças se sucedem. Primeiro a morte de Púchkin, o ídolo, depois, a da mãe amada. Outro grave desgosto: o irmão e grande amigo Mikhail não é aceito na Escola de Engenharia por questões de saúde. Na escola, rigorosíssima, mas onde injustiças são cometidas em prol dos protegidos, Fiódor passa por dificuldades financeiras e mal consegue sobreviver, pois o pai – tomado por uma avareza incontrolável – não lhe envia o dinheiro imprescindível. Em junho de 1839, recebe o telegrama em que é informado da morte do genitor, que fora brutalmente assassinado pelos colonos mujiques. A comoção é tanta que lhe sobrevém outro acesso epilético.

O crime repercute em sua consciência de forma indelével. Fora das leis humanas, ele também é culpado, também desejara a morte do pai, dirá Freud em seu ensaio “Dostoiévski e o Parricídio”. Se as leis humanas erigem um “muro de pedra” em volta do indivíduo, os futuros protagonistas de seus livros haverão de transpô-lo, caindo em um território ora ilógico, ora alucinado, em que será dito aquilo que tem medo de revelar a si próprio.

A gênese do romance

No entanto, a vida continua. Fiódor traduz Balzac e Schiller, compõe dois dramas históricos, joga e despede-se do irmão Mikhail que, agora casado, vai morar em Revel. Quem lhe fará companhia durante certo tempo é o irmão André, que vai a São Petersburgo estudar arquitetura.

Passados alguns concursos, Dostoiévski entra nos quadros do serviço ativo do Gênio Militar. Em 1844, porém, em vista de uma transferência que haveria de levá-lo para longe de São Petersburgo, demite-se irrevogavelmente. É em meio às dificuldades financeiras e ao mar de dívidas em que se encontra mergulhado que começa a esboçar Gente Pobre, seu primeiro romance. Em março de 1845, escreve ao irmão em Revel: “Estou contente com meu romance. Já o estou passando a limpo. É uma obra sóbria e limpa, apesar de alguns defeitos”.

Dostoiévski mal podia imaginar o estrondoso aplauso com que a crítica progressista da “escola natural” russa – de tendência social, voltada para o tema dos desvalidos, com Belínski à frente – iria saudar o livro, publicado em 1846. Em forma epistolar, o romance traz duas digressões nas quais os dois heróis contam um ao outro sua vida modesta e atribulada. De um lado está o pobre escriba Makar Diévuchkin – que, como Akaki Akákevitch, de Gógol, só possui um uniforme remendado – e, de outro, seu secreto amor: a doce e terna Varvara Dobrosiólova, jovem que vive de costura, em uma casa ao lado.

O leitor há de ficar impressionado com os sentimentos insuspeitos e as “verdades elementares” que suscitam esses habitantes de uma São Petersburgo que, ao lado de belos palácios, avenidas fervilhantes e heróis retumbantes, como Don Carlos e Posa, abriga pardieiros de uma humanidade miserável composta de pequenos funcionários, usurários, prostitutas, estudantes e jovens ultrajadas. “Eles são vossos irmãos”, escreveria Belínski. “Em algum canto sombrio, o coração puro e nobre de um conselheiro dedicado a seus chefes e, com ele, o de uma jovenzinha, ultrajada e triste” – conforme escreveu Dostoiévski – lhe apontava a vereda pela qual começaria o percurso de sua longa estrada.


* Fonte: Revista Cult, 28 de março de 2010. Disponível em http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/humanidade-miseravel/

O Google e o futuro do livro – por ROGER CHARTIER

05/12/2009

HISTORIADOR AFIRMA QUE DIGITALIZAÇÃO NÃO SUBSTITUI AS BIBLIOTECAS E DIZ QUE EMPRESAS PRIVADAS NÃO DEVEM OCUPAR O ESPAÇO DO ESTADO NESSE SETOR

Digite “google” no serviço de pesquisas Google, em http://www.google.com/: a tela indicará a presença da palavra, e da coisa, em “mais de 400 milhões” de documentos. Se o sacrilégio não o incomoda, repita a operação e digite “dieu” [deus, em francês]: “cerca de 33 milhões” documentos serão propostos como retorno.

A comparação basta para compreender por que, nos últimos meses, todos os debates sobre a criação de coleções digitais de livros vêm sendo fortemente influenciados pelas iniciativas incessantes da empresa californiana. A mais recente é o lançamento [previsto para 2010] da livraria digital paga Google Editions, que explorará comercialmente parte dos recursos acumulados pelo Google Books. A obsessão pelo Google, por mais legítima que seja, pode resultar no esquecimento de certas questões fundamentais acarretadas pela digitalização de textos existentes em outra mídia, impressa ou manuscrita.

Essa operação serve como fundamento à criação de coleções digitalizadas que permitirão acesso remoto aos acervos preservados pelas bibliotecas. Aqueles que considerarem inútil ou perigosa essa extraordinária possibilidade que está sendo oferecida à humanidade serão decerto insensatos. Mas nem por isso devemos perder a sensatez.

A transferência do patrimônio escrito de um meio para outro já teve precedentes. No século 15, a nova técnica de reprodução de textos foi colocada a serviço dos gêneros que então dominavam a cultura dos manuscritos: manuais de escolástica, compilações enciclopédicas, calendários e profecias. Nos primeiros séculos da nossa era, a invenção do livro que continua a ser o nosso, em formato códice, com suas folhas, suas páginas e seus índices, acolheu em um novo objeto as escrituras cristãs e as obras dos autores gregos e latinos.

A história não ensina lição nenhuma, apesar do lugar-comum em contrário, mas, nesses dois casos, ela aponta para um fato essencial à compreensão do presente, a saber: que um “mesmo” texto deixa de ser o mesmo quando muda o suporte sobre o qual está inscrito e, com isso, suas formas de leitura e o sentido que lhe venha a ser atribuído por novos leitores. As bibliotecas sabem disso.

Cabe lembrar que proteger, catalogar e permitir o acesso aos textos continua a ser tarefa essencial das bibliotecas, e isso inclui oferecer acesso a todas as formas sucessivas ou concomitantes nas quais os leitores do passado os tenham lido. Essa é a primeira justificação da existência das bibliotecas, como instituição e como local de leitura.

Memória das formas

Mesmo supondo que os problemas técnicos e financeiros da digitalização venham a ser resolvidos e que todo o patrimônio escrito possa vir a ser preservado em forma digital, a conservação e comunicação das formas anteriores de suporte não se tornará menos necessária.

Pois o que é essencial, aqui, é a profunda transformação que veremos na relação entre fragmento e totalidade. Pelo menos até os nossos dias, no mundo eletrônico, é a mesma superfície iluminada da tela dos computadores que propicia a leitura dos textos, todos os textos, quaisquer que sejam seus gêneros e funções.

Rompe-se, assim, a relação que, em todas as culturas escritas anteriores, ligava estreitamente os objetos, os gêneros e os usos. Foi essa relação que organizou as diferenças imediatamente percebidas entre os diversos tipos de publicações impressas e as expectativas de seus leitores -guiadas pela própria materialidade dos objetos que transmitem essas diferenças. Já no mundo da textualidade digitalizada, o discurso não se inscreve mais nos objetos, algo que permitia que eles fossem classificados, hierarquizados e reconhecidos em sua identidade própria.

Temos um mundo de fragmentos descontextualizados, justapostos, indefinidamente reconstituíveis, sem que seja necessária ou desejável a compreensão da relação que os inscrevia na obra da qual tenham sido extraídos. Seria possível objetar que a situação sempre foi essa na cultura escrita, construída em larga medida e por largo período com base em coletâneas de extratos, de antologias de lugares-comuns, de trechos seletos. Certo. Mas, na cultura da mídia impressa, o desmembramento dos escritos é acompanhado pelo seu oposto: sua circulação em formas que respeitam sua integridade e, ocasionalmente, os reúnem em forma de “obras” -completas ou não.

Além disso, no livro em si, os fragmentos são necessária e materialmente integrados a uma totalidade textual, reconhecível como tal. Diversas consequências decorrem dessas diferenças fundamentais. A própria ideia de revista se torna incerta, porque a consulta aos artigos já não está ligada a uma lógica editorial que se torna visível pela composição de cada número, mas, sim, que se organiza a partir de uma ordem temática de rubricas. E é certo que as novas maneiras de ler, descontínuas e segmentadas, se enquadram mal às categorias que regiam o relacionamento entre leitores e textos.

São exatamente essas propriedades fundamentais da textualidade digital e da leitura diante de uma tela que o projeto comercial do Google pretende explorar. O mercado da empresa é o da informação. Os livros, como todos os demais recursos digitalizáveis, constituem uma imensa jazida da qual é possível realizar extrações.

Lucro

Daí decorre a percepção imediata e ingênua de todo livro, de todo discurso, como um banco de dados que fornece “informações” àqueles que as procuram. Satisfazer essa demanda e extrair um lucro é o primeiro objetivo da empresa californiana, e não construir uma biblioteca universal à disposição da humanidade.

E o Google não parece estar bem equipado para a tarefa, a julgar pelos múltiplos erros de datação, classificação e identificação cometidos durante a extração automática de dados. Essa descoberta genial de um novo mercado, em permanente expansão, e as proezas técnicas que deram ao Google um quase monopólio sobre a digitalização em massa garantiram o grande sucesso e os copiosos benefícios dessa lógica comercial. Ela supõe a conversão eletrônica de milhões de livros, entendidos como uma mina inesgotável de informações.

E exige, em consequência, acordos, já realizados ou ainda por vir, com as grandes bibliotecas do mundo. Mas também um processo de digitalização em larga escala, pouco preocupado com o respeito aos direitos autorais, e a formação de um gigantesco banco de dados, capaz de absorver outros bancos de dados e de arquivar informações pessoais sobre os internautas que utilizam os múltiplos serviços oferecidos pelo Google. Os representantes da companhia americana percorrem o mundo e as conferências para proclamar suas boas intenções: democratizar a informação, tornar acessíveis livros indisponíveis, remunerar corretamente as editoras e autores. E assegurar a conservação, “para sempre”, de obras ameaçadas pelos desastres que podem afetar as bibliotecas. Essa retórica de serviço público e de democratização universal não basta para rebater as preocupações causadas pelos empreendimentos do Google.

Em artigo para o “New York Review of Books” (12/2/09) e em livro publicado recentemente, “The Case for Books -Past, Present and Future” [Defesa dos Livros – Passado, Presente e Futuro, ed. Pub- licAffairs, 240 págs., US$°23,95, R$°41], o historiador Robert Darnton apela aos ideais do iluminismo para alertar contra a lógica do lucro que orienta as empreitadas do Google.

É fato que, até o momento, continua a haver uma clara distinção entre as obras caídas em domínio público, disponíveis gratuitamente via Google Books, e os livros protegidos por direitos autorais, órfãos ou não, cujo acesso e aquisição, via Google Editions, são pagos. Mas nada garante que no futuro a empresa, dada sua situação monopolista, não venha a impor preços consideráveis pelo acesso, a despeito de sua ideologia do bem público e do acesso público hoje oferecido.

Compromissos

Não se pode esquecer que já existe um vínculo entre os anúncios publicitários, que garantem os consideráveis lucros do Google, e a hierarquização de “informações” que resulta de cada busca nesse site.

Além disso, em numerosos casos, a utilização pelas bibliotecas de suas próprias coleções, digitalizadas pelo Google (mesmo quando se trata de obras de domínio público), está sujeita a condições completamente inaceitáveis, tais como a proibição de explorar os arquivos digitalizados por algumas décadas ou de uni-los aos arquivos de outras instituições. E há outro segredo completamente inaceitável: o que envolve as cláusulas dos contratos assinados entre a empresa e cada biblioteca. A justa reticência diante de uma parceria assim arriscada tem diversas consequências.

Para começar, é preciso exigir que o financiamento público a programas de digitalização esteja à altura das necessidades, dos compromissos e das expectativas de que os Estados não transfiram a empresas privadas a responsabilidade pelos investimentos culturais de longo prazo que lhes cabem. Também é necessário decidir prioridades, sem necessariamente imaginar que todo “documento” deva ser digitalizado. A obsessão, talvez excessiva e indiscriminada, pela digitalização não deve mascarar um outro aspecto da “grande conversão digital”, para retomar a expressão do filósofo Milad Doueihi. Essa escrita palimpséstica e polifônica, aberta e maleável, infinita e móvel confunde as categorias que, desde o século 18, servem como fundamento à propriedade literária. Essas novas produções escritas, muitas das quais digitais já de origem, propõem a difícil questão de como se deve conservá-las e arquivá-las.

É preciso estar atento, mesmo que a urgência atual seja a de decidir como e por quem será realizada a digitalização do patrimônio escrito, à necessidade de que a “República digitalizada do saber” não seja confundida com o grande mercado de informação onde o Google e outros oferecem seus produtos.

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ROGER CHARTIER é professor no Collège de France e autor de “Inscrever e Apagar – Cultura, Escrita e Literatura” (ed. Unesp). A íntegra deste texto foi publicada no jornal “Le Monde”. Tradução de Paulo Migliacci .
* Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 29.11.09, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2911200912.htm

Amós Oz se afasta de cotidiano de guerra para investigar perdas – por MOACYR SCLIAR

14/11/2009

Contos de escritor israelense deixam de lado brigas, atentados e cenários reais

Existem nomes que condicionam destinos. O profeta Amós era um duro crítico dos ricos e dos poderosos: “Ai dos que dormem em cama de marfim”, diz ele, numa conhecida passagem. O escritor israelense Amós Oz não é muito diferente de seu homônimo bíblico, como constatei recentemente ao participar com ele num debate realizado na Feira do Livro Judaico, em Londres.

Mais uma vez ele mostrou sua implacável coerência. Pacifista atuante, mas não ingênuo, Oz externou seu apoio à retaliação israelense contra as ações do Hamas em Gaza, criticando, contudo, o fato de que, não restrita a uma operação de objetivos precisos e limitados, a operação acabou resultando em uma verdadeira guerra com centenas de vítimas civis.

Com outros escritores (notadamente David Grossman), Oz funciona como a consciência intelectual de Israel. Mas, apesar dos apelos de Shimon Peres e dos esquerdistas do Meretz, Oz se recusa a fazer política partidária. Ele é um escritor e escritor de uma carreira extraordinariamente bem-sucedida. Autor de mais de duas dezenas de obras de ficção e de não ficção, detentor de vários prêmios importantes (é um candidato mais ou menos permanente ao Nobel), Oz é amplamente traduzido e certamente o mais conhecido escritor israelense.
Para os numerosos leitores de Oz, “Cenas da Vida na Aldeia” (Companhia das Letras) não deixará de se constituir numa surpresa. Nenhum dos dramas que fazem parte do cotidiano israelense está presente aqui: não há guerras, não há atentados, não há brigas com os palestinos. Mais: o livro não tem os habituais cenários de Jerusalém ou Tel Aviv. As oito histórias que compõem a obra ocorrem na fictícia aldeia de Tel Ilan.
São narrativas independentes, embora os personagens possam nelas reaparecer. E a pergunta que imediatamente emerge é: de que falam esses contos, aliás magníficos? A resposta se impõe. Falam da condição humana. Falam de pessoas que, diz o próprio Oz, têm algo em comum: “É gente que perdeu algo, algo que esses personagens esconderam de si mesmos e que agora estão buscando”.
Em “Os Que São Próximos”, a médica Guili Steiner está esperando por um sobrinho, o soldado Guid’on Gat, que deve vir de Tel Aviv de ônibus. O ônibus chega, mas nele não está o rapaz. O conto descreve a nervosa busca da doutora e vai revelando que, na verdade, a realidade entre tia e sobrinho era muito complicada, e que esse desencontro, suposto ou real, tem raízes muito mais profundas.
Em “Os Que Esperam”, Benny Avni recebe um bilhete da esposa. Diz simplesmente “Não se preocupe comigo”. Claro que ele se preocupa: corre para casa, procura em vários lugares e não acha a esposa. Ela sumiu, e esta é a dúvida que sustenta a narrativa: por que sumiu? Para onde foi?
A única história na qual há uma alusão, não muito direta, aos conflitos de Israel é “Os Que Cavam”. Ali encontramos Pessach Kedem, um antigo deputado de esquerda. Já senil, ele vive com a filha, Rachel, que tem como inquilino um estudante árabe, Adel, que a Pessach inspira suspeitas (assim como lhe inspira rancor seu passado esquerdista). Mas os dois têm algo em comum: eles acham que alguém está solapando os alicerces da casa, e esse é o mistério da história.
Oz completou 70 anos em 2009. Setenta anos de uma vida agitada, com passagem pelo kibutz, pelo exército, pela militância política. Mas 70 anos significam também a velhice, a busca, muitas vezes desesperada, de um significado para a existência. “Este livro não poderia ter sido escrito por alguém jovem”, diz o autor. Verdade. E não poderia ter sido escrito por ninguém que não seja um grande escritor.

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CENAS DA VIDA NA ALDEIA
Autor: Amós Oz
Tradução: Paulo Geiger
Editora: Companhia das Letras, 2009.
* Fonte: Folha de S. Paulo, 14.11.09, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1411200916.htm