Os números de 2010

11/01/2011

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog: Healthy blog! O Blog-Health-o-Meter™ indica: Este blog está em brasa!.

Números apetitosos

Imagem de destaque Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 9,900 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 24 747s cheios.   In 2010, there were 17 new posts, growing the total archive of this blog to 143 posts. Fez upload de 24 imagens, ocupando um total de 194kb. Isso equivale a cerca de 2 imagens por mês. The busiest day of the year was 13 de junho with 159 views. The most popular post that day was Cristo era um revolucionário? – por EDUARDO SOCHA.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram mail.live.com, mail.yahoo.com, antoniozai.blogspot.com, orkut.com.br e google.com.br Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por mauro luis iasi, movimento literario, meta amor fases, massa e poder e textos de jornais e revistas

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Cristo era um revolucionário? – por EDUARDO SOCHA junho, 2010

2

Análise de “A Náusea”, de Jean Paul Sartre – por Marcelo Sobrinho Mendonça maio, 2010 3 comentários

3

Meta Amor Fases: coletânea de poemas – por Mauro Luis Iasi maio, 2009

4

“O Coração das Trevas”: uma denúncia contra a exploração imperialista agosto, 2009 3 comentários

5

Homenagem: Albert Camus – por Manoel da Costa Pinto maio, 2010 2 comentários

Vitória de Sócrates

27/10/2010

I. F. STONE. O julgamento de Sócrates. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (331p.)

Sócrates, como se sabe, era um elitista empedernido que vivia às turras com os democráticos cidadãos atenienses. Acusado de desencaminhar politicamente a juventude, ao atacar o sistema de autogoverno, acabou condenado à morte em 399 a.C..

O julgamento é sempre lembrado pela contradição de uma sociedade democrática processar um crime de opinião. Em O julgamento de Sócrates, I. F. Stone enfatiza outro aspecto: o filósofo, em sua defesa, preferiu não invocar o princípio da liberdade de expressão, o que poderia conduzi-lo à absolvição.

E por que não o fez? Stone especula: “Se, neste caso, Sócrates saísse vitorioso, seria também uma vitória para os princípios democráticos que ele ridicularizava. Se Sócrates fosse absolvido, Atenas seria fortalecida”. O filósofo emerge do livro de Stone com seus vícios e virtudes. De um lado, o pensador que punha o conhecimento acima de tudo (o resto não passava de “doxa”, simples opinião). De outro, o sábio que usava a própria sabedoria para, com fins políticos, humilhar os notáveis da cidade.

Após várias reimpressões nos anos 90, O julgamento não está mais disponível nas livrarias. Escrito por um jornalista americano do primeiro time, conhecido por sua defesa das liberdades civis, o livro provoca excitação intelectual pela clareza com que sintetiza o complexo jogo de poder na Grécia Antiga. Talvez seja a melhor introdução ao assunto.

 

Fonte: http://www2.uol.com.br/entrelivros/noticias/vitoria_de_socrates.html

 

Por uns velhos vãos motivos, somos cegos e cativos – por UBIRACY DE SOUZA BRAGA

25/09/2010

* Um dos maiores escritores de todos os tempos, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839. Poeta, romancista, novelista, contista, cronista, dramaturgo, ensaísta e crítico, fundou a Academia Brasileira de Letras e foi seu primeiro presidente. Não se sabe ao certo, se frequentou escolas formalmente. Antes de ser jornalista e cronista, “foi caixeiro de livraria, tipografia e revisor”. Em 1855, publicou a poesia “A palmeira”, no jornal Marmota Fluminense, artesanalmente editado numa livraria que havia se transformado em ponto de encontro de escritores da época. Entre suas obras mais conhecidas estão os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), onde “o verdadeiro tema é a nossa mortalidade, o que não constitui assunto para descaso e gracejo, pois o tema enseja uma perspectiva, ao mesmo tempo, distanciada e hilária. O gênio da ironia propiciou-nos poucos exemplos à altura do escritor afro-brasileiro (…), a meu ver, o maior literato negro surgido até o presente” (Bloom, 2003: 687).

Para concordarmos com Alfredo Bosi (2007), no clássico e singular livro Machado de Assis. O enigma do olhar, Machado de Assis não foi, “nem conservador, nem evolucionista, nem positivista, nem cientificista, nem republicano, nem militante abolicionista, embora inequivocamente simpático ao movimento antiescravista dos anos 70 e 80. Machado educara o seu olhar em valores e modos de pensar que vinham da tradição analítica e moral seis-setecentista. Valores e modos de pensar que permearam o seu distanciamento estratégico e deram à sua linguagem um quê de discreto e picante que pode até parecer clássico” (Bosi, 2007:163).

E para reiterarmos ainda o ensaísta e diplomata Sérgio Paulo Rouanet, coordenador do projeto arrojado do centenário de Machado, além do dandismo (alegre, irônico e exuberante) e do talento estético, ele tinha habilidade de manter “distância das lutas políticas do império”, mas fez literatura “como missão”, no sentido que emprega (Sevcenko, 1998; 1998). A qualidade se revelou no fim de 1866, quando Machado assumiu interinamente a direção do Diário do Rio de Janeiro, com a ausência do diretor Saldanha de Marinho (1816-1895) e do diretor-chefe, Henrique César Muzzio. Com a vida relativamente estabilizada, Machado de Assis “ganhou o mundo” ao lado de Carolina: cresceu no serviço público, coisa rara nestes em que vivemos um “Minotauro Imperial” (cf. Braga, 2009), onde galgou e teve sossego para escrever, fato caro entre nós nesses dias e mesmo no decorrer da historia. Seus anos românticos chegaram ao fim.

De outra parte, já a atriz e diretora de produção, mutatis mutandis, do espetáculo cearense sobre Machado de Assis, Ana Cristina Viana nos conta que celebrar seus 25 anos de cena montando este texto representa, inicialmente, “concretizar um projeto de quatro anos”. Assim, afirma: “Então, que não me torrem a paciência dizendo que a montagem veio na esteira do centenário de Machado ou da minissérie de Luiz Fernando de Carvalho, ´Capitu`. Segundo a atriz que encara Capitu em três momentos de sua vida, com ênfase na velhice (nada tão machadiano), ir em frente foi inevitável, apesar da possibilidade de comparações. Foi ela quem incentivou Ceronha Pontes a topar fazer a adaptação, talvez estimulada pela sensibilidade diante de ´Uma Branca sombra Pálida`, conto de Lygia Fagundes Telles, levado ao palco há alguns anos” (cf. Diário do Nordeste. Fortaleza, 31.03.2009).

Ele, Machado de Assis, pode ser, para este nosso século XX, se nos permitem uma digressão, e claro, se estivermos atentos para as mudanças nas estruturas econômicas, sociais e políticas vista na pena e na dimensão histórica por Eric Hobsbawm, como aparece nos estudos clássicos “A Era das Revoluções”, “Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”, “Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz”, “Nações e Nacionalismo desde 1780”, entre outros, com uma visão acuradíssima dos dias de hoje, com elementos etnobiográficos “ditos e escritos” em “Tempos Interessantes”. Nasceu no Egito ainda sob o domínio britânico. Obteve nacionalidade britânica. Nessa época, tanto a Áustria quanto a Alemanha sofriam com a crise econômica e a convulsão social, consequências diretas da Primeira Grande Guerra (1914-18). Seu pai morreu em 1929, e tornou-se órfão quando sua mãe faleceu em 1931. Ele e sua irmã foram adotados pela tia materna Gretl e seu tio paterno Sydney que se casaram e tiveram um filho chamado Peter. Mudou-se para Londres em 1933. Hobsbawm casou-se duas vezes, primeiro com Muriel Seaman em 1943, divorciando-se em 1951 e logo com Marlene Schwarz. Com esta última teve dois filhos, Julia e Andy, e um filho chamado Joshua de uma relação afetiva anterior.

Isto posto, Machado de Assis como letrado, na acepção gramsciana do termo (cf. Gramsci, 1974; 1975) percebeu um mundo em  “agonia”, sendo “uma voz inquietante que fala baixo mas provoca sempre”. Sua literatura e biografia alcançaram, talvez, o maior patamar a que se pode almejar nesse campo de conhecimento no Brasil, e de resto no mundo. Em 1904, desgraçadamente com o falecimento de sua mulher e companheira de 35 anos de casamento, Machado de Assis perde o prazer de viver, como ocorre nos grandes romances, como o de Luiz Carlos Prestes e Olga Banário, ou, Jorge Amado e Zélia Gattai reconhecidamente uma de nossas maiores escritoras que veio a falecer por estes dias aos 91 anos de idade, em Salvador. De todo modo, ainda para insistirmos no caso da literatura, mutatis mutandis lembramo-nos de Manuel Bomfim o que diz respeito ao fato de que ele recebe o “facho” das mãos de João Francisco Lisboa e Oliveira Lima, transmitindo-o, mais brilhante, às de José Honório Rodrigues, Nelson Werneck Sodré, João Cruz Costa, historiadores que deixaram a sua marca na concepção de história e, portanto, na memória, seja no plano individual, seja no plano coletivo.  Não importa que o Brasil pareça confuso, desorganizado; das suas contradições sairão grandes sínteses: “é a Mensagem de Fé e Esperança, de Bomfim”. Não era Manoel Bomfim, assim, um jacobino que escrevia dando murros na mesa: “era um [homem] dolorosamente apaixonado pelo Brasil, como Unamuno pela Espanha, não pelo gosto amargo do paradoxo, porém pelo incontrolável desejo de vê-lo se purificando na catarse”.

Para o que nos interessa, no conto Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, propugna uma análise do comportamento de alguns membros da sociedade. Descreve-os de maneira extremamente clara, precisa, com um humor recatado, ironizando-os usando como background uma conversa aparentemente inocente como a de um pai com um filho. Ora, a tese freudiana de que “se os pais soubesse educar os filhos, os filhos não precisariam de pais ao que parece se repete”. Esse conto, um dos mais deliciosos libelos do escritor contra a mediocridade intelectual e política, é satírico por excelência, lembrando a ironia filosófica dos relatos curtos de Voltaire. Praticamente sem ação, seu núcleo temático gira em torno de uma exposição de ideias cínicas, através do diálogo entre pai & filho. Teoria do Medalhão desenvolve com muita ironia as mesmas questões levantadas pelo conto O Espelho. O narrador cede seu espaço à reprodução das falas das duas únicas personagens: pai & filho. O tom terrivelmente irônico da fala do pai revela, obviamente, “a denúncia feita pelo Autor por trás do conto em relação a uma sociedade burguesa medíocre e arrogante, que prega o sucesso a qualquer preço, mesmo à custa do empobrecimento da vida interior e das relações sociais e políticas”. A atualidade é medonha se for analisado o discurso paternalista de Tasso Jereisati no e para o Senado, ou mesmo o discurso bonachão do governador Cid Gomes enumerando obras faraônicas de seu governo como se fosse um Petrus Ramus.

No caso machadiano, o diálogo familiar acontece numa noite às onze horas, após um jantar comemorativo dos 21 anos do filho. Quando pai & filho ficam a sós na sala, este aconselha o filho a se tornar um Medalhão, ou seja, “um homem que ao chegar à velhice, tenha adquirido respeito e fama na sociedade do Rio de Janeiro do século XIX”. Para tanto, será necessário que ele mude seus hábitos e costumes e passe a viver “sob uma máscara, anulando os seus gostos pessoais e suas atitudes”. E nisso disserta sobre a necessidade do filho “de sempre manter-se neutro, usar e abusar de palavras sem sentido, conhecer pouco, ter vocabulário limitado” etc. Ao final, é uma bela ironia machadiana sobre como se encontram os valores da sociedade de sua época, e porque não analogamente nos dias de hoje na sociedade cearense. Portanto, o medalhão, tipo criado pelo Autor neste conto, se caracteriza por “aparentar ser o que não é”. Caracteriza-se, sobretudo, por ter, como nos medalhões, “uma face oculta e sem atrativos, voltada apenas para o corpo do dono, e outra, vistosa, virada para o exterior, para ser vista e admirada, respeitada”.

A Teoria do medalhão é um dos contos que mostra Machado de Assis como um crítico afiado da sociedade brasileira no que ela tem de mais profundo: “a mediocridade condecorada, a troca de favores como motor básico das relações sociais, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime”. O conto é uma lição a todo homem que almeja ter prestígio, ser reconhecido pela sociedade e que elimina qualquer expressão da subjetividade em nome da absorção ao senso comum, “uma reflexão sem juízo” na definição de Hans-Georg Gadamer, à opinião da maioria no sentido político do termo. Os “papéis sociais” para fazermos referência a Talcott Parsons, no conto machadiano, pertencem, num primeiro momento, a um grupo restrito: pai & filho. As personagens não possuem nomes e são, portanto, caracterizadas somente pela posição que ocupam no grupo familiar. Num segundo momento, no decorrer da narrativa, há a construção de um terceiro papel social, este pertencente a um grupo mais amplo: o Medalhão.

No diálogo estabelecido no conto, há a presença das formas de tratamento. O pai dirige-se ao filho sempre utilizando a 2ª pessoa pronominal: tu, te, contigo, teu etc.; o filho, por sua vez, utiliza-se a 3ª pessoa, com valor de 2ª pessoa: vosmecê, lhe, o senhor etc. No primeiro caso, a presença da 2ª pessoa dá um valor de proximidade ao discurso (ou tentativa de), dando um maior sentimento de intimidade. No segundo caso, o uso da 3ª pessoa, mostra uma aceitação do discurso paterno, e, portanto o que remete ao paternalismo político, como se não houvesse outro meio de discussão. É a aceitação pacífica do papel social que cabe ao filho no final do século XIX. Daí a atualidade sempre marcante de Machado de Assis na sociedade brasileira, e de resto no mundo, quando precipita como um balão de ensaio na estufa, a mediocridade condecorada na velha política destes nossos dias, seja com o discurso bonachão de um Tasso Jereissati, seja com a aliança política do governo Cid Gomes, a troca de favores com o governo federal, como tem sido sobejamente acalentada por políticos como o Sr. Pimentel ou Eunício para o Senado, “os senadores do Lula” (sic), tendo como “combustível” básico das relações sociais e políticas, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime em momentos em que não se configura crise de hegemonia política na sociedade brasileira e particularmente no estado do Ceará. Daí a melancolia do cantor Taiguara quando afirma: “por uns velhos vãos motivos, somos cegos e cativos…Eu desisto não existe essa manhã que eu perseguia, um lugar que me dê trégua e me sorria…”.

Bibliografia consultada

ALVES FILHO, Aluizio, Pensamento Político no Brasil. Manoel Bomfim: um ensaista esquecido. Rio de Janeiro: Achiamé/Socii, 1979.

_____________, “Nietzsche e Monteiro Lobato”. In: Jornal O Estado de São Paulo, 6.9.1988.

ASSIS, Machado de, Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora  José Aguilar, 1959.

____________, Contos; seleção de Deomira Stefani, texto integral. 6ª edição. São Paulo: Ática, 1977.

____________, Crônicas Escolhidas. São Paulo: Ática, 1994.

____________, Memórias Póstumas de Brás Cubas. 22ª edição. São Paulo: Ática, 1997.

BLOOM, Harold, Gênio – Os 100 autores mais criativos da história da literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

BOSI, Alfredo, Machado de Assis: o enigma do olhar. 4ª edição. São Paulo: VMF/Martins Fontes, 2007.

BRAGA, Ubiracy de Souza, “Teu saber nada valerá se não souberem que tens saber”. Disponível em: http://secundo.wordpress.com/2010/08/07.

FERNANDES, Florestan, A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.

FOUCAULT, Michel, “Deux essais sur le sujet et le pouvoir”. In: DREYFUS, Hubert e RABINOW, Paul. Michel Foucault, Un parcous philosophique. Paris: Gallimard, 1984

GADAMER, Hans-Georg, Wahrheit und Methode: Grundzüge einer philosophischen Hermeneutik.Tübingen, Mohr, 1960.

GRAMSCI, Antonio, Conceito de nacional-popular.Teoria. Obras Escolhidas. Vol. II. Lisboa: Editorial Estampa, 1974.

____________, Gli intellettuali e l`organizazione della cultura. Torino: Ed. Einaudi, 1975.

HEGEL, G. W. F., Fenomenologia dello Spirito. Florença: La Nuova Itália, 1973, 2 volumes.

SEVCENKO, Nicolau, (org.), História da vida privada no Brasil 3 – República: da Belle Époque à era do rádio. Dir. Fernando A. Novais. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

_____________, Literatura como missão: tensões sociais na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1999.


* UBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

** Agradeço ao autor e, também, ao Francisco Secundo Neto, editor do blog Secundo Caderno

George Orwel fiel a seus princípios – por SERGIO AMARAL SILVA

10/07/2010

Nascido há mais de um século, o revolucionário e radical George Orwell continua atual. “1984”, o livro mais conhecido do autor que criou expressões como “guerra fria” e “Big Brother”, chega agora aos 60 anos.*

“Se a liberdade significa alguma coisa, será, sobretudo, o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.” “1984”, George Orwell

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido em Bengala, na Índia sob dominação inglesa, em 25 de junho de 1903. Sua mãe tinha ascendência francesa, e seu pai era um funcionário civil da marinha britânica. O garoto foi educado na aristocrática Academia de Eton e, desde cedo, mostrava sua decepção com a sociedade de que fazia parte, revelando uma precoce rebeldia intelectual.

Aos 19 anos, entrou na polícia imperial britânica, passando os cinco anos seguintes entre a Índia e a Birmânia (atual Mianmar). Nesse período, revoltou-se contra a política colonial opressora da Inglaterra, desertando em 1927. Da experiência resultariam alguns de seus primeiros ensaios e seu romance de estreia, “Dias na Birmânia”, publicado em 1934.

No final dos anos 1920, de volta à Europa, Blair renegou sua origem, sua fortuna e o próprio nome, por considerá-los vergonhosos. Adotou o pseudônimo de George Orwell e passou a viver como operário de fábrica em Paris e depois como professor primário em Londres. Em 1933 sairia seu relato sobre essa vivência de miséria e falta de liberdade, “Na Pior em Paris e Londres”. Foram tempos difíceis para o escritor, que em 1935 publicou A “Filha do Reverendo” e, em 1936, “Keep the Aspidistra Flying”.

CRÍTICA

Se Orwell se deixasse abater pelos obstáculos iniciais, teria encerrado prematuramente a carreira. Um exemplo? Um de seus primeiros trabalhos recebeu da crítica o amável comentário de que ele escrevia “como uma vaca com uma espingarda”…

Alguns anos mais tarde, Orwell já começava a ser reconhecido como um autor de talento, ao mesmo tempo em que adotava atitudes cada vez mais radicais. Assim, engajar-se na Guerra Civil Espanhola, que começou em 1936, foi para ele um ato natural. Conforme suas próprias palavras, “reconheci imediatamente que era um estado de coisas pelo qual valia a pena lutar”.

Em 1937, publicaria “O Caminho Para Wigan”, narrando a extrema pobreza dos trabalhadores das minas do norte da Inglaterra. No livro, afirmou que desejava “escapar de toda forma de dominação do homem sobre o homem”.

No mesmo ano, foi para a Catalunha, onde se alistou para lutar contra o fascismo ao lado dos anarquistas do Partido Operário de Unificação Marxista, o POUM . Foi para a frente de batalha.

Em Barcelona, ele e seus companheiros começaram a ser perseguidos pelos comunistas, que deviam ser seus aliados. Isso acabou revelando o caráter duplo da posição dos russos.
Deu baixa após um ferimento a bala no pescoço e voltou à Inglaterra, tendo escrito em 1938, “Homenagem à Catalunha”, que saiu no Brasil com título de “Lutando na Espanha”. A partir desse livro, um amargo e desencantado testemunho ocular da guerra, consolidase seu objetivo literário. Como o autor afirmaria no ensaio “Por que Escrevo”, de 1946, o de “transformar a escrita política em arte”. E acrescenta: “Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar a atenção, e penso sempre que vou encontrar quem me ouça.”
DESAFETOS
Ainda em 1938, contraiu tuberculose e passou uma temporada em Marrocos, onde escreveu a novela “Coming Up For Air”, publicada em 1939, ano em que começou a segunda guerra mundial. Orwell pensou em lutar, mas foi declarado fisicamente inapto. Ilustração Kuco Depois de sua intensa vivência espanhola, ele se mostrou decepcionado com os partidos comunistas, com sua estrutura rígida e obediência irrestrita a Moscou. Se por um lado sua postura de socialista revolucionário se fortaleceu, ao mesmo tempo cresceu nele o anti-stalinismo, levando-o a uma espécie de socialismo independente. Em 1941, trabalhando para a BBC, escreveu o ensaio “O Leão e o Unicórnio”. Na época, defendia a nacionalização “da terra, das minas, das estradas de ferro, dos bancos e das principais indústrias”. Ainda durante a guerra, serviu num corpo civil para defesa local.

“A REVOLUÇÃO DOS BICHOS”

Além do fascismo e do imperialismo, outros grandes inimigos de Orwell eram a desonestidade de propósitos e as atitudes politicamente ambíguas dos que apoiavam o regime comunista de Stalin. Isso ficou ainda mais claro quando, na Segunda Guerra, a União Soviética se aliou ao Ocidente contra Hitler. Em 1943, Orwell tornou-se editor literário do jornal Tribune e começou a elaborar uma fábula que exibisse o totalitarismo e a face burguesa da Rússia. Ali, os comunistas eram representados pelos porcos de uma fazenda inglesa dirigida por animais: “A Revolução dos Bichos”. Naquela circunstância, “estar disposto a criticar a Rússia e Stálin é a prova da honestidade intelectual”, afirmou em agosto de 1944. Vários editores britânicos se recusaram a lançar o romance, temendo criticar o aliado inglês na guerra. Finalmente, o livro acabou saindo, em 1945. Foi um acontecimento literário, que ajudou a alertar o Ocidente sobre a verdadeira natureza do regime de Moscou.

Nesse trabalho, o autor superou em definitivo a trama muitas vezes pobre de suas primeiras novelas, tratando com desenvoltura seu argumento, num cenário que lhe era muito familiar. Afinal, era apaixonado pelo campo, onde vivera no fim dos anos 1930. Na sátira, ele criticava duramente a corrupção pelo poder, indo do particular para o geral. Essa habilidade, aliás, constitui um dos pontos fortes da obra de Orwell, principalmente nos ensaios sobre política.

“1984”

Com o fim da guerra, Orwell foi para uma ilha na Escócia. Lá, aprofundou sua condenação ao autoritarismo de todos os gêneros em seu último livro, o mais conhecido: “1984”, que guarda semelhanças com “Admirável Mundo Novo” (1932), de seu companheiro de escola Aldous Huxley. George Orwell foi um dos mais influentes escritores políticos do século 20, dado o alcance histórico e geográfico de sua literatura. A propósito, a expressão guerra fria, que marcou a segunda metade do século, apareceu pela primeira vez num artigo de Orwell, de acordo com o registro do Oxford English Dictionary.

TRAIÇÃO?

O escritor morreu de tuberculose em Londres, em 21 de janeiro de 1950, com 47 anos incompletos. Antes, porém, envolveuse num polêmico episódio no qual, segundo alguns historiadores, ele teria denunciado ao governo britânico 130 suspeitos de comunismo. Outros acreditam que Orwell apenas forneceu uma lista de nomes para que essas pessoas não viessem a receber propaganda anticomunista. Segundo consta, aqueles acusados não sofreram nenhuma retaliação.

Passadas décadas desde esses acontecimentos, interessa-nos perguntar qual a utilidade de ler o autor ainda hoje, quando seus maiores adversários políticos – o imperialismo, o fascismo e o comunismo – estão praticamente derrotados. Afinal, foi exatamente nos anos 1980 que começou a cair o regime soviético que inspirou 1984…

Há muitas respostas possíveis, entre elas a de que Orwell merece ser lido, mais que por interesse histórico, pela honestidade, coragem e fidelidade aos ideais em que acreditava. “Capaz de exagerar com a simplicidade e a inocência de um selvagem”, como disse Pritchett ao resenhar “O Leão e o Unicórnio”, o escritor tem uma importante lição a nos transmitir sobre engajamento e paixão na literatura, ainda mais útil num tempo como o atual, em que predominam o individualismo e a apatia.

__________
* Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria Literatura. Fonte: Revista Literatura, nº 24, disponível em http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/24/artigo144825-1.asp

Cristo era um revolucionário? – por EDUARDO SOCHA

13/06/2010

Para Terry Eagleton, hoje considerado o crítico literário mais influente da Inglaterra, a resposta é sim e não

Cristo, um líder político? Eagleton analisa os quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) e, seguindo as omissões, contradições, escolhas e tendências de suas estruturas narrativas, procura dar conta de uma questão controversa que historicamente excede o campo da teologia.

Na apresentação ao livro, o crítico mostra que a pergunta retórica – “Jesus era apenas um líder espiritual e não um líder político?” – já incorpora um anacronismo pelo qual as interpretações mais costumeiras passam batidas. Afinal, perguntas dessa natureza só se tornam possíveis quando se “projeta para o passado uma distinção moderna entre religião e política que certamente não está nas Escrituras”. Nesse sentido, independente da voltagem espiritual das pregações de Cristo, é no mínimo sensato supor que a severa punição da crucificação não se deu por exclusivas razões de fé. Os romanos não se interessavam por diatribes ideológicas ou religiosas de suas colônias, mas destinavam a crucificação àqueles que representavam uma concreta ameaça à ordem pública.

O texto incisivo e elegante de Eagleton, cuja envergadura teórica rechaça qualquer acusação de diletantismo, não se exime de passagens corrosivas que, em outras épocas, facilitariam enormemente o trabalho dos inquisidores e censores do Index. Quando se fala, por exemplo, da proximidade de Jesus (depois desmentida) e principalmente de Judas com a seita dos zelotes (movimento clandestino anti-imperialista dedicado a expulsar os romanos da Palestina, que Eagleton compara ironicamente à Al-Qaeda), o autor chega a cogitar não sem um certo cinismo: “Talvez Judas tenha vendido Jesus porque esperava que ele fosse um Lênin e ficou amargamente desencantado quando compreendeu que não ia liderar o povo contra o poder colonial romano”.

Eagleton detecta o ímpeto materialista das atitudes cristãs (“O Reino dos Céus revela-se uma questão surpreendentemente materialista”), testemunhadas aliás na própria letra dos Evangelhos. E conclui que Jesus, ao contestar as autoridades judaicas e ao defender um horizonte de justiça e fraternidade até então inexistente (embora não ambicionasse com isso uma transformação radical do poder – “a César o que é de César”), foi a um só tempo mais e menos revolucionário que Lênin e Trotski. Pode-se não concordar com muito do que é dito. Mas o estilo afiado de Eagleton consegue localizar uma dimensão curiosamente incendiária e não tão popular do Cristo dos Evangelhos, confirmando, no final das contas, que uma outra exegese é possível.

Jesus Cristo – Os Evangelhos
Apres.: Terry Eagleton
Trad.: José Maurício Gradel
Jorge Zahar
240 págs.


* Fonte: Revista Cult, 30 de março de 2010, disponível em http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/lancamentos-ciencias-humanas-2/


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